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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 707

~ BIANCA ~

Eu acordei com a impressão de que tinha engolido vidro.

Uma tensão acumulada em lugares que não deveriam existir no corpo... atrás do olho, na nuca, entre as costelas. Eu fiquei alguns segundos imóvel, ouvindo o apartamento em silêncio, tentando decidir qual era a primeira emergência do dia.

A resposta veio sozinha: todas.

Eu virei o rosto.

Nico dormia de lado, não um sono de descanso, mas aquele tipo de sono em que o corpo apaga por falta de combustível e a mente fica acordada em algum lugar. O braço dele estava estendido na direção do espaço vazio na cama.

O espaço onde Bella tinha dormido horas antes.

A cama parecia grande demais sem ela.

Eu levantei devagar, com cuidado para não fazer barulho e fui direto para o banheiro. Tomei um banho frio, como se água fria pudesse arrancar o que tinha grudado na noite anterior. Prendi o cabelo. Passei hidratante. A minha mão desceu para a barriga no meio do movimento, mais hábito do que carinho.

Eu ainda estava tentando funcionar.

No closet, eu abri a parte das roupas de trabalho e puxei um blazer.

E parei.

A cena apareceu como um absurdo: eu, colocando blazer, como se não tivesse virado manchete de sequestro ontem.

Respirei fundo.

Eu estava escolhendo uma camisa quando o telefone tocou e a tela mostrou o nome de Chritian.

Tão cedo aqui, madrugada lá. Isso não podia ser coisa boa.

Eu atendi no segundo toque.

— Bia.

A voz dele veio sem rodeio, baixa, do jeito que ele usa quando já está na quinta crise do dia e não tem mais energia para fingir calma.

— Eu vi — ele falou antes de eu dizer qualquer coisa.

— Eu sei que você viu — eu respondi.

Houve um silêncio curto, carregado de tudo o que irmãos não precisam explicar.

— Onde você está? — ele perguntou.

— Florença.

— E a Bella?

A minha garganta apertou.

— Voltou pra mãe ontem. — Eu fechei os olhos por um segundo. — Por “determinação vigente”.

Eu ouvi o ar dele sair do outro lado da linha.

— Merda — Christian disse, sem filtro.

Eu quase ri. Porque até o Christian falando “merda” parecia mais humano do que todo o resto.

— Escuta — ele começou. — Eu estou ligando cedo porque… isso vai chegar em você de qualquer forma. Eu prefiro que chegue por mim.

Eu encostei a mão na bancada do closet.

— Fala.

— O conselho se reuniu. Eu tentei segurar, mas eles votaram. — Ele fez uma pausa. — Eles vão te afastar temporariamente.

Eu senti um vazio frio abrir no meu peito.

— Afastar de quê? — eu perguntei, com a voz controlada.

— Da operação. Função executiva. Assinatura. Exposição pública. — Christian falava como se estivesse lendo uma lista. — “Medida administrativa preventiva”.

Eu fechei a mão.

— Preventiva — eu repeti, seca. — Como se eu fosse um risco.

— Não é sobre achar você culpada — Christian disse rápido, e eu ouvi a tentativa de me segurar antes que eu caísse num lugar escuro. — É sobre a empresa não virar cúmplice do argumento de que você está usando poder corporativo pra encobrir um caso com menor.

— Isso é mentira! — eu falei, e a raiva veio afiada.

— Eu sei. — A voz dele ficou mais firme. — Eu sei que é mentira. Mas o mercado não trabalha com verdade, Bia. Trabalha com manchete.

Eu me sentei na beirada do banco do closet sem perceber que tinha sentado.

— Você é o CEO — eu disse.

Eu não quis que aquilo soasse acusação, porque não era. Era puro desespero.

Christian ficou em silêncio um segundo. Quando falou, soou diferente.

— Eu sou o CEO — ele repetiu. — E justamente por isso eu não posso dar um passo que pareça pessoal. Se eu te mantenho no cargo enquanto estão te chamando de sequestradora, eu entrego a narrativa de bandeja.

Eu apertei a ponte do nariz.

Eu pensei em Bella.

Eu pensei em Nico dando as costas para a polícia.

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