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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 666

~ RENATA ~

O telefone tocou antes de eu chegar em casa.

Eu vi o nome do meu advogado no painel do carro e sorri sem mostrar dentes.

Perfeito.

Atendi no viva-voz, com as duas mãos no volante e a expressão calma de quem não fez nada além de cumprir “o direito de mãe”.

— Renata — ele disse. — Acabei de receber uma mensagem do meu estagiário. Sobre a confusão na residência do senhor Montesi.

“Confusão.” Adoro como advogados chamam incêndio de “evento”.

— Confusão é uma palavra bonita — eu respondi, doce. — A Bella teve uma crise. Coisa de criança. Mas eu imagino que o que eu chamo de “coisa de criança” vocês possam chamar de prova.

Ele ficou em silêncio por meio segundo. Calculando.

— Você mencionou que havia rumores sobre uma gravidez.

— Não são rumores — eu corrigi, ainda com o mesmo tom. — Eu vi o suficiente para ter certeza. E eu não precisei inventar nada. A notícia vazou. Perfis de fofoca. Comentários. A cidade inteira falando.

Eu podia ouvir o clique mental dele se encaixando.

— Você está me dizendo que podemos usar isso como fato novo.

— Eu estou te dizendo que é um fato novo — eu respondi. — E que minha filha ouviu do jeito pior possível. Sem preparo, sem cuidado. Na boca da internet. E depois… depois foi exatamente o que você imagina: medo, insegurança, descontrole.

— Você registrou isso de alguma forma? — ele perguntou, profissional.

Eu ri.

— Você quer vídeo?

— Renata…

— Não. Eu não sou uma amadora. — Eu mantive a voz lisa. — Eu tenho algo melhor do que vídeo: uma criança dizendo com todas as letras que não se sente segura.

Ele inspirou.

— Venha ao escritório amanhã cedo. Primeira hora. Quero montar o pedido de tutela provisória.

Eu desliguei com uma tranquilidade que quase parecia felicidade.

Quase.

Na manhã seguinte, eu atravessei a porta do escritório dele como quem entra numa igreja. Terno claro, óculos escuros, postura impecável.

O tipo de mulher que juízes olham e pensam: estável.

— Sente-se.

Ele abriu um arquivo com meu nome e puxou uma folha em branco.

— Vamos ser objetivos — ele disse. — O que aconteceu ontem, exatamente?

Eu não dramatizei demais. Eu não precisava. Eu só precisei escolher as partes certas.

— Bella chegou alterada. Chorando, com medo. Disse que o pai e a Bianca vão “trocar ela” quando o bebê nascer.

Eu fiz uma pausa bem colocada.

— E, honestamente, doutor… se uma criança entra em pânico assim, isso diz alguma coisa.

Ele anotou.

— Diz. Mas precisamos traduzir isso em linguagem judicial.

Eu cruzei as pernas, paciente.

— Traduza.

Ele se recostou.

— Tutela provisória. Medida de urgência. Guarda provisória até a audiência. O argumento central não é que o pai é mau. O argumento é que há um evento novo que desestabilizou a rotina da menor e que, por prudência, ela precisa ficar no ambiente em que se sente mais segura… temporariamente.

Eu deixei meus olhos brilharem na medida exata.

— E qual é esse evento novo?

— A gravidez e o casamento iminente — ele respondeu. — Não pela gravidez em si. Mas pelo impacto concreto no emocional da criança. Se conseguimos demonstrar “risco”, o juiz pode agir rápido.

— Risco de quê? — eu perguntei, doce, como se não soubesse.

— Risco de sofrimento psíquico, ansiedade severa, instabilidade emocional, eventual prejuízo escolar. — Ele contou nos dedos, como quem monta um menu. — Não precisa ser um diagnóstico formal para ser levado em consideração. Basta uma avaliação preliminar. Uma assistente social. Uma psicóloga do tribunal.

Eu inclinei o corpo para frente, interessada.

— E o juiz vai… ouvir a Bella?

— Em alguns casos, sim. Mas isso é delicado. A criança ser ouvida pode ser uma faca de dois gumes. O tribunal evita colocar menor no centro do conflito.

— Isso pode funcionar — ele admitiu.

— Pode — eu corrigi. — Vai.

Ele passou a mão na folha e escreveu no topo: TUTELA PROVISÓRIA — URGÊNCIA.

— Então faremos assim: pedimos a tutela. E pedimos avaliação psicossocial urgente, com possibilidade de oitiva da menor em ambiente protegido.

Eu encostei as costas na cadeira.

— E o Nico? — eu perguntei. — Ele vai reagir.

— Ele vai apresentar contestação. Vai dizer que houve manipulação. Vai insinuar alienação. — Ele fez uma pausa. — Mas sem prova concreta, fica no campo das acusações. E acusação contra a mãe, em casos assim, costuma ser vista com desconfiança.

Eu sorri..

— Então a melhor parte é que ele vai ter que dizer que eu fiz isso. E, quando ele disser… eu vou parecer a vítima.

Ele não sorriu. Advogados raramente sorriem quando a verdade é feia demais. Mas eu vi nos olhos dele: ele entendeu o jogo.

— Última coisa — ele disse, mais sério. — Se o juiz deferir a tutela provisória, o senhor Montesi pode ter que entregar a criança em 48 horas.

48 horas.

Eu senti um prazer limpo e frio atravessar minha espinha.

— Ótimo — eu disse, simples.

Ele fechou a pasta.

— Mantenha-se calma. Não provoque. Não ligue. Não mande mensagens. Deixe o processo falar por você.

Eu me levantei, ajustando a bolsa no ombro.

— Eu não provoco, doutor — eu falei, com a mesma doçura de sempre. — Eu só… apareço quando sou necessária.

Eu já estava na porta quando ele acrescentou:

— Ah. E Renata… se a Bella for ouvida, ela precisa estar tranquila. Sem crise. Sem choro. Precisa parecer… segura.

Eu virei o rosto devagar e sorri.

— Fique tranquilo — eu disse. — A minha filha sabe exatamente com quem ela se sente segura.

E saí.

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