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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 708

~ BIANCA ~

O café ficava numa rua discreta. Eu escolhi a mesa mais ao fundo, com visão da porta e do balcão. Um hábito antigo. Quando você aprende a ser observada, você aprende a observar primeiro.

O homem chegou sem pressa, sem olhar demais para os lados, como quem sabe que gente apressada chama atenção. Terno escuro, barba por fazer calculada, pasta fina — não de advogado, de alguém que prefere que o trabalho fique fora do papel.

— Senhora Bellucci? — ele perguntou.

Eu assenti.

Ele sentou.

— Pode me chamar de Lorenzo — ele disse. — Você foi recomendada.

— Eu sei — eu respondi. — E eu não vou usar seu nome fora daqui.

Um canto da boca dele quase subiu.

— Ótimo. Então a gente fala a mesma língua — ele falou.

Eu apoiei as duas mãos na xícara como se fosse só isso que eu precisava segurar.

— É um caso de guarda de menor — eu comecei. — Então tudo tem que ser ainda mais… cuidadoso.

— Menor de idade muda procedimento e muda preço — ele respondeu, prático. — Mas dá para fazer. Você quer o quê, exatamente?

Eu respirei uma vez, puxando na cabeça uma lista que já estava organizada desde o instante em que Bella saiu dos braços do pai.

— A mãe biológica, Renata, está jogando sujo — eu disse. — Ela já me colocou em um processo de lesão corporal agravada.

Eu vi o olhar dele prender um segundo.

— Agressão? — ele confirmou.

— Confronto. Ela transformou em agressão — eu corrigi. — Eu não vou te dar detalhes emocionais. Vou te dar o que importa: ela usa isso para construir uma narrativa de instabilidade.

Ele anotou uma palavra.

— Instabilidade.

— Sim. — Eu continuei. — Agora ela está tentando construir também uma narrativa de negligência na nossa casa. Não na dela. Na nossa.

Eu fiz questão de dizer “nossa” com clareza.

— Você, o pai… e… — ele deixou a frase aberta.

— Eu e o pai da criança. Nico Montesi. Nós somos casados — eu disse. — E ela quer que isso pareça um capricho meu. Ciúme. Disputa de mulher.

— E o episódio do desaparecimento — ele falou, sem perguntar. — Também entrou na história.

Eu apertei a xícara.

— Ela manipulou a imprensa para transformar um fato simples em crime — eu disse. — Isabella fugiu porque queria voltar para o pai. Ela tentou voltar pra casa. E Renata fez isso virar “sequestro arquitetado por mim”.

— Ela afirma que você planejou — ele repetiu, ainda anotando.

— Ela sugere. Ela nunca acusa de forma que possa ser cobrada com facilidade. Mas planta a ideia no lugar certo — eu falei. — E o lugar certo, agora, é o público.

Lorenzo levantou os olhos.

— O seu objetivo é desmentir? Ou é coletar prova contra ela?

— Eu quero prova — eu respondi, sem hesitar.

Ele ficou em silêncio por um instante, pesando.

— O pai da criança sabe que você está aqui? — ele perguntou.

Eu não demorei para responder.

— Não.

— Por quê?

Eu baixei a voz.

— Porque eu não quero alarmá-lo sem necessidade, por enquanto — eu disse. — Ele já está… no limite. Eu preciso trazer algo concreto antes de transformar isso em mais um peso nas costas dele.

Lorenzo assentiu devagar, como se entendesse mais do que eu gostaria.

— Entendi. — Ele encostou a caneta no caderno. — Você quer o quê: rotina, dinheiro, homens?

A pergunta foi seca.

Eu senti meu estômago revirar, mas eu mantive a expressão no lugar.

— Bella relatou… — eu comecei, e as palavras insistiram em não sair com naturalidade. — Ela disse que homens estranhos frequentam a casa da mãe. E que, quando isso acontece, ela fica trancada no quarto.

O resto dos dias se misturou num ritmo que não parecia humano. Eu respondi ligações do Conti sem responder o que eu não queria ouvir. Eu assinei o afastamento temporário com a caneta como se estivesse assinando um acordo de guerra. Eu falei com Christian duas vezes e com Matheus uma vez — rápido, objetivo, sem espaço para emoção.

Na sétima noite, eu voltei para casa com a sensação de que o corpo inteiro estava em estado de vigília, mesmo quando eu fechava os olhos.

O porteiro me entregou um envelope pardo, sem remetente.

— Chegou pra senhora — ele disse.

Eu assenti, peguei e subi.

Dentro do apartamento, eu fui direto para a bancada da cozinha.

Nico não estava ali. Eu não sabia se ele tinha saído para andar ou se ainda não tinha voltado das obras da Tenuta. Eu só sabia que eu não queria a primeira reação dele perto da minha primeira leitura.

Eu peguei uma tesoura e cortei.

Me deparei com fotos.

Primeiro, uma imagem granulada, mas nítida o suficiente: o portão da casa dela, luz de rua, Renata abrindo a porta. Um homem atrás dela, mão no bolso, postura de quem já conhece o caminho.

Eu virei a foto, e ali marcava a data e o horário.

Eu peguei outra.

Outro homem. Mais alto. Casaco claro. Entrando no mesmo endereço.

Outra.

Mais um. Diferente dos outros dois. Um sorriso para alguém fora do quadro.

Três homens. Uma semana.

Em horários em que Isabella, certamente estava naquela casa.

Eu senti a mandíbula travar enquanto continue folheando.

Então veio um conjunto menor de folhas. Impressões.

Eu li uma vez.

Li de novo.

E o meu queixo caiu olhando pra aquilo.

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