O dia amanheceu.
Mas Lais não tinha dormido.
Passou a noite inteira acordada, deitada na cama, olhando para o teto enquanto os pensamentos giravam sem parar. Não era dúvida. Já tinha passado desse ponto. Era decisão. E decisões, às vezes, não deixam espaço para descanso.
Quando finalmente se levantou, o corpo estava cansado, mas a mente… estranhamente clara.
Ela tinha um plano.
Tomou café em silêncio, sem pressa, como se estivesse organizando cada detalhe dentro da própria cabeça. Depois saiu, passando em algumas lojas pelo caminho. Escolheu com cuidado tudo o que precisava — roupas, acessórios, pequenos detalhes que, juntos, construiriam algo maior.
Uma nova versão dela.
Ou talvez… uma versão antiga, reinventada.
Quando chegou à boate, o ambiente ainda estava calmo, longe do movimento da noite. Mesmo assim, o lugar carregava aquela energia que nunca desaparecia completamente.
O Jefão foi o primeiro a notar sua presença.
— Bom dia, gostosa — disse, abrindo um sorriso largo.
Lais não reagiu ao comentário como antes. Apenas manteve a postura firme.
— Bom dia, Jefão. Já tenho minha resposta.
Fez uma pequena pausa.
— Mas a gente precisa conversar em particular.
Os olhos dele brilharam na hora.
— Ih… adoro um segredo — respondeu, rindo. — Vem comigo.
Ele a guiou por uma escada de ferro nos fundos da boate, o som dos passos ecoando pelo espaço vazio. Subiram até uma pequena sala, mais reservada, longe de qualquer curiosidade.
Assim que entrou, ele se jogou na cadeira, relaxado.
— Então… — disse, apoiando os braços — fala.
Lais não sentou.
Ficou de pé.
Dominando o espaço.
— Eu aceito.
O silêncio caiu por um segundo.
Ele sorriu.
Mas ela continuou.
— Só que… eu tenho um plano melhor.
O sorriso dele cresceu.
— Humm… agora você me interessou. Conta tudo.
Lais respirou fundo.
E então explicou.
— A mascarada volta.
Fez uma pausa breve.
— Como antes. A diferença é que agora… eu tô grávida.
O olhar dele mudou.
Mais atento.
Mais analítico.
— Você tem certeza que dá conta? — perguntou, dessa vez sério. — Naquela época você tinha dezessete anos, Lais. Tudo mudou.
Lais sustentou o olhar.
Sem hesitar.
— Eu dou conta.
Deu um passo à frente.
— Mas a história vai ser diferente.
Agora, havia algo novo nela.
Controle.
Estratégia.
— Eu não sou mais a Lais daqui — continuou. — Eu vou ser outra pessoa. Uma artista de fora. Alguém que veio da Europa… uma gringa.
O Jefão se inclinou na cadeira, interessado.
— Gostei…
— Se alguém tentar falar comigo — continuou ela — eu respondo em inglês. Ninguém vai saber quem eu sou.
Ele abriu um sorriso lento.
— Mistério…
— E cobiça — completou Lais.
Agora ela também sorria.
De leve.
Mas com intenção.
— Os clientes vão ficar curiosos. Vão querer saber mais. Vão pagar mais.
O Jefão bateu levemente a mão na mesa.
— Eu sabia que você não vinha aqui só pra aceitar qualquer coisa.
O olhar dele desceu até a barriga dela novamente.
— E isso aqui… — disse, apontando com o queixo — vai virar um espetáculo à parte.
Lais não se incomodou.
Dessa vez, não.
— Então a gente usa isso a nosso favor.
Silêncio.
Breve.
Mas carregado.
— Eu volto — disse ela, firme. — E a gente fatura nesses meses.
O olhar dela endureceu levemente.
— Mas quando eu completar sete meses… você cumpre a sua parte.
O tom não era um pedido.
Era um acordo.
O Jefão levantou a mão na hora.
— Não tenha dúvida disso.
Estendeu o dedo mindinho, com um sorriso quase infantil.
— Palavra.
Lais riu baixo.
E entrelaçou o dedo no dele.
— Então é isso.
Soltou a mão.
Respirou fundo.
E, dessa vez…
não havia mais volta.
— O show vai começar.
Os dias seguintes foram rápidos.
Lais voltou à boate durante o dia, longe das luzes e dos olhares, ajustando cada detalhe do que seria sua nova versão. Testou figurinos, adaptou movimentos, reaprendeu o próprio corpo com um cuidado que antes não existia.
Não era mais sobre sedução impulsiva.
Era estratégia.
Cada passo precisava esconder quem ela era… enquanto chamava atenção o suficiente para ninguém querer descobrir.
A noite caiu diferente.
Ou talvez fosse Lais que estivesse diferente.
O camarim estava iluminado por uma luz amarelada, refletindo no espelho manchado pelo tempo. O som da boate já começava a crescer do lado de fora — grave, pulsante, invadindo o espaço como um aviso de que não havia mais tempo para voltar atrás.
Lais estava sentada, o olhar preso no próprio reflexo enquanto finalizava os últimos detalhes. A maquiagem era mais marcada do que o habitual, os olhos destacados, a boca em um tom mais intenso. O cabelo caía de forma calculada. A base espalhada com cuidado não só no rosto… mas descendo pelo pescoço, pelos ombros… até a lateral da cintura.
Ali.
Onde a pele guardava algo que não podia ser visto.
Uma tatuagem pequena, delicada, mas impossível de confundir para quem já a conhecia bem.
Ela passou os dedos levemente sobre o local antes de cobrir de vez.
Como se dissesse um adeus temporário.
Ou talvez…
um “não agora”.
Espalhou mais uma camada de base, uniformizando o tom da pele até que não restasse vestígio algum.
Nenhuma marca.
Nenhuma pista.
Nenhuma lembrança visível de quem ela já tinha sido.
Respirou fundo.
Nada ali era por acaso.
Nem a roupa.
Nem a postura.
Nem a respiração controlada.
A mão desceu até a barriga.
Leve.
Quase um pedido silencioso.
— Vai dar certo… — murmurou, sem saber se falava para si… ou para quem carregava.
Uma batida na porta.
— Tá pronta, minha estrela? — a voz do Jefão veio carregada de entusiasmo.
Lais fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu…
já não era mais ela.
— Tô.
Antes que ela desse o primeiro passo, Jefão levantou a mão.
— Espera.
Ela franziu levemente a testa.
Ele abriu uma pequena gaveta ao lado do espelho e tirou algo de dentro.
Uma máscara.
Delicada, mas marcante. Negra, com detalhes sutis que desenhavam o contorno dos olhos, elegante o suficiente para esconder… e ao mesmo tempo destacar.
Ele girou a peça entre os dedos, satisfeito.
— Se é pra ser misteriosa… — disse, aproximando-se — vamos fazer direito.
Lais observou em silêncio.
O coração acelerou.
Não por medo.
Mas pelo peso daquilo.
Ele ergueu a máscara e, com cuidado inesperado, posicionou sobre o rosto dela.
Os dedos ajustaram devagar.
— Agora sim… — murmurou, dando um passo para trás. — ninguém vai saber quem você é.
Lais voltou o olhar para o espelho.
E, por um instante…
nem ela se reconheceu.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Impossível de ler, vários capítulo não abrem só aparece o anúncio. Vou nem gastar dinheiro pq vou me arrepender...
Caraca vários capítulos não abrem. Muito ruim assim. mailto:[email protected]...
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...