Milena Carlson sentou-se no degrau mais escondido do corredor da universidade, abraçando sua mochila com alças arrebentadas, presas apenas por grampos, que já estava molhada em uma grande parte por suas lágrimas.
Era ali, no bloco dos cursos de saúde, onde ela passava a maior parte dos dias tentando sobreviver ao ritmo exaustivo do curso de Medicina.
Hoje ela dormiu apenas quatro horas de novo e não comeu nada. Depois de terminar o turno no bar, correu direto para casa cuidar do pai Álvaro, que sofreu um segundo AVC. Era o único parente que tinha desde que a mãe a deixou, mesmo que ele já não a reconheça às vezes.
Mas parecia que, não importa o quanto ela se esforce, a vida não dava sinal de melhorar nem um pouco.
Agora, ela nem sabe mais se vale a pena continuar na universidade, perseguindo aquele sonho que já é um luxo para ela.
Milena estava mergulhada no próprio caos para notar o que acontecia em sua volta, que não percebeu a figura parada no final do corredor, postura firme, presença marcante, mãos nos bolsos, observando-a como se tentasse decifrar cada fragmento daquele choro. O relógio de ouro brilhava sob a luz branca, chamando atenção mesmo à distância.
Com as mãos secou às pressas o rosto e se levantou. Caminhou até o banheiro, entrando rápido e trancando-se na cabine mais afastada. Encostou a testa na porta fria e sentiu as lágrimas voltarem. Silenciosas. Cansadas.
Tirou do bolso a receita médica amassada. Uma lista de remédios essenciais e o que mais a atormentava era por serem caros demais.
Ela mal tinha dinheiro para o ônibus. Como pagaria aquilo naquele mês?
— Por que tudo tem que ser tão difícil? — ela sussurrou, com a voz rouca. Passou o dorso da mão pelo rosto, tentando se recompor.
Quando estava quase saindo da cabine, a porta do banheiro abriu. Milena reconheceu de imediato as vozes: Sara, a filha mimada do diretor, e Carina, sempre andando grudada nela. Rápida, voltou a fechar a porta e ficou em silêncio.
— Você viu que a Milena tá chegando atrasada todo dia? — Sara perguntou, com desdém. — Os professores estão perdendo a paciência.
— É uma pena. — disse Carina. — Ela é uma das melhores da sala. Mas se continuar assim, pode ser desligada.
Sara deu uma risada curta.
— Fala sério, Carina. Acha mesmo que ela já não faz isso para chamar a atenção? Essa garota parece uma mendiga. Com certeza veio estudar aqui pra ver se encontra alguém pra bancar ela.
— Não acho isso! — rebateu Carina. — Sei que ela trabalha muito no barzinho perto de casa. E também cuida do pai doente sozinha. Quem quer vida fácil não faria isso.
— Problema dela. — cortou Sara, impaciente. — Você e sua mania de ter pena de pobre. Mas tá, chega de falar dela. Tenho coisa melhor pra falar. Mas não é para contar para ninguém. Meu pai comentou que o senhor De Valliére tá procurando alguém pra ser barriga de aluguel. Isso não é ilegal?
Milena arregalou os olhos dentro da cabine.
Carina arqueou as sobrancelhas.
— É sério isso? Barriga de aluguel? Enfim, não é ilegal se for contrato. Você sabe como ele é… cheio de advogados. Precisa de um filho, mas a noiva dele está em coma já tem anos. O procedimento de inseminação artificial não tem burocracia. Será fácil para quem aceitar. E tem outra… meu pai disse que ele precisa de um herdeiro urgente, senão toda a fortuna da família vai pro pai dele. E pelo que meu pai disse, ele jamais vai permitir isso.
— Isso é interessante. — Sara disse animada.



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