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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 703

~ NICO ~

Quando a gente saiu da cave de barricas, eu senti o ar do fim de tarde me bater no rosto como se eu estivesse voltando de debaixo d’água.

Bella estava no meu colo, grudada em mim do jeito que criança gruda quando o mundo vira coisa perigosa. Ela tinha o rosto amassado no meu pescoço e as mãos pequenas agarradas na minha camisa como se eu fosse uma parede.

Eu não tinha força para pedir que ela soltasse.

Eu também não queria.

No pátio, as luzes já estavam acesas. O sol tinha descido de verdade e deixado aquele resto de dia com cara de fim de filme. Só que nenhum filme termina com burocracia esperando no meio da propriedade.

Os policiais ainda estavam ali.

Dois homens, postura de quem faz isso todos os dias, pranchetas e celulares na mão, preenchendo o espaço com autoridade.

Quando me viram, os dois se moveram ao mesmo tempo.

— Senhor Montesi — o mais velho disse. O tom era neutro, nem agressivo nem gentil. — A criança está bem?

— Está — eu respondi.

Bella levantou o rosto só um pouco, o suficiente para olhar de relance, e voltou a esconder a cara em mim.

O policial assentiu e olhou para Bianca.

Ela estava ao meu lado, um passo atrás.

— Precisamos entender como ela foi encontrada — o policial continuou, já com o bloco aberto. — Para registrar o percurso e descartar hipóteses.

Eu queria dizer “o percurso é que a minha filha sumiu e eu quase enlouqueci”.

Eu engoli.

Bianca falou antes de mim.

— Eu fui atrás de câmeras e horários — ela disse, objetiva. — Pedi imagens na escola. Depois procurei testemunhas perto do portão.

— Testemunhas? — o policial perguntou.

— Um vendedor de gelato — Bianca explicou. — Ele disse que ela comprou dois e falou que era para tomar com o pai.

O policial anotou.

Eu vi o segundo policial anotar também, mas com aquela expressão de quem escreve “vendedor de gelato” e pensa “claro, por que não”.

Meu estômago contraiu.

— E então? — o policial pediu.

Bianca hesitou um segundo, tentando escolher como prosseguir com a história.

— Quando a ficha caiu… eu decidi investigar um lugar para onde eles iriam fazer isso juntos — ela disse.

— E você encontrou a criança lá? — o policial perguntou, rápido.

— Não exatamente — Bianca respondeu.

Eu senti a pequena pausa que aconteceu no pátio. A frase “não exatamente” não combina com relatório. Não combina com autoridade. Não combina com o mundo que gosta de causalidade.

— O resto foi intuição — ela completou.

O gesto foi rápido, mas eu vi.

O policial mais novo levantou o olhar da anotação e fez aquele micro movimento de boca que indicava ceticismo. A expressão que diz: conveniente.

Conveniente.

Como se eu tivesse escolhido essa noite para inventar uma trama, como se Bianca tivesse escolhido a Tenuta para encenar heroísmo, como se minha filha tivesse escolhido o medo para manipular adultos.

Eu senti o meu corpo endurecer.

Bianca também percebeu.

Eu não precisei olhar para ela para saber. Ainda assim, eu olhei.

E encontrei os olhos dela, firmes e alertas, dizendo a mesma coisa que eu estava pensando: eles vão querer encaixar triangulo e um círculo.

Eu voltei a atenção para o policial.

— Ela estava escondida na cave — eu disse, curto. — Está viva. Está aqui.

O policial anotou de novo.

— Senhor Montesi, precisamos também entender o motivo da fuga — ele falou, e dessa vez a voz veio com aquele cuidado exagerado que gente treinada usa quando fala com criança.

Ele abaixou um pouco o corpo, tentando ficar na altura de Bella.

— Isabella… por que você saiu da escola?

Bella apertou mais forte minha camisa.

Eu senti o coração dela batendo rápido contra o meu peito.

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