Milena ficou ali, nua e imóvel, sentindo o silêncio do quarto pesar mais do que qualquer palavra. Abaixou-se devagar, recolheu as roupas do chão e as apertou contra o peito. As lágrimas caíram sem aviso, quentes, silenciosas. Em seu olhar, havia um vazio estranho, quase físico.
Sentou-se na beira da cama, os joelhos junto ao corpo, tentando recuperar um pouco da sanidade. Não era apenas desejo interrompido. Era constrangimento. Confusão. Uma sensação incômoda de estar no lugar errado.
Quando se levantou, o quarto já não parecia o mesmo. Grande demais. Frio demais.
Tomou um banho demorado. Deixou a água quente correr, como se pudesse apagar o que a pele ainda lembrava. Encostou a testa na parede do box e fechou os olhos.
— É só um contrato… — murmurou. — Só um contrato.
Mas o corpo não acompanhava aquela lógica.
Vestiu uma camisola simples, sem qualquer preocupação em parecer bonita. Evitou o espelho. Deitou-se sem apagar a luz. O sono não veio.
Do outro lado da cidade, Marcelo dirigia com as mãos firmes no volante e a mente inquieta. Não costumava sair de uma situação daquela forma. Muito menos quando algo o atingia de verdade.
A imagem de Milena, vulnerável, exposta, tentando se manter firme, insistia em voltar. Um tipo de incômodo que ele evitava há anos.
A ligação foi o empurrão que faltava. Se ficasse mais, perderia o controle. E controle era a única coisa que não podia perder.
Olhou para o relógio no pulso e praguejou mentalmente. O caminho foi mais demorado que pretendia.
Parou o carro diante da entrada do hospital e desceu sem perder tempo. Alan, amigo e diretor clínico o aguardava no saguão, expressão tensa.
— O que é tão grave que me faz vir a essa hora?— Marcelo perguntou assim que desceu.
— Um paciente entrou em choque hemorrágico. — disse, em tom baixo. — A ruptura interna não apareceu nos exames anteriores. Se não for operado agora, as chances de sobreviver são mínimas.
Marcelo caminhava rápido ao lado do amigo, o olhar atento.
— Quem é? — perguntou.
Alan respirou fundo antes de falar.
— Álvaro Carlson.— Marcelo parou por um segundo.— Pai da Milena. — completou.
Marcelo fechou os olhos brevemente. A promessa silenciosa que ele havia feito a si mesmo enquanto Milena assinava o contrato martelou em sua mente. Ele abriu os olhos e encarou o vazio.
— Onde ele está?
— Centro cirúrgico em preparação. — houve uma hesitação. — Mas o médico encarregado da cirurgia ainda não chegou.
— Eu faço a cirurgia.— disse decidido.
— Marcelo… você tem certeza?— Alan perguntou preocupado.
Ele virou o rosto devagar, o rosto sério e confiante de sempre. Mas Alan sabia que a confiança oscilava em seu olhar.
— Desde quando pergunta isso?
Alan endireitou a postura, ali não era o amigo, e sim o diretor clínico falando.
— Desde que você jurou nunca mais operar um caso como esse.
O corredor pareceu estreitar. A lembrança veio sem aviso. Uma mulher jovem demais, pálida demais. O rosto delicado, tão parecido com o da mãe, que por um segundo ele havia congelado. A hemorragia avançando rápido demais. A sensação de impotência esmagando seu peito. E em seguida a morte.
Desde então, ele havia se escondido atrás da administração, da universidade, do poder. Atendia um caso e outro. Não porque não fosse capaz. Mas porque não suportava a possibilidade de falhar de novo.
Marcelo respirou fundo.
— Quando ela assinou aquele contrato... — disse, sem encarar o amigo. — eu prometi para mim mesmo que o pai dela viveria.— Alan o observou em silêncio.— Vista-se. — Marcelo completou. — Eu assumo.
No centro cirúrgico, tudo se moveu rápido. Enfermeiros, anestesista, instrumentadores. Marcelo lavou as mãos com precisão mecânica. Colocou o avental. As luvas.
Quando finalmente encarou o paciente desacordado sobre a mesa, a realidade se impôs com força.
Álvaro era mais frágil do que ele imaginava. Magro. Pálido. A pressão instável.


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