A voz de Bruno saiu mais dura do que deveria. Glayci deu um passo para trás, o corpo reagindo antes mesmo da razão.
— Não... não podemos ir assim... — disse, a voz trêmula. — Eu queria ver o Marcelo… eu sinto falta dele... E também... Marcelo precisa de apoio com tudo que está acontecendo.
Essas palavras foram como acender um pavio.
— Você ficou maluca? — Bruno explodiu, passando a mão pelos cabelos com nervosismo. — Marcelo nunca vai me perdoar! Nunca! Se eu ficar... eu vou ser preso. É isso que você quer?
Ela o encarava, completamente perdida.
— Eu não estou entendendo…
Bruno respirava pesado, tentando controlar suas palavras. Mas então elas vieram diretas.
— Eu estava ajudando aquela mulher a sequestrar os filhos dele. E agora... Sabrina foi sequestrada. E nesse momento o único que faria isso é o Marcelo.
Glayci ficou imóvel, como se não acreditasse no que ouviu.
— Você… o quê?
— Eu me arrependi... mas Sabrina ameaçou contar para nosso pai onde estamos.
O silêncio que se instalou foi diferente de qualquer outro. Carregado de algo antigo, profundo, doloroso. Glayci se encolheu levemente, os olhos se enchendo de lágrimas enquanto tentava processar não apenas o que ele disse, mas como disse. Naquele momento Bruno estava exatamente como seu pai. E aquilo deixou-a apavorada.
Bruno percebeu na hora o que fez. Viu o medo nos olhos dela e aquilo o atingiu com uma força brutal. O arrependimento veio imediato. Ele fechou os olhos, respirando fundo, e então se aproximou com cuidado. Colocou o menino no sofá, ajeitando-o para que continuasse dormindo, e voltou sua atenção para a irmã.
— Glayci… — a voz agora era outra, mais baixa, quase quebrada. — Me desculpa. Eu não devia ter falado assim.
Ela não respondeu de imediato. As lágrimas escorriam em silêncio.
— Eu achei que você nunca ia ficar assim… — sussurrou, com a voz tremendo.— Você apunhalou a única pessoa que esteve disposto a nos ajudar naquele tempo.
Bruno sentiu o peso daquilo como um golpe direto.
— Desculpa irmã... eu me arrependo. — admitiu.
Ele a puxou para um abraço, hesitante no início, como se pedisse permissão. Quando ela não recuou, apertou-a com mais firmeza.
— Mas a gente precisa ir... — continuou, tentando manter a calma. — Por favor, confia em mim. Se a gente ficar… vai piorar. Você só tem dezenove anos, não vai conseguir lidar com os problemas da vida sozinha.
Glayci se afastou lentamente, limpando o rosto com as costas da mão. Ainda havia medo ali, mas também havia algo mais forte: instinto.
Ela assentiu.
— Tá.
Ele sorriu e se virou.
— Pega só o essencial. A gente sai em dois minutos.
Glayci assentiu e foi até a bolsa, mas os movimentos eram automáticos. A cabeça estava longe, o coração acelerado demais para pensar com clareza. Ela lançou um olhar rápido para Bruno, depois para o filho, ainda dormindo, e naquele instante tomou uma decisão.
Sem dizer nada, pegou o celular e se afastou alguns passos, virando discretamente de costas. Os dedos tremiam enquanto digitava.


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