A Testemunha Silenciosa
O porta-malas estava escuro.
Mas não silencioso.
Márcia podia ouvir passos. Vozes abafadas. A vibração do motor havia parado há alguns minutos. O coração batia tão alto que parecia chamar atenção para ela.
Ela esperou.
Um minuto.
Dois.
Três.
Nada.
Então, com as mãos trêmulas, retirou a chave de fenda que havia colocado para impedir o travamento total da tampa. Empurrou com cuidado.
A luz entrou.
Fraca.
Suficiente.
Márcia saiu devagar, o corpo doendo, as pernas bambas.
Respirou o ar frio do campo, sentindo a grama roçar nos tornozelos.
Uma casa isolada. Porta de madeira pesada. Janelas iluminadas.
Havia uma porteira ao longe. Nenhuma alma à vista do lado de fora.
Márcia engoliu o medo.
Caminhou até a parede lateral da casa e se aproximou de uma janela, espiando por entre a cortina.
Seu peito afundou.
Lá dentro, sentados na poltrona, Antônio Mello.
Ao lado dele, Lorenzo — nervoso, inquieto.
Mais longe, Thamires — braços cruzados, expressão de medo e tensão misturada.
Mas o que fez o estômago de Márcia gelar foi a cena perto da escada:
Lucas.
E nos degraus, sendo puxada pelo braço, estava ela.
A mulher que Márcia tinha visto tantas vezes na televisão, nos eventos sociais, nas revistas empresariais.
A noiva de Augusto Monteiro.
Eloise.
Viva. Assustada. Mas viva.
Márcia recuou, o coração disparado.
Se Eloise estava ali…
Augusto não fazia ideia.
Márcia correu até o carro, se abaixando atrás da roda para ficar escondida, mãos tremendo enquanto pegava o celular.
Discou o número que conhecia de cor.
— Alô? — José atendeu, a voz fraca, cansada.
Márcia sussurrou, quase sem ar:
— José… eu estou na fazenda. Naquela fazenda. Eu… eu vi ele. Eu vi Lucas. Ele está com seus filhos. Eloise está aqui. Eles… José, é pior do que pensávamos.
Ela ainda ia continuar, mas—
Uma sombra cresceu atrás dela.
Uma mão grande agarrou seu cabelo com violência.
Márcia gritou — mas o som morreu na garganta quando o homem torceu sua cabeça para trás.
— A senhora é corajosa, dona Márcia. — a voz dele era fria, quase debochada. — Mas coragem demais mata.
O celular caiu no chão.
O homem olhou para ele.
Sorriu.
E pisou.
O estalo seco da tela quebrando ecoou como um tiro.
Márcia tentou se soltar. Tentou lutar. Tentou tudo.
Mas o homem era forte.
Ele arrastou ela pela grama, pela varanda, até a porta da casa.
Empurrou.
A porta bateu na parede ao abrir.
— Chefe. — o homem anunciou, arrastando Márcia como um saco de roupa. — Olha o que eu achei lá fora.
Todos olharam.
José respirou fundo — como se o mundo estivesse desabando pela segunda vez.
Lorenzo congelou.
Thamires levou a mão à boca.
Lucas virou o rosto devagar.
Só um detalhe mudou nele:
O sorriso.
Devagar.
Macabro.
Eloise o viu sorrir assim.
E entendeu que o pior estava só começando.
A porta bateu na parede quando o segurança arrastou Márcia pelos cabelos para dentro da sala.
O chão pareceu tremer.
Lorenzo deu um passo para frente — o rosto dele mudou na hora, descrença e horror misturados.
— Mãe? — a voz saiu sem ar.
Márcia tentou se firmar, mas o corpo não obedecia. As mãos dela tremiam.
Antes que ela pudesse responder, Antônio riu.
Um riso lento. Cruel. Sem pressa.
— Tudo isso… — disse ele, abrindo os braços como quem apresenta um espetáculo — para salvar o seu amado José.
Lorenzo franziu o cenho, confuso.
— Do que você está falando?
Antônio inclinou a cabeça, os olhos brilhando de satisfação venenosa.
— Ah, que família bonita. Vamos lá, Márcia… conta para ele.
Conta quem é o pai desse bastardo.
Márcia fechou os olhos — uma lágrima desceu.
— Filho… me perdoa.
Lorenzo sentiu o mundo girar.
— Do que ele está falando, mãe?
— Ele é meu pai?
— Ele é o homem que não quis a gente?
— Que fingiu que nem me conhece?
Antônio soltou uma gargalhada amarga.
— Eu? Pai de você? — ele cuspiu as palavras. — Eu não gero fracassos.
Ele apontou o queixo para José, algemado na poltrona.
— Seu pai está bem ali.
O Monteiro que ninguém sabia que deixou um rastro.
Silêncio.
Pesado. Absoluto.
Márcia caiu de joelhos, chorando.
— José nunca soube.
— Eu nunca disse.
— Eu estava com medo.
— Eu tinha vergonha do que aconteceu.
— Lorenzo… por favor, olha pra mim…



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...