~ BIANCA ~
A pulseira de identificação no meu pulso era leve demais para o peso que eu estava trazendo comigo. Meu nome ali, impresso em preto, reduzia a minha vida a uma linha objetiva — como se a coisa mais difícil do mundo fosse só um cadastro bem-feito.
Eu apertei a pasta contra o peito, conferi o horário no celular pela terceira vez e, por um reflexo automático, organizei mentalmente o que eu tinha que lembrar de dizer: semanas, sintomas, perguntas, próximos exames. Eu conseguia fazer isso. Eu sempre consegui.
Se eu mantivesse tudo exatamente organizado, eu não sentiria nada além do necessário.
Mentira.
O que eu sentia era um ruído constante dentro do peito, como um motor ligado sem sair do ponto morto.
Nico andava do meu lado com calma suficiente para nós dois. A mão dele encontrou a minha quando viu meus dedos apertando a pasta forte demais.
— Estamos adiantados — ele comentou, como se tempo fosse um assunto leve.
— Eu planejo ser adiantada — eu respondi.
Ele soltou um riso baixo.
— Claro que planeja.
A recepcionista pediu nossos documentos, e eu respondi por nós dois, automática, fornecendo nomes, datas, números.
Eu gostava de números. Números não mentem.
Nico me deixou falar sem interromper, mas quando a mulher saiu, ele inclinou a cabeça na minha direção.
— Você tá respirando?
Eu pisquei, como se ele tivesse me pego num delito.
— Claro.
— Respiração de verdade, Bia.
Eu engoli seco. Inspirei. Soltei. O ar arranhou a garganta, mas entrou.
Nico encostou o joelho no meu, sutil, estabelecendo presença.
— Quer me dizer uma coisa que não tenha a ver com batimentos, semanas ou protocolos? — ele perguntou.
Eu encarei a parede branca, procurando um assunto como quem procura uma saída.
— A gelateria da esquina do prédio fechou — eu disse.
— Não fechou — ele respondeu com convicção.
— Fechou.
— Eu passo lá todo dia. Ela existe.
— Eu passei ontem. Tinha uma placa — eu olhei para ele. — “Fechado para reformas”.
Ele fez um drama mínimo, levando a mão ao peito.
— Isso é uma tragédia local.
O absurdo arrancou de mim um micro-sorriso, mas real.
— Eu sei — eu murmurei.
Ele tocou meu polegar com o dele, e eu senti aquela promessa silenciosa: eu não vou largar você aqui.
Chamaram meu nome.
Eu levantei, endireitei a coluna e caminhei atrás da enfermeira como se isso fosse um corredor corporativo.
A sala de ultrassom era pequena e impecável. Luz baixa. Tela grande. Um monitor menor ao lado. A maca no centro como um altar branco.
A médica entrou sorrindo.
— Bianca. Nico — ela cumprimentou. — Como você tem se sentido? — ela me perguntou, puxando a cadeira.
Eu sabia exatamente o que responder: “bem”, “tudo sob controle”, “sem sintomas relevantes”.
Mas ainda havia o gosto do vômito na minha memória, e eu não queria mentir para aquela sala.
— Eu… tive um episódio de ansiedade no caminho — eu disse, e as palavras foram estranhamente difíceis. — Mas estou melhor.
A médica assentiu, sem drama.
— Isso acontece. Ainda mais quando existem experiências difíceis associadas à gravidez — ela disse com uma neutralidade gentil. — Vamos fazer com calma.
Ela começou os procedimentos padrão: pressão, perguntas de rotina, uma confirmação de semanas.
— Pela sua data, você está por volta de dezesseis semanas, certo? — ela conferiu.
— Sim — eu respondi.
Nico estava perto, encostado na parede, mas eu sentia a presença dele como se ele estivesse dentro do meu campo de visão.
A médica colocou luvas, preparou o gel, e eu já conhecia aquele momento em que meu corpo decide reagir antes de mim.
Eu subi o vestido, me deitei na maca, e o contato frio do gel me fez prender o ar.
— Ok — ela falou, posicionando o transdutor com cuidado. — Vamos ver como esse bebê está.
A tela acendeu.
Eu vi formas. Sombras. Uma linha curva que poderia ser qualquer coisa. Eu odiava essa fase do exame: meu cérebro tentando interpretar uma imagem que parecia arte moderna.
— Tudo certo aqui — a médica disse, navegando com o aparelho como quem sabe o mapa de cor. — Líquido bom. Placenta ok. Medidas compatíveis.
“Tudo certo.”


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Pelo amorrrrrrr desbloqueia esses capitulos!!!!!...
Paguei pelas moedas, e não foi desbloqueado! Afff...
O que houve porque parou de carregar capítulos?...
Gostaria de manifestar uma profunda insatisfação com vc autora, pois vc parou a história no capítulo 731 e nada de falar se foi o fim do livro ou se vai ter continuação Acho um desrespeito com os leitores q espera todo dia por um novo capítulo. Acho que seria o.minimo de respeito avisar q acabou....
Uma semana sem desbloquear os capítulos...
Não vão desbloquear o restante dos capítulos?...
Ja tem uns 2 dias que não desbloqueiam os capítulos, parou no capítulo 714 e nada... Afff...
Então, cade os capítulos? Parou no 731 e não segue mais, acabou?...
Não entendi nada. Cadê os extras autora. Já terminou o livro?...
Alguém me indica um livro parecido com esse. Gostei muito...