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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 662

~ RENATA ~

Dirigir até Florença era uma humilhação que eu engolia com dentes cerrados.

Não pela estrada — a Toscana sempre foi bonita demais para merecer gente como eu e como eles — mas pelo simbolismo. Antes, Bella vinha até mim. Agora eu era quem tinha que atravessar colinas, pedágios, placas e curvas para “pegar minha filha” na cidade dela. Na cidade deles. Na cidade onde a Bianca Bellucci respirava como se o ar tivesse sido inventado para os pulmões dela.

A cada quinze dias.

Como se eu fosse um compromisso de agenda.

Como se eu fosse uma visita.

Eu estacionei com precisão cirúrgica, desliguei o motor e fiquei alguns segundos com as mãos no volante. O couro ainda guardava o calor dos meus dedos. O carro cheirava a perfume caro e a raiva antiga.

Calma, Renata.

Eu me olhei no espelho do retrovisor. Batom intacto. Cabelo perfeito. Olhar afiado o suficiente para cortar metal.

Eu não perderia o controle.

Não hoje.

Hoje era dia de Bella. E Bella era, sempre, a peça que importava.

Ela saiu do prédio com a mochila maior do que o corpo, o casaco aberto e aquele jeito de quem tenta parecer mais velha do que é — provavelmente porque o pai dela achava “fofo” e a Bianca incentivava “autonomia”.

Quando me viu, o rosto dela abriu num sorriso que eu demorei semanas para ganhar.

No começo, Bella era pedra. Me recebia com educação seca, como se estivesse repetindo o que o pai tinha ensinado.

Mas eu aprendi rápido a fórmula: não discutir com o pai na frente dela. Não falar da Bianca como vilã. Só ouvir. Só concordar. Só dizer as frases que criança guarda como salvação: eu acredito em você, você não está errada, eu estou aqui.

Constância faz milagre. Ou, pelo menos, imita muito bem.

— Mamãe! — ela correu e me abraçou com força.

Eu me agachei para recebê-la e beijei a testa dela.

— Meu amor. Você está linda.

— Eu comi macarrão ontem — ela anunciou, como se fosse uma notícia importante.

— Uau. — Eu sorri. — Que… emocionante.

Bella riu, e eu senti uma pontada estranha, rápida, quase irritante no peito. Algo que lembrava… ternura. Eu empurrei aquilo para longe como quem empurra poeira da roupa.

— Vamos? — eu disse, pegando a mão dela. — Eu escolhi um lugar que você vai gostar.

Eu podia ter levado Bella a um restaurante elegante, claro. Podia ter transformado o dia numa vitrine do que eu era capaz de dar. Mas crianças não ligavam para guardanapo de linho. Crianças ligavam para queijo derretido e coisas simples.

A pizzaria era pequena, quente, barulhenta. Cheiro de massa assando e tomate. Bella se animou na hora.

— Posso pedir com batata frita em cima? — ela perguntou, olhos brilhando.

— Pode pedir o que quiser — eu disse, e isso não era só generosidade. Era estratégia. Criança bem alimentada e feliz fala mais. Abaixa a guarda.

Nos sentamos num canto. Eu pedi uma taça de vinho. Pedi a pizza dela. E, enquanto ela falava sem parar sobre alguma coisa na escola — um desenho, uma competição, uma menina que “não sabe dividir” — eu observava as notificações piscando no meu celular.

Eu não precisava procurar por fofoca.

A fofoca me achava.

“Bellucci e Montesi: casamento relâmpago e bebê a caminho?”

Eu li a manchete sem mudar a expressão. Só a ponta dos meus dedos apertou o copo por um segundo.

Então era verdade.

Eu já suspeitava do casamento, é claro. Inclusive, fazia parte dos meus planos, não é? Mas... um bebê?

Bella deu uma mordida na pizza e fez “hmm” satisfeita, toda melada de queijo.

Bella ficou com a pizza suspensa no ar, os olhos presos no meu rosto, como se eu fosse a única pessoa que pudesse traduzir o mundo.

Eu baixei a voz.

— Eles te contaram alguma coisa? O seu pai falou alguma coisa com você?

— Não… — ela respondeu, e o “não” veio carregado de uma sensação que ela ainda não sabia nomear.

Eu fiz que não com a cabeça, devagar, como se aquilo confirmasse algo que eu já suspeitava.

— Entendi… — murmurei, e deixei um silêncio curto existir. Silêncio é uma ferramenta. Criança odeia silêncio; criança preenche silêncio.

Bella engoliu em seco.

— Mas… por que eles não me contaram?

Boa pergunta, eu pensei. Mas não podia dizer isso. Eu precisava ser a mãe preocupada, não a mulher vingativa.

— Às vezes adulto acha que está “protegendo” — eu disse, com cuidado. — Acham que criança não entende. Que é melhor contar depois. Quando estiver tudo “pronto”.

Eu fiz aspas com os dedos. Bella viu.

— Mas eu entendo! — ela protestou, numa indignação muito dela.

— Eu sei que você entende — eu falei, e aí eu dei o passo certo: a validação. — Você sempre entendeu mais do que as pessoas dão crédito. Inclusive, eu acho que isso irrita um pouco seu pai.

Bella abriu a boca num começo de sorriso… e eu aproveitei a fresta.

— E também tem outra coisa — eu continuei, como se estivesse só pensando alto. — Quando a Bianca tiver um bebê… vai ser o bebê dela. De verdade.

Bella franziu a testa.

— Ué. Mas eu não sou de verdade?

— Você é de verdade, amor. — Eu me apressei, doce. — Mas você é filha do Nico. Você não é filha dela, é? E, quando o bebê nascer, você não vai ser mais a prioridade.

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