A porta da delegacia abriu de repente. Os dois investigadores que ainda estavam do lado de fora da sala de interrogatório olharam na mesma direção ao mesmo tempo. O som dos passos era firme, controlado.
Um homem de aproximadamente quarenta anos, alto, entrou. Terno escuro impecável, postura reta, olhar afiado. Ele não pediu licença.
— Acho que isso já foi longe o suficiente.
A voz saiu baixa, mas firme o bastante para cortar o ar.
Os investigadores se entreolharam por um segundo.
— E o senhor é…? — perguntou o mais novo, com um tom que tentava manter o controle da situação.
O homem deu mais um passo à frente, abrindo um leve sorriso que não chegava aos olhos.
— Doutor Henrique Belmonte. Advogado do senhor Marcelo De Valliére.— Ele parou ao lado da mesa, apoiando a pasta com calma, como quem não tem absolutamente nada a temer. — E, a partir de agora, qualquer pergunta será feita na minha presença.
O investigador mais velho fechou a pasta devagar.
— Ele já estava colaborando.
Henrique inclinou levemente a cabeça.
— Sem representação legal? Interessante. — fez uma pausa curta. — Ou melhor… problemático.
Marcelo ergueu os olhos quando viu ele entrar. Não disse nada, mas a presença ali já dizia o suficiente.
Henrique abriu a pasta, retirando alguns documentos.
— Vamos deixar uma coisa clara. — continuou, agora olhando diretamente para os dois. — Meu cliente não é obrigado a responder absolutamente nada do que foi perguntado aqui sem a minha presença. E, considerando que isso já aconteceu, qualquer declaração obtida pode ser contestada.
O investigador mais novo cruzou os braços.
— Não estamos fazendo nada ilegal.
Henrique sorriu de lado.
— Ainda bem. Porque eu adoraria discutir isso formalmente.
Ele deslizou um papel sobre a mesa.
— Agora, se quiserem continuar, façam direito.
O mais velho respirou fundo, visivelmente incomodado.
— Isso não muda o fato de que ele é o principal suspeito.
Henrique não perdeu o ritmo.
— Onde estão as provas? Até onde sei, vocês ainda não têm nenhuma verdadeira que ligue meu cliente a cena do crime.— respondeu na mesma medida.
O olhar dele foi rápido até Marcelo, avaliando, firme.
— Meu cliente já apresentou um álibi consistente, com múltiplas testemunhas e registros verificáveis. Sugiro que comecem por aí antes de tentar construir narrativa.
O investigador mais novo deu um passo à frente.
— E você sugere o quê? Que a gente simplesmente ignore tudo?
Henrique fechou a pasta com calma.
— Eu sugiro que investiguem. — disse, direto. — Porque, no momento, parece que estão apenas tentando encaixar meu cliente em uma história que já decidiram contar.

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