Milena se levantou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo irreversível. O olhar foi direto para Álvaro, surpresa, quase em choque com a pergunta.
— Pelo amor de Deus pai… — murmurou, sem acreditar.
Marcelo não respondeu de imediato. A mão dele ainda estava onde o cabelo de Milena havia estado segundos antes. Parada. Inerte.
Álvaro se aproximou com a cadeira de rodas.
— Eu fiz uma pergunta.
Marcelo piscou devagar. Ele virou o rosto, primeiro para Milena. Depois para Álvaro.
— Não! — a resposta veio calma demais.
Álvaro soltou uma respiração curta, sem esconder a tensão.
— Então por que parece que você já sabia?
Milena sentiu o peito apertar. Olhou para Marcelo com preocupação.
— Para com isso, pai. — ela disse, mais firme do que se sentia. — O senhor está passando dos limites.
Álvaro não recuou.
— Eu só estou tentando entender o que está acontecendo dentro dessa casa.
Marcelo se levantou devagar. A postura mudou. Não era mais o homem leve do jardim. Havia algo mais duro ali agora, contido.
— O senhor não tem esse direito de acusá-lo sem nenhuma prova.
— Não tenho? — Álvaro rebateu, a voz subindo um pouco. — O nome dele acabou de ser ligado a um assassinato na televisão!
— Ainda não há suspeitos. — Milena cortou, rápida, tentando manter o controle da situação.
— Ainda! — repetiu Álvaro.
O olhar de Marcelo endureceu de vez.
— Eu disse que não fiz nada. Se o senhor não acredita, eu ja não posso fazer nada.
A firmeza na voz fez o ar gelar. Milena deu um passo até ele. Segurou o braço dele com cuidado.
— Fica calmo. — disse baixo, olhando nos olhos dele. — Eu sei que você não faria isso.
Marcelo desviou o olhar por um segundo, respirando fundo.
— A questão não é se eu faria… — ele sustentou o olhar. — Porque acredite, eu faria. Mas eu não fiz.
Álvaro observava os dois, o incômodo ainda estava ali, evidente, mas era por outro motivo.

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