~ BIANCA ~
O café ainda descia amargo pela minha garganta quando eu abri a primeira marcação.
A tela carregou com um daqueles layouts que fingem ser jornalismo, mas se alimentam do mesmo impulso da fofoca: certeza sem prova, suposições no lugar de fato.
Eu passei os olhos, rápido, como quem faz triagem.
COO DA BELLUCCI ITÁLIA ENVOLVIDA EM SEQUESTRO DE MENOR.
Eu desci.
“Fontes próximas à mãe biológica…”
“Especialistas afirmam que casos assim costumam envolver alienação parental…”
“Bianca teria manipulando a criança para rejeitar a mãe…”
Manipulando? Eu li de novo para ter certeza de que era isso mesmo.
A palavra vinha como se explicasse o mundo: Bianca, bilionária, calculista, grávida, com ciúmes de ex-esposa.
Eu rolei mais.
“Suspeito que, em meio ao desaparecimento, justamente a executiva tenha sido a única a ‘intuir’ o local…”
“Após a comoção pública, ela teria se colocado como salvadora…”
E então a parte que pretendia ser a lâmina final:
“É difícil acreditar que, com toda a cidade procurando Isabella, apenas Bianca soubesse onde encontrá-la.”
Eu apertei a xícara com força, minha mão tremendo de raiva.
Eu já tinha vivido vazamentos. Já tinha sido manchete por coisas ridículas. Eu conhecia o jogo. Mas aquilo não era só sobre mim. Aquilo arrastava uma criança.
Eu desci mais, procurando alguma fonte sobre quem poderia ter vazado uma notícia tão sensacionalista. Mas o que encontre, entre aspas, foi uma declaração em tom emocional da “mãe desesperada”.
O texto descrevia lágrimas, voz falha, mão no peito, como se um artigo pudesse filmar.
“Tudo o que eu quero é a minha filha de volta.”
“Isabella escolheu ficar comigo e agora o pai e a esposa dele estão tirando isso.”
E veio a frase final, o golpe planejado para parecer fragilidade:
“Ela tem dinheiro. Ela tem sobrenome. Se ela quiser desaparecer com a minha filha no mundo… o que eu vou fazer?”
Eu arremessei o celular para o outro lado da bancada, de raiva. Ele bateu na madeira e escorregou, parando perto da fruteira.
— VACA! — eu gritei.
E foi exatamente nesse momento que Nico entrou na cozinha.
Ele estava de camiseta, cabelo bagunçado, o rosto ainda marcado pela noite de pouco sono. Ele olhou para mim, depois para o celular longe demais, depois para a minha xícara quase tombada.
— Por favor — ele disse, e a voz dele veio cansada, mas alerta. — Não me diga que a Renata arrumou mais problemas.
Eu apontei para o celular como se ele fosse um objeto contaminado.
— É exatamente dessa vaca que eu estou falando.
Nico respirou fundo e veio até a bancada.
— O que ela fez?
Eu fui pegar o celular com a intenção de mostrar para ele a matéria inteira, linha por linha. No meio do caminho, a tela acendeu com uma notificação.
Conti.
“ESTOU A CAMINHO. NÃO FAÇAM NADA ANTES DE EU CHEGAR.”
As letras em caixa alta foram como um puxão de freio.
Eu levantei o celular e mostrei a Nico primeiro a mensagem. Ele leu. A mandíbula dele endureceu.
— E isso? — ele perguntou.
Eu abri a matéria.
Nico passou os olhos e eu vi a raiva subir, ainda que de maneira silenciosa.
— Podemos processá-la — ele disse, baixo. — Isso é mentira atrás de mentira. Ela não pode provar nada.
Eu fechei os olhos por um instante.
— Eu sei — eu respondi. — Mas o estrago não precisa de prova pra acontecer.
Nico ia dizer outra coisa, mas foi interrompido pelo som da campainha tocando.
— Fica aqui — ele disse.
Mas eu fui atrás mesmo assim.
No corredor, Martina já estava saindo do quarto. Ela tinha o cabelo preso às pressas e aquele olhar de quem dormiu de um olho só.
— O que foi? — ela perguntou baixinho.
A campainha tocou de novo.
Nico abriu a porta.
Do lado de fora, dois homens. Um com postura de polícia, uniforme simples. Outro sem uniforme, com uma pasta e um crachá pendurado no pescoço. Ao lado deles, uma mulher com uma bolsa grande e o mesmo crachá.
Conti chegou em menos do que eu teria acreditado possível, de paletó e pasta, rosto sério, olhar rápido que varreu a sala como um scanner.
Ele cumprimentou os presentes com formalidade.
— Sou o advogado da família — ele disse, e puxou Nico e eu para um canto por segundos. — Não falem nada além do necessário — Conti murmurou. — Não respondam a insinuações. E, principalmente: nada de internet.
Nico soltou uma risada curta, sem humor.
— Tarde demais.
Conti respirou fundo, virou para a assistente social e ajustou o tom como quem entra em modo trabalho.
— Certo. Vamos proceder.
Nico não discutiu. Ele só ficou mais pálido enquanto foi buscar Bella no quarto.
— Eles só vão conversar um pouquinho com você, princesa. Eu tô aqui. A tia Bia tá aqui. A nonna tá aqui. Certo?
Bella olhou para mim, depois para Martina, depois para os crachás. Assentiu devagar, como se estivesse tentando ser “correta”.
A assistente social se aproximou no ritmo certo, sem invadir.
— Oi, Isabella. Eu sou a Chiara. Eu só quero entender o que aconteceu ontem. A gente pode conversar ali na cozinha, um minutinho?
Bella hesitou. A mão dela encontrou a do pai por um segundo, apertou, e soltou.
— Tá… — ela sussurrou.
Conti abriu a porta da cozinha e ficou do lado de fora, encostado no batente, sem entrar. O homem da pasta e o policial permaneceram na sala conosco. Martina se sentou no sofá com as mãos juntas, rígidas. Eu fiquei em pé, porque eu não conseguia fazer meu corpo aceitar a ideia de sentar-se.
E foi aí que o apartamento virou um lugar estranho.
A gente não ouvia palavras nítidas, só o som baixo de vozes, pausas compridas, um arrastar de cadeira. Eu vi Nico tentar manter a expressão neutra e falhar.
Conti fez um gesto quase invisível com a mão — calma.
Alguns minutos depois, Bella saiu primeiro.
Ela não olhou para ninguém além do pai, correndo na direção dele e se agarrando às pernas de Nico com um desespero silencioso que fez meu estômago virar.
Nico passou a mão no cabelo dela, devagar, como se estivesse contando até dez com os dedos.
— Eu tô aqui. Eu tô aqui.
A assistente social apareceu atrás, arrumando a bolsa no ombro. O homem da pasta se levantou. O policial ajeitou o rádio na cintura.
E então, como se escolhesse as palavras menos cruéis possíveis, ela falou:
— Senhor Montesi… Conforme a determinação judicial vigente, a residência da menor permanece, por ora, sob responsabilidade materna. Portanto, hoje, Isabella deverá ser entregue à mãe.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Poxa autora, é interessante a gente disponibilizar os capítulos gratuitos mesmo já tendo acabado de postar a história... Não dá pra toda hora ficar comprando moedas pra ler....
Boa noite... Desde 6f que não liberam os capítulos... já está ficando cansativo.... affff...
Oi autoura Kayla Sango, sei que se despeciu e finalizou esses livros, mas quando sentir que deve, conte a história de Matheus e Mia e também Dante e Paloma, acho que nós como espectadores ficariamos muito gratos, principalmente quem acompanhou todos os livros até aqui. Estou com um gostinho de saudade já. Obrigada!...
Quem é Paloma, gente? Era pra ser a Paola, no caso?...
Pois é Simone Honorato, eu tbm fiquei super animada achando que leria 20 capítulos.Frustante mesmo...
Boa tarde, reparei que do capitulo 731 pulou para o capitulo 751 !!!! Me parece o FINAL !!!! É ISSO MESMO ? FRUSTANTE, PENSEI QUE LERIA 20 CA´PITULOS, E NADA, SOMENTE 01.!!...
Pelo amorrrrrrr desbloqueia esses capitulos!!!!!...
Paguei pelas moedas, e não foi desbloqueado! Afff...
O que houve porque parou de carregar capítulos?...
Gostaria de manifestar uma profunda insatisfação com vc autora, pois vc parou a história no capítulo 731 e nada de falar se foi o fim do livro ou se vai ter continuação Acho um desrespeito com os leitores q espera todo dia por um novo capítulo. Acho que seria o.minimo de respeito avisar q acabou....