Do outro lado da cidade, em um apartamento alto demais para chamar atenção,
a segunda peça do jogo andava de um lado a outro.
O salto ecoava no piso frio.
Ritmo constante. Preciso.
Quase matemático.
Ela estava irritada.
Não gritava.
Não quebrava nada.
Não perdia a compostura.
Mas a mandíbula rígida denunciava o que o corpo tentava esconder.
E os olhos — duros demais — não piscavam.
— Eu te avisei. — disse, por fim, parando à frente da Nicole. — Disse que ela não podia se aproximar tanto.
Mas Nicole não se moveu.
Elegante.
Postura relaxada demais para quem acabara de ser confrontada.
As mãos repousavam no colo, como se o mundo estivesse exatamente onde deveria estar.
— Sofia não estava nos planos — respondeu, com a voz baixa e firme. — Mas agora está.
A mulher soltou uma risada curta. Sem humor.
— Você prometeu que ela seria contida.
Nicole manteve a expressão neutra.
— E será.
A mulher deu um passo à frente.
— Quando?
Nicole finalmente se levantou.
Movimento lento. Calculado.
— Tudo tem sua hora.
A mulher a sua frente estreitou os olhos.
— Essa hora já passou.
Nicole inclinou a cabeça, observando-a como quem analisa um erro técnico.
— Não. — corrigiu. — O erro foi seu.
O silêncio caiu pesado entre elas.
— Meu? — a mulher perguntou, o tom baixo, perigoso.
— Sim. — Nicole caminhou até o bar, servindo-se de um pouco de água. — Você se deixou ver. Deixou emoção entrar no jogo. Isso nunca termina bem.
A mulher virou o rosto, respirando fundo.
— Ela é inteligente demais. — disse, por fim. — Vê coisas que ninguém vê.
Nicole parou diante da janela.
A cidade brilhava abaixo. Pequena. Controlável.
— Eu sei.
Virou-se devagar.
— Eu te avisei sobre Sofia.
a mulher franziu o cenho.
— Avisou como?
A senhora Martins sustentou o olhar.
— Disse que queria ouvi-la antes de decidir qualquer coisa.
O salto da mulher bateu seco no chão.
— Ouvi-la?
— Sim. — Nicole aproximou-se um passo. — Porque mulheres como ela não falam por impulso. Elas revelam quem são nos silêncios.
A mulher cruzou os braços.
— Você quer jogar junto com ela? Nessa altura do campeonato.
Um quase sorriso surgiu nos lábios da Nicole
— Não confunda, reconheço mulheres esperta e respeito. Mas não tenho simpatia.
O ar ficou mais pesado.
— Sofia deixou de ser espectadora — continuou. — Cruzou limites. Tocou onde não deveria. E, pior… descobriu minha identidade rápido demais, no tempo dela, não no meu.
A mulher apertou os dedos.
— Então por que ainda não agiu?
Nicole encarou, sem desviar.
— Porque agora é o momento certo.
Ela caminhou até a mesa. Pegou um tablet.
Alguns segundos de silêncio.
— Até aqui, Sofia jogava no campo da narrativa. — levantou o olhar. — A partir de agora, vamos jogar no campo aberto.
A mulher sentiu o estômago retesar.
— O que você fez?
— Nada ainda. — respondeu, tranquila. — Mas já preparei tudo.
Nicole deslizou o tablet na direção da mulher
— Sofia não será mais vista como ameaça ao esquema. — pausa. — Será vista como risco à estabilidade de uma investigação sensível.
A mulher percorreu a tela.
E sorriu.
Devagar.
Predatória.
— Você vai sujar o nome dela.
— Não. — corrigiu a Nicole — Vou confundir.
Ela se aproximou mais.
— Quando a verdade começa a parecer excessiva… as pessoas preferem a mentira confortável.
A mulher soltou o ar, satisfeita.
— E o policial?
Nicole inclinou a cabeça.
— Thomas é previsível. Protege. Reage. Se expõe.
Um segundo de silêncio.
— Sofia, não.
A mulher ergueu o olhar.
— Então agora?
Nicole sustentou o olhar dela.
— Agora chegou a hora.
Ela virou-se novamente para a janela.
— A ponte atravessa quando ninguém percebe.
O coração de Nilson deu um salto seco.
Aquilo não era erro administrativo.
Era ausência deliberada.
O botão vermelho acendeu dentro dele.
Sem perder tempo, reuniu os documentos, imprimiu os registros e seguiu direto para a sala de Thomas.
— Alves. — chamou, entrando sem bater. — Preciso te mostrar uma coisa. Agora.
Thomas ergueu o olhar imediatamente.
Nilson espalhou os papéis sobre a mesa.
— Mandaram revisar esse relatório. — explicou. — Cidade Sul. Leilão beneficente. O nome da Sofia aparece como compradora de uma peça.
Thomas franziu o cenho.
— E?
Nilson apontou para a última folha.
— A peça não existe.
O silêncio caiu pesado.
Thomas pegou os papéis, lendo rápido demais.
— Você tem certeza?
— Absoluta. — Nilson respondeu. — Conferi três vezes. Não há registro físico, fiscal ou fotográfico do item.
Thomas fechou o punho.
Aquilo não provava culpa.
Mas criava narrativa.
E ele sabia disso.
Sem dizer mais nada, recolheu todos os documentos.
— Nilson… — falou, já caminhando para a porta. — Não comenta isso com ninguém até eu saber exatamente o que fazer.
Nilson assentiu, sério.
— Entendido.
Thomas saiu às pressas.
Minutos depois, ele atravessava o saguão do escritório Siqueira Corporação com passos duros.
— Preciso falar com o doutor Dante agora. — disse à secretária, sem rodeios.
Ela manteve a postura profissional.
— No momento, ele não pode receber. O senhor tem horário marcado para hoje?
Thomas respirou fundo — e perdeu a paciência.
— Eu sou policial. — disse, mostrando o distintivo. — E vou ver Dante agora.
A voz saiu mais alta do que pretendia.
A porta da sala se abriu.
— Investigador Thomas? — Dante apareceu, sério. — O que está acontecendo?
Do outro lado do escritório, Sofia, sentada à própria mesa, ouviu a voz.
Reconheceu na mesma hora.
Levantou o olhar.
Algo estava errado.
Muito errado.
E, naquele instante, sem ainda saber como —
o plano da Nicole tinha acabado de dar o primeiro golpe visível.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Paguei e mesmo assim o capitulo não abre... :(...
Impossível de ler, vários capítulo não abrem só aparece o anúncio. Vou nem gastar dinheiro pq vou me arrepender...
Caraca vários capítulos não abrem. Muito ruim assim. mailto:[email protected]...
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...