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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 693

~ RENATA ~

Dois meses.

Era tempo suficiente para aprender onde o sol batia na sala no fim da tarde, quais brinquedos faziam barulho demais e quais faziam sujeira demais, quais desenhos Bella assistia quando estava cansada e quais ela assistia quando estava tentando não parecer cansada.

Dois meses era tempo suficiente para eu decorar a rotina dela.

E, ainda assim, não era tempo suficiente para eu conseguir o que eu queria.

Eu caminhei pela sala com o celular no ouvido, pisando com cuidado para não espalhar as pecinhas do jogo que a Bella montava no tapete. Ela estava de pernas cruzadas, concentrada, conversando baixinho com os próprios bonecos como se o mundo inteiro coubesse naquela cena.

O mundo inteiro, para mim, cabia em números.

— Doutor, isso é ridículo — eu disse, mantendo a voz controlada, porque a porta da sala estava aberta e a vizinha do lado tinha uma audição inconveniente. — Eu estou com a minha filha há dois meses e continuo recebendo… aquela miséria.

Do outro lado, a voz do advogado veio calma, treinada.

— Senhora Renata, nós já conversamos. O valor fixado em caráter provisório foi baseado nos elementos apresentados naquela fase…

— Provisório — eu repeti, com desprezo. — Tudo nessa vida virou “provisório” quando é pra me manter abaixo do que eu mereço.

Bella levantou o rosto por um segundo, curiosa com meu tom. Eu sorri para ela sem mostrar os dentes e voltei a andar, para não dar a ela a sensação de que a conversa era sobre ela.

— Nós precisamos do aumento por tenore di vita — eu disse. — O senhor sabe disso.

— Nós já protocolamos o pedido — ele respondeu.

— E quanto tempo o juiz vai levar para perceber o óbvio? — Eu parei perto da janela, olhando o jardim como se olhar para verde ajudasse a não esmagar o celular com a mão. — Bianca Bellucci é bilionária. Não “rica”. Bilionária. A minha filha tem direito a equiparação. Ela não pode viver com… migalhas do pai enquanto o outro filho nasce em berço de ouro.

— Senhora… — ele começou, num tom de aviso.

Eu me afastei mais um pouco, até o corredor, e baixei a voz. A Bella continuava no tapete, distraída, mas eu não confiava em distrações.

— Sabe o quanto é irritante pagar de mãe perfeita pra essa pirralha? — eu sussurrei, e foi um sussurro de raiva contida, não de confissão. — O dinheiro do Nico não paga minha sanidade mental. Eu quero o dinheiro dos Bellucci.

Houve um silêncio pequeno do outro lado.

— Eu entendo a sua pressa — ele disse por fim. — Mas as coisas não se resolvem do dia para a noite. O pedido de aumento por tenore di vita está fundamentado, nós anexamos o que era possível, mas uma decisão pode levar… até noventa dias.

— Noventa dias — eu repeti, como quem prova um veneno. — Três meses.

— Pode ser antes — ele corrigiu. — Mas eu preciso que a senhora entenda que existe um tempo processual.

Eu fechei os olhos por um segundo, contando até três. Um, dois, três. Eu era boa em esperar quando esperar significava lucrar.

— Mas um mês, então — eu disse. — Eu posso suportar isso.

Eu desliguei.

O silêncio depois da ligação foi quase agradável. Por exatamente dois segundos.

— Mamãe — a Bella chamou, com uma doçura irritante. — Você não vai brincar comigo?

Eu olhei para as unhas da minha mão esquerda e senti uma raiva absurda de como tudo era uma exigência. Brinca. Sorri. Acaricia. Finge. Pede desculpa. Não grita. Não cansa. Não existe.

— Agora não — eu respondi, com a paciência treinada. — Eu acabei de fazer as unhas.

Bella franziu a testa.

— A tia Bia não se importava.

A frase foi simples.

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