O Desvio
O quarto andar da MonteiroCorp estava mais silencioso do que o normal.
Eloise caminhou pelo corredor, o salto marcando um ritmo firme.
Ela estava decidida. Clara. Certeira.
Aquilo precisava ser encerrado — agora, antes que se transformasse no tipo de ruído que ela e Augusto jamais permitiriam entre eles.
A mesa de Lucas ficava na fileira do fundo, numa daquelas baias de vidro baixo, onde todo mundo via todo mundo.
Eloise percebeu os olhares assim que se aproximou.
— Lucas. — chamou, com voz calma. — Podemos conversar?
Ele levantou os olhos do computador, e o sorriso que veio parecia ensaiado demais.
Algumas cabeças ao redor se voltaram discretamente.
Eloise notou.
Não aqui.
— Vamos até o refeitório. — disse ela, já indicando o elevador.
Lucas se levantou. Parecia normal.
Quase normal demais.
Ele estava prestes a pegar o celular quando uma notificação surgiu na tela:
> ALERTA: Tentativa de acesso remoto detectada.
Ele travou por um microsegundo — apenas um.
Mas Eloise viu.
— Algum problema? — perguntou, de leve.
— Nada demais. — ele respondeu, rápido demais. — Só… um backup automático.
Ele desligou o monitor.
E os dois entraram no elevador.
Eloise apertou o 2, onde ficava o refeitório.
Mas Lucas esticou a mão e apertou B1 — Estacionamento.
Ela franziu o cenho, girando o rosto para Lucas.
— Lucas… o refeitório é no segundo andar. Por que apertou o botão do estacionamento?
Ele manteve o sorriso — mas agora era um sorriso que não chegava aos olhos.
— Eu sei. Mas minha irmã acabou de me mandar mensagem.
— Ela está com meu sobrinho. — acrescentou Lucas, num tom gentil, quase frágil. — Ela não conhece nada aqui ainda… e eu não quero que ela fique sozinha. Vai ser rápido, eu prometo.
Eloise hesitou.
Café público.
Parque movimentado.
Uma mãe com um bebê.
Não havia motivo real para desconfiar.
E o assunto que ela tinha a tratar com ele era claro, adulto, direto.
Coisa de cinco minutos.
Ela assentiu, mas colocou limites — como sempre fez.
— Certo. Mas vamos deixar claro agora: essa conversa é para encerrar confusões. — disse ela, firme. — Eu amo o Augusto. Nunca houve nada além de amizade da minha parte, e eu quero deixar isso claro para evitar qualquer transtorno.
Lucas sorriu pequeno — mas algo na expressão era impossível de ler.
— Eu sei, Eloise. — respondeu, com uma suavidade que arrepiou sua nuca. — É só um café.
Só um café.
As portas do elevador se abriram no subsolo.
O cheiro de concreto úmido, o som distante de motores, luz fria fluorescente.
Lucas caminhou à frente, clicando na chave do carro.
— Depois do café eu vou ter que passar em casa pra deixar minha irmã com o bebê. — ele explicou, ajustando o tom para parecer transparente. —Mas relaxa, eu te deixo na porta da empresa antes disso. Te juro que não vou te atrasar.
Eloise o acompanhou.
Passos tranquilos.
Respiração controlada.
Decisão consciente.
Nada parecia fora do lugar.
Não ainda.
Nesse momento elevador subia.
Thiago estava dentro dele — o coração acelerado, o dedo apertado no botão do último andar.
Mas o destino brincava.
O perigo já se movia.
Mas nenhum dos dois imaginava que estavam a poucos andares de distância um do outro.
E que um segundo poderia mudar tudo.
___
— Alô, polícia.
— Delegacia de Polícia, aqui é a agente Sônia. Em que posso ajudar?
A voz que respondeu veio rápido, trêmula, ofegante:
Sem esperar resposta, Augusto já estava indo.
Ele cruzou o corredor largo da presidência com passos fortes, urgentes, o coração batendo no ritmo de ameaça.
Em sua cabeça:
Eloise estava na sala dele.
Segura.
Esperando.
Mas quando as portas do elevador abriram no andar da presidência, não havia calma.
Havia caos.
Sofia estava em pé, pálida, o telefone preso contra o peito como se tivesse esquecido como se usa.
Nathalia andava de um lado para o outro, o celular na orelha — ou tentando, porque a ligação só retornava:
> “Fora de área.”
> “Fora de área.”
> “Fora de área.”
As mãos dela tremiam.
— Atende, Eloise… pelo amor de Deus, atende… — Nathalia repetia, a voz esgarçada. — Não está chamando mais, direto caixa postal.
Sofia olhou para Augusto.
E foi aí que ele soube.
Sem ninguém dizer uma palavra.
Uma sensação gelada — não medo, mas algo pior — começou no estômago e subiu pelo peito, prendendo a respiração.
— Onde ela está? — ele perguntou, baixo. Baixo demais.
Nathalia levantou o rosto devagar.
— Ela… ela saiu com ele. — respondeu, a voz vacilando. — A gente achou que… que era só uma conversa.
Augusto sentiu o mundo inclinar.
Mas não caiu.
Não cedeu.
Ele sentiu alguma coisa dentro dele partir — e não fez nenhum som.
Ele virou-se e caminhou até a janela — porque o corpo dele precisava se mover antes que a mente quebrasse.
Enquanto isso, em algum lugar da rodovia, um Corolla preto cortava entre os carros.
E, no asfalto, um celular vibrava inutilmente enquanto pneus passavam por cima dele — esmagando a tela, a bateria, a última chance de contato.
O nome na tela quebrada piscava, até morrer:
> NATHI VACA LIGANDO…

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...