Milena levantou ainda com o corpo pesado. A febre tinha reduzido, mas não desaparecido. Ela ignorou o aviso silencioso do próprio corpo, tomou um banho rápido e respirou fundo olhando a tela do celular.
A mensagem do professor estava clara. Ela tinha finalmente conseguido um trabalho de estagiária em um hospital.
Vestiu suas roupas simples, amarrou o cabelo ainda úmido e saiu com passos firmes.
O hospital universitário era grande e movimentado demais. Os corredores já estavam cheios de alunos, enfermeiros e médicos passando de um lado para o outro. Milena percebeu que estava atrasada antes mesmo de perguntar.
— Ótimo, atrasada… logo no primeiro dia.— resmungou consigo mesma.
A recepcionista apontou a sala de reuniões onde os estagiários estavam sendo apresentados. Milena respirou fundo, ajustou o jaleco, deu dois toques de leve e empurrou a porta.
Assim que entrou, parou no exato instante em que todos a olharam. Seus olhos arregalaram instantaneamente quando viu quem era o médico responsável.
Marcelo estava sentado à cabeceira da mesa. Elegante. Com aquela postura impecável, séria, intimidadora de sempre. Ele levantou o olhar devagar e encontrou o dela.
O mundo inteiro pareceu encolher até restar apenas os olhos dele. O estômago de Milena se contraiu. Ela não sabia se entrava ou se saia correndo.
— Senhorita Carlson… — foi Alan quem falou. — Chegou atrasada.
Ela abriu a boca, mas nenhuma desculpa saiu. Só o olhar preso no de Marcelo. Antes que ela conseguisse se recompor, alguém se aproximou ao seu lado.
— Você deve ser a Milena. — disse um homem jovem, sorridente, alto, cabelo castanho claro perfeitamente penteado. — Sou o professor Caio Lourenço. Trabalharei diretamente com vocês durante o estágio.
Ele estendeu a mão. Milena piscou algumas vezes tentando tirar a tensão que o olhar de Marcelo causava nela. Por reflexo, ela sorriu e apertou rapidamente a mão dele.
Caio sorriu ainda mais. Um sorriso bonito e brilhante.
— Espero que esteja melhor. Seu professor contou que não se sentiu bem ontem. — disse com delicadeza sincera.
Foi aí que o ambiente mudou. O ar ficou denso.
Milena sentiu antes mesmo de olhar. Marcelo não gostou nada daquela aproximação.
Caio sem saber o que estava acontecendo, se aproximou de Marcelo.
— Bom dia senhor De Valliére.— disse estendendo a mão com um cumprimento.
Marcelo não respondeu ao cumprimento de Caio. Não estendeu a mão. Apenas cruzou os braços sobre a mesa, o corpo inclinando-se levemente para trás numa postura quase ameaçadora, enquanto mantinha os olhos fixos em Milena.
— Senhor De Valliére? — Caio tentou chamá-lo com respeito.
Marcelo ergueu o olhar, mas não permaneceu por muito tempo, encarou a presença de Milena com fogo nos olhos.
— Interessante. — foi tudo que disse, com a voz baixa demais para ser neutra.
Milena engoliu seco, sem graça ela se sentou ao lado dos outros estagiários.
Alan deu uma tosse forçada, conhecendo o amigo. Então pegou a lista de alunos.
— Como alguns sabem, organizamos a divisão por setores. E por coincidência… — ele fingiu olhar os papéis — …Milena Carlson ficará no setor administrativo central. O mesmo que o senhor De Valliére supervisiona esta semana.
A caneta caiu da mão de Milena. O coração também.
Caio pareceu empolgado.
— Ótimo. Assim posso ajudar pessoalmente na adaptação dela...
Marcelo levou a mão na caneta, passando ela entre os dedos. Levantou uma sobrancelha e se adiantou antes dele terminar de falar.
— Não é necessário. — disse, firme. — Eu mesmo cuido da estagiária Carlson.
A sala inteira ficou em silêncio. Milena olhou para Marcelo quase sem ar. Aquilo não parecia escolha profissional. Parecia um tipo de punição que ela claramente estava detestando.
— Vamos? — Marcelo se levantou, sem esperar resposta. — Temos muito trabalho.
Milena o seguiu, ainda meio trêmula.
Caio, do outro lado da sala observou, e Marcelo percebeu o interesse nos olhos dele. Um interesse que não deveria incomodar, mas que o incomodou, e muito.
No corredor, ela tentou diminuir o nervosismo. Endireitou a postura, segurou seu material e caminhou do lado dele.

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