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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 701

~ BIANCA ~

Quando eu saí para a ala externa da Tenuta, o ar parecia mais frio do que minutos antes.

O sol estava descendo atrás dos vinhedos e transformando tudo em uma cor que eu normalmente chamaria de bonita. Mas hoje parecia deboche.

Nico estava no pátio, alguns metros à frente, falando com dois policiais. Eu reconheci a postura dele de longe: o corpo firme, a cabeça inclinada, o jeito de quem responde tentando não tremer. Ele gesticulava pouco. Dava informações como quem monta mapa.

Eu parei no batente da porta e observei por um segundo.

Eu podia atravessar o pátio, interromper, dizer o que eu estava pensando.

“Eu sei onde a Bella pode estar.”

Podia.

Mas a frase, na minha cabeça, ainda vinha com um aviso invisível.

Pode.

Era só uma ideia. Um palpite montado em cima de um detalhe. Dar esperança sem certeza parecia errado. Pior do que errado: cruel.

E havia outra coisa.

Aquela conversa com a polícia podia demorar.

Eles iam querer repetir horários, repetir nomes, repetir rotas, repetir o óbvio até alguém sentir que está “fazendo alguma coisa”. Eu entendia o protocolo. Eu respeitava o protocolo.

Mas eu não podia esperar.

Então, eu fechei a porta atrás de mim com cuidado, para não chamar atenção. Caminhei rápido até o lugar onde eu sabia que as bicicletas ficavam sempre prontas para os passeios, e peguei uma.

As minhas mãos encontraram o guidão com uma familiaridade que eu não tinha certeza se era real ou se era só urgência. Eu ajustei o selim no impulso, subi e empurrei com o pé, sentindo o corpo reclamar um pouco, mas eu ignorei e comecei a pedalar.

Os vinhedos se abriram à minha frente em linhas longas e organizadas, como se a natureza tivesse decidido trabalhar para mim. Fileiras. Direção. Ordem.

“Dois gelatos. Um pro pai.”

A frase do vendedor repetia dentro da minha cabeça no ritmo das rodas.

E então a voz de Nico, na cozinha, entoava o coro:

“Tomar gelato na torre medieval.”

Eu aumentei a velocidade.

O caminho até a torre subia um pouco. Pedras antigas sob os pneus. O ar ficando mais frio e mais fino. Eu senti meu coração bater alto demais, e por um momento eu pensei em Nico dizendo para eu respirar.

Cheguei ao pé da torre e larguei a bicicleta quase sem encostar o freio, apoiando como deu, sem pensar em elegância.

Enquanto subia correndo as escadas circulares, eu já estava gritando:

— Bella! — minha voz bateu nas paredes de pedra e voltou mais alta, como se a própria torre quisesse me assustar. — Bella!

Eu subi mais rápido, sentindo o peito apertar. O topo parecia nunca chegar.

Quando eu finalmente cheguei, o vento me atingiu primeiro.

O espaço lá em cima era pequeno. Um círculo de pedra, sem portas, sem salas, sem cantos escuros.

Bastava uma olhada.

E eu tive certeza.

Bella não estava ali.

O mundo parou por um segundo e, quando voltou, voltou como queda.

— Não… — eu soltei, e a palavra saiu como ar.

Eu deixei um grito escapar, um grito de raiva, de medo, de cansaço. Um grito nada bonito.

Esse era o meu melhor palpite.

E eu estava errada.

As minhas pernas falharam de repente, como se só agora lembrassem que existiam. Eu escorreguei até o chão de pedra e me sentei de qualquer jeito, as costas encostando na parede.

E, finalmente, deixei o pânico me alcançar.

Eu chorei.

Chorei com a cara enterrada nas mãos, tentando fazer silêncio, como se a vergonha pudesse me impedir de desabar. Como se eu ainda fosse alguém que escolhe onde e quando perde o controle.

Eu sempre organizei as coisas em ação.

Uma coisa a fazer depois da outra.

Uma ligação.

Uma lista.

Um plano.

O que uma criança faz quando falha?

Ela procura um lugar para esperar.

Um lugar onde ela possa… se esconder.

Eu me levantei num impulso, limpando o rosto com a manga como se isso apagasse o que eu estava sentindo.

Eu desci as escadas correndo, os joelhos tremendo.

Quase tropecei na metade, e o medo de cair me lembrou, tarde demais, de que eu não estava sozinha dentro do meu corpo.

No pé da torre, eu peguei a bicicleta e pedalei em outra direção, guiada não por certeza, mas por insistência.

A cave de barricas.

O lugar onde Nico guardava os tonéis. O lugar que cheirava a madeira e silêncio. O lugar onde uma criança pode brincar de pique-esconde como se fosse uma aventura.

Eu pedalei como se o destino dependesse do ritmo das minhas pernas.

Quando eu cheguei, eu larguei a bicicleta e empurrei a porta.

A cave me engoliu com um ar frio e úmido.

— Bella! — eu chamei, e o nome dela reverberou nas paredes, devolvido em ecos diferentes. — Bella!

As fileiras de barricas se alongavam como corredores escuros. Ali era diferente da torre. Ali havia lugares para desaparecer.

Eu avancei entre as barricas, a mão tocando a madeira como se isso pudesse me manter aqui.

— Bella, meu amor… é a tia Bia. Você tá aqui?

O nome dela voltou em eco, multiplicado, e eu odiei o jeito como a cave devolvia tudo sem me dar nada.

Eu dei mais um passo, depois outro, e continuei chamando mais baixo, como se qualquer som errado pudesse espantar.

— Bella… eu…

Eu me calei repentinamente.

Meus olhos arregalaram.

Minhas mãos foram direto para a barriga.

E eu deixei um grito escapar.

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