A alta médica veio dois dias depois, cercada de recomendações que Marcelo já tinha decorado antes mesmo de a médica terminar de falar.
Milena, por fora, parecia mais tranquila. Por dentro, ainda sentia o eco da presença daquela mulher rondando a mente como um ruído constante. Não era medo exatamente. Era algo mais difícil de nomear. Uma inquietação que não se dissipava com descanso.
Antes de irem para a mansão, Milena insistiu em passar no quarto onde Lívia estava internada.
— Você não precisa ir se não quiser — ela disse, enquanto Marcelo a ajudava a vestir o casaco.
— Claro que eu vou com você.
O quarto de Lívia era silencioso demais para alguém que sempre ocupava espaço com a própria presença. Quando Milena entrou, encontrou a amiga sentada na cama, o braço imobilizado, alguns hematomas ainda visíveis no rosto, mas os olhos atentos.
O sorriso que Lívia abriu ao vê-la foi imediato. Acolhedor.
— Como está? Fiquei sabendo que passou mal… — disse, abrindo os braços com cuidado.
Milena riu fraco, mas os olhos marejaram. Aproximou-se devagar e a abraçou com cuidado, sentindo o aperto no peito aumentar.
— Eu fiquei com tanto medo que tivesse acontecido alguma coisa grave … — confessou. — Quando vi todo aquele sangue em você...
Lívia fechou os olhos por um segundo.
— Eu sei...— respondeu. — O importante é que você e esses pequenos estão bem.
Marcelo observava de longe, em silêncio. Sabia que aquele encontro era importante, Lívia era a única amiga de Milena, e desde que elas se conheceram, Milena estava mais alegre e menos retraída.
— Sabe o milagre que aconteceu?— perguntou Lívia, olhando para Marcelo.
— O que eu perdi?— Milena perguntou curiosa.
— O seu senhor gelo organizou tudo pra eu ficar com vocês por uns dias. — Lívia comentou, sorrindo. — Eu tentei recusar, mas ele não deu muita opção.
— Não era um convite. — Marcelo respondeu, seco. — Era uma decisão.
Lívia revirou os olhos e sorriu de canto.
— Eu percebi, chefe.
Milena olhou para ele e sorriu, logo voltou a atenção para a amiga e segurou a mão dela com cuidado.
— Que bom, eu ia pedir para ele, parece que Marcelo lê meus pensamentos. Você realmente não pode ficar sozinha.
O trajeto até a mansão foi Milena observando a cidade pela janela. Ao chegar na mansão, percebeu imediatamente que algo estava diferente.
Mais homens. Mais carros. Olhares atentos demais. Portões fechando com precisão quase militar.
— Marcelo… — ela chamou, baixinho.
Marcelo sentiu o impacto físico daquilo. O ar pareceu desaparecer. O estômago revirou, a mandíbula se contraiu com força.
Aquele anel não era apenas um objeto. Era da mãe dele. Um presente que o pai e ele deu anos antes de tudo desmoronar. Um símbolo que Sabrina jamais deveria ter tido em mãos.
— O que essa mulher quer… — murmurou, sentindo uma raiva antiga, visceral, se espalhar pelo peito.
Ela não estava apenas rondando Milena. Ela estava mexendo em feridas que Marcelo nunca deixou cicatrizar por completo.
Ele fechou o e-mail com força, levantou-se da cadeira e foi até a janela do escritório. A universidade seguia seu ritmo normal lá fora. Alunos caminhando, conversas triviais, risos soltos.
Um mundo que não fazia ideia do que estava prestes a ser colocado em risco.
Marcelo pegou o celular e ligou para Devil.
— Ela achou o quarto da Kethelyn. — disse, sem preâmbulos. — Katherine deve estar ajudando. Então se quer chegar nela, siga a Katherine.
Ele desligou sem esperar por respostas.
Na mansão, Milena olhou para o terceiro andar e sentiu um arrepio sem saber por quê. Deslizou a mão na barriga, respirou fundo, tentando afastar a sensação estranha.
— Por quê sinto que tem alguém me vigiando?— Milena murmurou.

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