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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 696

~ NICO ~

Eu dirigi sem pressa, sem bravata, sem aquela confiança automática de quem conhece a cidade de olhos fechados. Porque depois de todos esses meses, eu já podia dizer que conhecia Florença. Conhecia as ruas, os atalhos, o melhor caminho para escapar do trânsito. Mas naquele dia eu conhecia outra coisa: o medo da Bianca, recém saído do esconderijo, ainda quente.

Bianca estava silenciosa no banco do passageiro, as duas mãos apoiadas no colo, como se segurar os próprios dedos fosse a maneira mais discreta de se manter inteira. Ela tinha chorado no exame. Nós dois choramos. O som do coração tinha enchido a sala, e por alguns minutos eu achei que aquilo bastava para calar o passado.

Não bastava.

Eu via pela tensão no maxilar dela, pela forma como ela olhava para fora sem realmente ver. O corpo dela ainda estava com um pé naquela estrada de anos atrás e eu queria arrancar a estrada do mapa.

— Nico — ela disse, por fim, e o jeito como pronunciou meu nome me avisou que vinha uma tentativa de controlar o mundo. — Me deixa na Bellucci. Eu tenho umas coisas urgentes pra resolver que…

— Não — eu cortei, sem levantar a voz.

Ela virou o rosto, surpresa. Bianca não está acostumada com “não” dito assim, direto, sem justificativa embaixo.

— Nico, eu...

— Hoje o dia é nosso — eu disse, e eu mantive os olhos na rua porque, se eu olhasse pra ela, talvez eu suavizasse e eu não podia suavizar. — Você já resolveu coisa urgente demais na vida. Hoje você vai respirar.

— Eu tenho reunião, eu tenho...

— Você tem um coração batendo que a gente ouviu hoje, e você tem a mim — eu completei. — O resto espera.

Ela abriu a boca para argumentar.

Eu já conhecia o argumento dela: responsabilidade, reputação, prazos. Eu conhecia o jeito como ela constrói muros com agendas.

Eu sinalizei para a direita.

— Onde você vai? — ela perguntou, desconfiada.

— Supermercado.

— Nico.

— Bianca.

Eu estacionei com calma, desliguei o carro e olhei pra ela de verdade.

— Você confia em mim? — eu perguntei.

Ela segurou meu olhar por um segundo longo.

— Eu… confio.

— Então vem.

No supermercado, eu peguei um carrinho e ela ficou ao meu lado com aquela expressão de quem está em território estrangeiro. Eu vi Bianca liderar reuniões com gente que compra e vende empresas como quem troca de roupa. Eu a vi enfrentar imprensa, advogados, hospitais. Mas diante de uma prateleira de verduras, ela parecia uma executiva sem mapa.

Eu sorri.

— O que foi? — ela perguntou, já ofendida.

— Nada — eu empurrei o carrinho. — Só tô pensando que eu vou te ensinar a diferenciar manjericão de hortelã.

— Eu sei diferenciar.

— Claro — eu disse, pegando um maço de manjericão fresco e colocando no carrinho. — E eu sou o Papa.

Ela tentou não rir. Falhou um pouco.

Eu fui escolhendo as coisas sem pensar muito: tomates maduros, alho, limão, um pedaço bom de peixe, massa fresca, azeite de verdade, morangos. Eu peguei pão, porque pão transforma casa em casa.

No caminho de volta pra casa, ela relaxou um pouco. O corpo ainda estava tenso, mas a respiração mais regular. Eu dirigia devagar, como se a cidade inteira tivesse que me pedir licença.

Quando chegamos em casa, a primeira coisa que eu vi foi o bilhete na bancada da cozinha.

“Fui visitar uma amiga. Volto à noite. — Martina”

— Então… — eu falei, fazendo um gesto amplo com a mão. — Somos só nós dois.

Eu peguei as sacolas e comecei a guardar as coisas. Bianca ficou parada, observando, como se estivesse tentando entender qual era a regra do jogo.

Eu me aproximei e toquei de leve na cintura dela, quando percebi ela levar a mão a barriga.

— Você sentiu algo? — eu perguntei.

— Isso é seguro.

Eu comecei a cozinhar. A cozinha era o meu lugar de ação sem fala. Eu cortava alho, refogava, temperava. O som da panela, o cheiro do azeite esquentando, o tomate abrindo — tudo isso criava uma rotina que não exigia pensamento.

Bianca lavava morangos com uma seriedade absurda.

— Você está lavando como se eles tivessem te ofendido pessoalmente — eu comentei.

— Você não sabe quantas coisas podem estar na superfície de um morango — ela respondeu, sem levantar os olhos.

— Então, acho que eu nem quero saber.

Eu servi o almoço quando ficou pronto: massa simples, peixe, salada, o tipo de comida que parece leve, mas sustenta.

Bianca comeu devagar, como se estivesse reaprendendo o direito de ter prazer em algo que não fosse eficiência. Eu a observei mastigar e achei estranho como um almoço podia ser um ato de resistência.

— Tá bom? — eu perguntei.

Ela assentiu.

— Tá maravilhoso — e, depois de um segundo: — Obrigada.

Eu sorri e toquei o joelho dela por baixo da mesa.

Foi quando a campainha tocou, um som alto demais para nosso silêncio confortável.

Bianca travou com o garfo no ar.

Eu levantei antes que ela pudesse reagir.

— Eu atendo — eu disse.

Ela me acompanhou com os olhos enquanto eu atravessava o corredor até o hall.

Mal abri a porta e Renata entrou como uma tempestade, sem esperar convite, sem pedir licença, os olhos brilhando de fúria e urgência.

— Onde ela está, Nico? — ela gritou, a voz atravessando a casa como um objeto arremessado. — Devolve minha filha!

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