CARA A CARA
O prédio não era um prédio.
Era um esqueleto.
Concreto exposto.
Pilares nus.
O eco das cidades que nunca terminam de nascer.
Não havia paredes.
Não havia elevador — apenas o vão vazio onde ele deveria estar.
E as escadas, estreitas, ásperas, subiam como uma espinha dorsal de concreto, conduzindo para cima — e para a queda.
Augusto parou diante da entrada.
Olhou para cima.
Medindo.
Calculando.
Atrás dele, os dois homens armados esperavam, imóveis.
Um deles deu o primeiro passo.
— Abre os braços.
A voz não veio alta.
Veio seca.
Automática.
De quem já fez isso muitas vezes.
Augusto obedeceu sem desvio.
O outro bandido manteve a arma apontada para o peito dele — sem tremor, sem aviso.
O primeiro colocou as mãos na cintura dele, revistando, até sentir o metal.
A arma.
Ele a puxou devagar, como se fosse uma vitória pessoal.
— Ora, ora… — ele riu, apoiando a arma de Augusto na própria cintura. — Ia levar isso pra onde?
Augusto não respondeu.
O homem não esperava resposta.
Pegou o celular.
Discou.
Colocou no ouvido.
— Ele está pronto. — disse, sem emoção.
A ligação durou cinco segundos.
Ele desligou, guardou o telefone.
— Anda. — ordenou. — Escada.
Um deles ficou no térreo.
O outro subiu com Augusto.
Augusto na frente.
O homem atrás.
A arma sempre apontada nas costas dele.
O concreto tinha cheiro de poeira velha e chuva presa.
O vento passava pelo vão aberto das janelas inexistentes, trazendo um som que parecia distante demais da cidade:
silêncio.
Cada passo na escada soava pesado.
Toc.
Toc.
Toc.
As botas encontrando concreto.
Augusto não olhava para trás.
Não podia.
Ele precisava ganhar tempo.
Ele precisava ver Eloise respirando.
Ele precisava viver o suficiente para matar Lucas.
No ouvido, o fone era apenas silêncio agora.
Um silêncio que apertava.
No passo seguinte, o corpo dele sentiu — não ouviu, não pensou, sentiu — que Lucas estava perto.
O ar mudou.
A temperatura mudou.
A intenção mudou.
No oitavo andar, eles pararam.
O homem fez sinal com o queixo, indicando a entrada.
— Vai.
Augusto entrou.
O vento atravessava todo o andar aberto, levando poeira, lembranças e fantasmas.
E no meio do concreto cru, parado, esperando —
Lucas.
De mãos nos bolsos.
Face calma demais.
Olhos brilhando naquele tipo de brilho que só existe onde o amor virou obsessão.
— Bem-vindo, senhores Monteiro. — disse, a voz seca, quase divertida quando se virou.
O riso morno murchou no rosto ao ver Augusto de frente. Algo mudou no olhar dele; a provocação virou faca.
— Cadê o José Monteiro? — cuspiu Lucas, os dentes cerrados. — Que truque é esse que vocês estão armando? Acha engraçado fazer gracinha e deixar a Eloise pagar por isso?
Augusto não sorriu. Nem a palavra vacilou em seus lábios. Frio, cortante:
— Você não machucaria ela. Não por mim — disse, com a calma de quem calcula a distância até o gatilho — mas porque é obcecado pela minha noiva.
A ênfase em noiva foi como sal na ferida. Lucas fechou a cara. Os olhos, por um segundo, ficaram vermelhos — era possível ver a fúria no olhar.
— Não brinque comigo, Augusto. — a voz saiu baixa, perigosa.
Foi um segundo. Dois. O ar no andar parecia espesso, pronto para explodir. Augusto manteve as mãos à vista, mas os dedos roçavam o coldre como quem testa o peso da própria coragem.
Lucas deu um passo. Devagar. A sala inteira prendeu a respiração.
— Você acha que vem armado, entra no meu território e eu me curvo? — provocou ele, aproximando-se. — Acha que eu não pensei em tudo?
Augusto não respondeu com palavras. Avançou três passadas, controladas, diminuindo a distância que separava as obsessões de ambos. Quando chegou a dois metros, ergueu o queixo como quem oferece um último argumento sem violência.
Do outro lado, Lucas sorriu — um sorriso que não alcançava os olhos.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...