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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 690

~ NICO ~

No carro, o silêncio foi pior do que qualquer outra coisa.

Eu dirigi sem lembrar do caminho. Bianca ficou com as mãos no colo, os dedos se mexendo de vez em quando, como se ela estivesse contando alguma coisa invisível para se manter no lugar. Talvez batimentos. Talvez prazos. Talvez medo.

Quando chegamos, Bella estava na sala com Martina, desenhando no chão. Quando nos viu, levantou o rosto e sorriu pequeno, sincero, aquela alegria que me desmontava porque não sabia do que vinha.

— Papai! — ela se levantou, e correu até mim com aquele impulso que era puro instinto de pertencimento.

Eu me agachei, abracei, fechei os olhos com força.

— Oi, meu amor.

Martina olhou para mim e para Bianca como quem lê as notícias pelo rosto dos outros. Ela não perguntou. Só levantou devagar e passou a mão no meu ombro, um toque que dizia: eu tô aqui.

Eu precisei de um minuto para achar palavras que não traíssem pânico.

— Bella… vem comigo um pouquinho? — eu disse. — Vamos conversar no seu quarto.

Ela assentiu como se fosse coisa simples. Pegou minha mão e começou a subir sem medo. Como se não fosse a mão dela que o mundo tinha acabado de tentar arrancar da minha.

No quarto, eu me sentei na beira da cama. Ela subiu ao meu lado, as pernas balançando.

— Aconteceu uma coisa… de adulto — eu comecei, odiando a frase. — E vai ser… diferente por um tempo.

Bella franziu a testa, alerta.

— Diferente como?

Eu respirei uma, duas vezes, como se puxar ar fosse igual a segurar o mundo.

— Você vai passar alguns dias com a mamãe.

O silêncio que veio depois foi pequeno, mas pesado.

Bella piscou.

— Você vai comigo?

Meu peito apertou. Eu olhei para o rosto dela e senti a injustiça inteira daquela pergunta.

— Não, querida — eu disse, devagar. — Vai ser só vocês duas, tá? Mas eu vou te ver. Eu vou estar perto. Eu vou...

— Mamãe prometeu que vai jogar comigo — ela falou, e a voz saiu com uma esperança que devia me aliviar… mas só me deu um choque estranho. — E tomar gelato.

Eu senti o olhar de Bianca na porta do quarto. Ela tinha vindo atrás da gente, sem entrar, só ficando ali, como se não quisesse invadir. Mas eu vi o jeito que ela travou por um segundo. Martina também apareceu no corredor, discreta, observando como mãe observa quando o filho está caindo.

Eu forcei um sorriso para Bella.

— Ah é? Gelato?

Bella assentiu, mais animada agora, como se tivesse encontrado um plano que tornava aquilo menos assustador.

— E videogame. Porque vai ser só eu e a mamãe.

Bianca entrou um passo, o corpo inteiro em estado de alerta.

— Pode — Bianca sorriu, e o sorriso dela tremeu no canto. — E isso significa que você é família. Minha família. Minha filha de coração.

Bianca levantou a mão e mostrou o colar de contas no pescoço — aquele torto, colorido, feito com pressa e amor na Tenuta, quando Bella ainda achava divertido “decorar” todo mundo como se fosse uma árvore de Natal.

— Você fez pra mim — Bianca disse. — Nosso colar da amizade. E eu guardo, eu uso.

Bella olhou para o colar. A expressão dela amoleceu por um segundo.

— Eu lembro.

— Então somos amigas pra sempre, não somos? Somos família.

E então, como se precisasse se proteger rápido da própria lembrança, Bella disse:

— Eu vou com a mamãe. Mas depois eu volto.

A frase foi pequena e inofensiva. Típica de uma criança.

Mas eu senti o chão se abrir por baixo, porque eu sabia que “depois eu volto” não era uma coisa simples quando a decisão tinha carimbo e prazo. Eu sabia que Renata não ia devolver fácil. Eu sabia que eu ia ter que buscar a minha filha em horários definidos, como se amor fosse visita com hora marcada.

Eu olhei para Bella, tão convencida de que “depois” era só depois.

E menti.

Porque era tudo o que eu consegui fazer sem destruir a infância dela ali, na minha frente.

— Claro, meu amor — eu disse, segurando a mão dela com força. — Depois você volta.

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