Marcelo percebeu que algo estava errado antes mesmo de o jatinho parar completamente. Pela pequena janela oval ele viu movimento demais no hangar: carros alinhados, luzes de câmeras e pessoas aglomeradas atrás de uma barreira improvisada.
Assim que a porta da aeronave se abriu, o barulho explodiu no ar como uma avalanche. Vozes gritavam ao mesmo tempo, flashes estouravam sem parar e os seguranças tentavam conter o avanço dos jornalistas que já se apertavam ao pé da escada.
Milena ainda estava presa ao cinto quando ouviu o primeiro grito.
— Senhor Marcelo De Valliére! O senhor pode explicar por que passou três anos procurando uma prostituta?
Aquelas palavras atingiram todos dentro do jatinho. Marcelo olhou para Milena preocupado e se levantou imediatamente e caminhou até a porta do avião, tentando bloquear a visão para dentro da cabine. Os repórteres se esticavam para enxergar mais, celulares erguidos, câmeras apontadas diretamente para ele.
— Senhor Marcelo, esses vídeos são verdadeiros?
Outro jornalista levantou o telefone na direção dele. Na tela aparecia um vídeo de dias atrás, luzes vermelhas, música alta e Milena ensaiando com outras garotas no palco da boate, seu rosto estava exposto.
O sangue sumiu do rosto dela.
— Como a senhora explica isso, Milena Carlson? — gritou uma repórter, tentando ultrapassar os seguranças. — De amante de um magnata para prostituta de boate?
As palavras atravessaram o ar como lâminas. Milena sentiu as pernas enfraquecerem enquanto o barulho de câmeras aumentava. Ela olhou para o lado. Álvaro estava parado como se o chão tivesse desaparecido diante dele, os olhos cheios de lágrimas e a culpa estampada no rosto.
Marcelo percebeu e segurou a mão dela com força, puxando-a um passo para trás, protegendo-a do campo de visão.
Mas os jornalistas já estavam famintos.
— O senhor sabia que ela havia fugido para se tornar isso... quando decidiu trazê-la de volta?
— É verdade que ela foi contratada para ser barriga de aluguel? E o contrato terminava quando sua ex noiva, a senhorita Kethelyn Bettencourt saísse do coma?
A última pergunta veio mais alta, quase gritada.
— Senhor Marcelo, o senhor tem certeza de que essas crianças são realmente suas?
Dentro do avião, Mason apareceu no corredor, curioso com o barulho. Marcelo virou-se imediatamente.
— Filho, volta para dentro, agora.
O menino recuou assustado, mas o dano já estava feito. O segredo que Milena jurou guardar em sete chaves estava sendo exposto não só para o mundo, como para o pai.
Outro jornalista ergueu um tablet.
— Temos documentos, senhor De Valliére. Um contrato assinado por Milena. Cláusulas bastante… incomuns.
Marcelo virou o rosto lentamente, o olhar ficando frio.
Marcelo virou-se imediatamente para ela. As lágrimas já escorriam pelo rosto de Milena, silenciosas, pesadas.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos, obrigando-a a olhar para ele.
— Não abaixa a cabeça.— A voz dele saiu baixa, firme, carregada de uma raiva controlada.— Você não tem nada do que se envergonhar.
Os flashes continuavam explodindo ao redor deles.
Marcelo virou-se novamente para os jornalistas. O olhar dele estava mais frio do que qualquer um ali já tinha visto.
— Se algum de vocês tiver coragem de repetir essas perguntas novamente, eu garanto que vai se arrepender. E pode ter certeza que o que fizeram hoje não ficará só em processos judiciais. Eu vou acabar com a carreira de cada um de vocês.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado. Milena sentia o coração bater tão forte que parecia ecoar dentro do próprio peito. Cada palavra que havia sido jogada contra ela ainda cortava fundo. Durante anos ela tentou enterrar cada lembrança para proteger as pessoas que amava. Mas agora não havia mais para onde fugir. Ela limpou as lágrimas com o dorso da mão, respirou fundo e deu um passo à frente, saindo da proteção de Marcelo.
— Sim. Tudo que perguntaram é verdade — respondeu, calando todos ao redor. — Quando recebi a proposta de Marcelo... meu pai estava num corredor de hospital lutando para sobreviver.
Milena olhou para o lado. Álvaro estava paralisado, os olhos cheios de lágrimas e uma dor silenciosa que parecia esmagar o peito dele.
— Eu não me envergonho de ter aceitado aquela proposta. E também não espero que vocês entendam. Sabe por que? Porque vocês não sabem o que é ir dormir três horas da manhã e acordar às cinco e meia para poder trabalhar. Pular de um trabalho para outro só com um pão seco que o dono da padaria deixava para mim, porque sabia que aquilo seria minha única refeição do dia.

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