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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 705

~ BIANCA ~

O café ainda descia amargo pela minha garganta quando eu abri a primeira marcação.

A tela carregou com um daqueles layouts que fingem ser jornalismo, mas se alimentam do mesmo impulso da fofoca: certeza sem prova, suposições no lugar de fato.

Eu passei os olhos, rápido, como quem faz triagem.

COO DA BELLUCCI ITÁLIA ENVOLVIDA EM SEQUESTRO DE MENOR.

Eu desci.

“Fontes próximas à mãe biológica…”

“Especialistas afirmam que casos assim costumam envolver alienação parental…”

“Bianca teria manipulando a criança para rejeitar a mãe…”

Manipulando? Eu li de novo para ter certeza de que era isso mesmo.

A palavra vinha como se explicasse o mundo: Bianca, bilionária, calculista, grávida, com ciúmes de ex-esposa.

Eu rolei mais.

“Suspeito que, em meio ao desaparecimento, justamente a executiva tenha sido a única a ‘intuir’ o local…”

“Após a comoção pública, ela teria se colocado como salvadora…”

E então a parte que pretendia ser a lâmina final:

“É difícil acreditar que, com toda a cidade procurando Isabella, apenas Bianca soubesse onde encontrá-la.”

Eu apertei a xícara com força, minha mão tremendo de raiva.

Eu já tinha vivido vazamentos. Já tinha sido manchete por coisas ridículas. Eu conhecia o jogo. Mas aquilo não era só sobre mim. Aquilo arrastava uma criança.

Eu desci mais, procurando alguma fonte sobre quem poderia ter vazado uma notícia tão sensacionalista. Mas o que encontre, entre aspas, foi uma declaração em tom emocional da “mãe desesperada”.

O texto descrevia lágrimas, voz falha, mão no peito, como se um artigo pudesse filmar.

“Tudo o que eu quero é a minha filha de volta.”

“Isabella escolheu ficar comigo e agora o pai e a esposa dele estão tirando isso.”

E veio a frase final, o golpe planejado para parecer fragilidade:

“Ela tem dinheiro. Ela tem sobrenome. Se ela quiser desaparecer com a minha filha no mundo… o que eu vou fazer?”

Eu arremessei o celular para o outro lado da bancada, de raiva. Ele bateu na madeira e escorregou, parando perto da fruteira.

— VACA! — eu gritei.

E foi exatamente nesse momento que Nico entrou na cozinha.

Ele estava de camiseta, cabelo bagunçado, o rosto ainda marcado pela noite de pouco sono. Ele olhou para mim, depois para o celular longe demais, depois para a minha xícara quase tombada.

— Por favor — ele disse, e a voz dele veio cansada, mas alerta. — Não me diga que a Renata arrumou mais problemas.

Eu apontei para o celular como se ele fosse um objeto contaminado.

— É exatamente dessa vaca que eu estou falando.

Nico respirou fundo e veio até a bancada.

— O que ela fez?

Eu fui pegar o celular com a intenção de mostrar para ele a matéria inteira, linha por linha. No meio do caminho, a tela acendeu com uma notificação.

Conti.

“ESTOU A CAMINHO. NÃO FAÇAM NADA ANTES DE EU CHEGAR.”

As letras em caixa alta foram como um puxão de freio.

Eu levantei o celular e mostrei a Nico primeiro a mensagem. Ele leu. A mandíbula dele endureceu.

— E isso? — ele perguntou.

Eu abri a matéria.

Nico passou os olhos e eu vi a raiva subir, ainda que de maneira silenciosa.

— Podemos processá-la — ele disse, baixo. — Isso é mentira atrás de mentira. Ela não pode provar nada.

Eu fechei os olhos por um instante.

— Eu sei — eu respondi. — Mas o estrago não precisa de prova pra acontecer.

Nico ia dizer outra coisa, mas foi interrompido pelo som da campainha tocando.

— Fica aqui — ele disse.

Mas eu fui atrás mesmo assim.

No corredor, Martina já estava saindo do quarto. Ela tinha o cabelo preso às pressas e aquele olhar de quem dormiu de um olho só.

— O que foi? — ela perguntou baixinho.

A campainha tocou de novo.

Nico abriu a porta.

Do lado de fora, dois homens. Um com postura de polícia, uniforme simples. Outro sem uniforme, com uma pasta e um crachá pendurado no pescoço. Ao lado deles, uma mulher com uma bolsa grande e o mesmo crachá.

Conti chegou em menos do que eu teria acreditado possível, de paletó e pasta, rosto sério, olhar rápido que varreu a sala como um scanner.

Ele cumprimentou os presentes com formalidade.

— Sou o advogado da família — ele disse, e puxou Nico e eu para um canto por segundos. — Não falem nada além do necessário — Conti murmurou. — Não respondam a insinuações. E, principalmente: nada de internet.

Nico soltou uma risada curta, sem humor.

— Tarde demais.

Conti respirou fundo, virou para a assistente social e ajustou o tom como quem entra em modo trabalho.

— Certo. Vamos proceder.

Nico não discutiu. Ele só ficou mais pálido enquanto foi buscar Bella no quarto.

— Eles só vão conversar um pouquinho com você, princesa. Eu tô aqui. A tia Bia tá aqui. A nonna tá aqui. Certo?

Bella olhou para mim, depois para Martina, depois para os crachás. Assentiu devagar, como se estivesse tentando ser “correta”.

A assistente social se aproximou no ritmo certo, sem invadir.

— Oi, Isabella. Eu sou a Chiara. Eu só quero entender o que aconteceu ontem. A gente pode conversar ali na cozinha, um minutinho?

Bella hesitou. A mão dela encontrou a do pai por um segundo, apertou, e soltou.

— Tá… — ela sussurrou.

Conti abriu a porta da cozinha e ficou do lado de fora, encostado no batente, sem entrar. O homem da pasta e o policial permaneceram na sala conosco. Martina se sentou no sofá com as mãos juntas, rígidas. Eu fiquei em pé, porque eu não conseguia fazer meu corpo aceitar a ideia de sentar-se.

E foi aí que o apartamento virou um lugar estranho.

A gente não ouvia palavras nítidas, só o som baixo de vozes, pausas compridas, um arrastar de cadeira. Eu vi Nico tentar manter a expressão neutra e falhar.

Conti fez um gesto quase invisível com a mão — calma.

Alguns minutos depois, Bella saiu primeiro.

Ela não olhou para ninguém além do pai, correndo na direção dele e se agarrando às pernas de Nico com um desespero silencioso que fez meu estômago virar.

Nico passou a mão no cabelo dela, devagar, como se estivesse contando até dez com os dedos.

— Eu tô aqui. Eu tô aqui.

A assistente social apareceu atrás, arrumando a bolsa no ombro. O homem da pasta se levantou. O policial ajeitou o rádio na cintura.

E então, como se escolhesse as palavras menos cruéis possíveis, ela falou:

— Senhor Montesi… Conforme a determinação judicial vigente, a residência da menor permanece, por ora, sob responsabilidade materna. Portanto, hoje, Isabella deverá ser entregue à mãe.

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