A Verdade na Mesa
A casa de Antônio Mello sempre parecia silenciosa demais de manhã.
O sol entrava pelas janelas altas, iluminando a mesa arrumada com cuidado — café quente, pão cortado em fatias perfeitas, um vaso de rosas brancas no centro.
Márcia estava sentada diante dele, os olhos baixos.
As mãos dela tremiam um pouco enquanto seguravam a xícara.
Ela não falava.
Não perguntava.
Não respirava mais alto do que devia.
Antônio mexia o café devagar, o metal da colher tocando a porcelana em um ritmo constante.
Tin.
Tin.
Tin.
A calmaria antes de alguma coisa quebrar.
O celular dele vibrou.
Ele não se apressou para atender.
Olhou o nome na tela primeiro.
Lucas.
Um pequeno sorriso — quase imperceptível — tocou o canto da boca dele.
Ele atendeu.
— Fala.
A voz de Lucas veio tensa, trêmula, pulsando adrenalina.
— Os planos mudaram. — disse. — Eu estou com ela.
— Boa garoto — Antônio falou com um sorriso no rosto.
Lucas continuou falando — rápido, nervoso, exaltado — mas Antônio não ouviu uma palavra.
Ele já tinha o que precisava.
Ele encerrou a ligação devagar.
Como quem sabe que acabou de abrir uma porta que nunca mais vai fechar.
Silêncio.
Um silêncio tão pesado que parecia ocupar a sala inteira.
Márcia levantou os olhos — só para ver o rosto de Antônio completamente sereno.
Márcia engoliu seco.
— Antônio… o que houve?
Ele pousou a xícara sobre o pires.
Sem barulho.
Sem pressa.
Então, olhou para ela — e não havia nada humano naquele olhar.
— Hoje começa a ruína dos Monteiro. — disse.
Cada sílaba limpa.
Deliberada.
Irretornável.
Márcia sentiu o estômago cair.
O ar sumir.
O coração disparar.
— Antônio… por favor… não faz isso…
Ele nem virou o rosto na direção dela.
Apenas fez um gesto com dois dedos para o segurança parado na porta.
— Levem-na para o quarto. — ordenou. — E tranquem.
O segurança obedeceu.
Márcia tentou recuar — mas as mãos dela foram seguradas antes que ela pudesse levantar.
— Antônio! — ela chorou, a voz quebrando. — Por favor!
Ele continuou sentado.
Continuou calmo.
Continuou tomando café.
Como se nada estivesse acontecendo.
Como se a vida fosse um tabuleiro.
E as pessoas, apenas peças que ele movia quando quisesse.
A porta bateu.
O clique da tranca soou longe.
Antônio respirou fundo, apreciando o aroma do café.
Depois, levantou os olhos — e havia fúria contida ali.
Não explosiva.
Não barulhenta.
Letal.
— Acabou a espera. — murmurou. — Agora, eles vão pagar.
___
O telefone parecia pesado na mão de Augusto.
Cada vibração era um martelo batendo no metal frio do peito dele.
— Thomas. — a voz saiu curta, sem espaço pra cerimônia. — A Eloise saiu com ele.
Do outro lado da linha, Thomas tentou a calma que não sentia:
— Calma. — respondeu. — Ainda não sabemos se ele sabe de algo.
Augusto não conseguiu fingir calma.
O mundo dentro da sala da presidência encolheu até restar apenas aquele som: o tique-taque de um relógio qualquer que não combinava com o ritmo do coração dele.
— Filho. — ele disse, a voz grave, urgente. — Eu preciso falar com você sobre Lucas Castro. Eu o vi com a Eloise hoje de manhã.
Augusto nem permitiu espaço para explicação.
— Eu já sei. Ele é o Louvre. — cortou, frio. — Ele está com ela. E nós vamos trazê-la de volta.
José fechou os olhos por um instante.
— Não, Augusto. — ele disse, mais baixo. — Não é só isso. Eu sei quem é ele e o que ele quer.
Thiago franziu o cenho, sentindo o peso no ar.
— O senhor conhece ele, tio? — perguntou.
José Monteiro levantou o olhar.
E a expressão dele era a de um homem que estava prestes a abrir o passado.
Ele respirou fundo.
— Eu lembrei por que ele me parecia familiar. — José disse, a voz pesada, como quem carrega um nome que nunca deveria ter sido dito. — Ele é igual ao pai dele.
Augusto não se moveu.
Silêncio. Duro. Cortante.
José respirou fundo, como alguém que está prestes a abrir uma ferida antiga.
— O pai dele, Carlito Castro, trabalhava comigo. Nossas empresas construíram prédios juntos durante anos. Ele era meu amigo, Augusto. Eu confiava nele.
O elevador permaneceu aberto.
O corredor da recepção ficou em silêncio.
As conversas cessaram.
Os passos diminuíram.
Ninguém ousou interromper.
— Um dia… — José continuou — Carlito empurrou um homem do oitavo andar de uma obra. Ciúme. Loucura. Um acesso de ira. Não houve armação, não houve complô. Não fui eu quem destruiu a vida dele. Ele destruiu sozinho.
Augusto cerrou o maxilar.
José encarou o filho.
— Mas Carlito não aguentou viver com o que fez. Afundou em álcool, drogas… e se matou no mesmo prédio onde empurrou o homem.
O elevador estava aberto, mas ninguém se movia.
— A mãe do Lucas não suportou. Seguiu o mesmo caminho.
José concluiu, baixo:
— O que sobrou foi um menino sozinho. Ferido. Cheio de ódio. E convencido de que a culpa era minha.
Silêncio.
E então:
— Augusto… Lucas não quer Eloise.
Ele quer vingança.
Augusto não desviou os olhos.
— Então ele vai aprender o que acontece com quem toca no que é meu.
As portas se fecharam.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...