~ NICO ~
Quando a gente saiu da cave de barricas, eu senti o ar do fim de tarde me bater no rosto como se eu estivesse voltando de debaixo d’água.
Bella estava no meu colo, grudada em mim do jeito que criança gruda quando o mundo vira coisa perigosa. Ela tinha o rosto amassado no meu pescoço e as mãos pequenas agarradas na minha camisa como se eu fosse uma parede.
Eu não tinha força para pedir que ela soltasse.
Eu também não queria.
No pátio, as luzes já estavam acesas. O sol tinha descido de verdade e deixado aquele resto de dia com cara de fim de filme. Só que nenhum filme termina com burocracia esperando no meio da propriedade.
Os policiais ainda estavam ali.
Dois homens, postura de quem faz isso todos os dias, pranchetas e celulares na mão, preenchendo o espaço com autoridade.
Quando me viram, os dois se moveram ao mesmo tempo.
— Senhor Montesi — o mais velho disse. O tom era neutro, nem agressivo nem gentil. — A criança está bem?
— Está — eu respondi.
Bella levantou o rosto só um pouco, o suficiente para olhar de relance, e voltou a esconder a cara em mim.
O policial assentiu e olhou para Bianca.
Ela estava ao meu lado, um passo atrás.
— Precisamos entender como ela foi encontrada — o policial continuou, já com o bloco aberto. — Para registrar o percurso e descartar hipóteses.
Eu queria dizer “o percurso é que a minha filha sumiu e eu quase enlouqueci”.
Eu engoli.
Bianca falou antes de mim.
— Eu fui atrás de câmeras e horários — ela disse, objetiva. — Pedi imagens na escola. Depois procurei testemunhas perto do portão.
— Testemunhas? — o policial perguntou.
— Um vendedor de gelato — Bianca explicou. — Ele disse que ela comprou dois e falou que era para tomar com o pai.
O policial anotou.
Eu vi o segundo policial anotar também, mas com aquela expressão de quem escreve “vendedor de gelato” e pensa “claro, por que não”.
Meu estômago contraiu.
— E então? — o policial pediu.
Bianca hesitou um segundo, tentando escolher como prosseguir com a história.
— Quando a ficha caiu… eu decidi investigar um lugar para onde eles iriam fazer isso juntos — ela disse.
— E você encontrou a criança lá? — o policial perguntou, rápido.
— Não exatamente — Bianca respondeu.
Eu senti a pequena pausa que aconteceu no pátio. A frase “não exatamente” não combina com relatório. Não combina com autoridade. Não combina com o mundo que gosta de causalidade.
— O resto foi intuição — ela completou.
O gesto foi rápido, mas eu vi.
O policial mais novo levantou o olhar da anotação e fez aquele micro movimento de boca que indicava ceticismo. A expressão que diz: conveniente.
Conveniente.
Como se eu tivesse escolhido essa noite para inventar uma trama, como se Bianca tivesse escolhido a Tenuta para encenar heroísmo, como se minha filha tivesse escolhido o medo para manipular adultos.
Eu senti o meu corpo endurecer.
Bianca também percebeu.
Eu não precisei olhar para ela para saber. Ainda assim, eu olhei.
E encontrei os olhos dela, firmes e alertas, dizendo a mesma coisa que eu estava pensando: eles vão querer encaixar triangulo e um círculo.
Eu voltei a atenção para o policial.
— Ela estava escondida na cave — eu disse, curto. — Está viva. Está aqui.
O policial anotou de novo.
— Senhor Montesi, precisamos também entender o motivo da fuga — ele falou, e dessa vez a voz veio com aquele cuidado exagerado que gente treinada usa quando fala com criança.
Ele abaixou um pouco o corpo, tentando ficar na altura de Bella.
— Isabella… por que você saiu da escola?
Bella apertou mais forte minha camisa.
Eu senti o coração dela batendo rápido contra o meu peito.
Ele assentiu uma vez.
Voltou para mim com passos mais firmes.
— Senhor Montesi — ele disse, e agora o tom tinha peso. — Diante do que foi relatado, vamos precisar acionar um assistente social para conversar com a criança antes de qualquer…
— Não. — Eu interrompi.
A palavra saiu seca, sem educação, antes que eu organizasse melhor.
O policial parou, piscando.
— Com todo respeito, oficial — eu continuei, tentando colocar humanidade na minha voz sem ceder um milímetro. — Já está de noite. Minha filha está assustada. Nós moramos há duas horas daqui.
Ele abriu a boca para argumentar.
Eu não deixei.
— Ninguém vai conversar com a Bella hoje — eu disse, e senti Bella se agarrar mais quando ouviu o próprio nome. — Eu vou levá-la pra casa. Pra minha casa.
— Senhor Montesi…
— Amanhã — eu cortei. — Amanhã vocês conversam com quem tiver que conversar, no horário que for preciso, com o advogado que tiver que estar presente. Hoje não.
Eu me virei.
Foi um gesto simples, mas teve gosto de guerra.
Eu dei as costas para os dois.
Senti os olhos deles em mim.
Senti Bianca ficar um segundo parada, como se quisesse dizer alguma coisa e decidisse não dizer.
Eu caminhei até o carro com Bella no colo.
A cada passo, eu sentia a culpa tentando me puxar de volta para aquele pátio, como se eu tivesse obrigação de ser o pai perfeito que coopera com tudo.
Mas eu não era perfeito.
Eu era um pai.
E minha filha estava viva.
Isso era o que importava.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Poxa autora, é interessante a gente disponibilizar os capítulos gratuitos mesmo já tendo acabado de postar a história... Não dá pra toda hora ficar comprando moedas pra ler....
Boa noite... Desde 6f que não liberam os capítulos... já está ficando cansativo.... affff...
Oi autoura Kayla Sango, sei que se despeciu e finalizou esses livros, mas quando sentir que deve, conte a história de Matheus e Mia e também Dante e Paloma, acho que nós como espectadores ficariamos muito gratos, principalmente quem acompanhou todos os livros até aqui. Estou com um gostinho de saudade já. Obrigada!...
Quem é Paloma, gente? Era pra ser a Paola, no caso?...
Pois é Simone Honorato, eu tbm fiquei super animada achando que leria 20 capítulos.Frustante mesmo...
Boa tarde, reparei que do capitulo 731 pulou para o capitulo 751 !!!! Me parece o FINAL !!!! É ISSO MESMO ? FRUSTANTE, PENSEI QUE LERIA 20 CA´PITULOS, E NADA, SOMENTE 01.!!...
Pelo amorrrrrrr desbloqueia esses capitulos!!!!!...
Paguei pelas moedas, e não foi desbloqueado! Afff...
O que houve porque parou de carregar capítulos?...
Gostaria de manifestar uma profunda insatisfação com vc autora, pois vc parou a história no capítulo 731 e nada de falar se foi o fim do livro ou se vai ter continuação Acho um desrespeito com os leitores q espera todo dia por um novo capítulo. Acho que seria o.minimo de respeito avisar q acabou....