“Algumas perguntas não pedem resposta… pedem coragem para lidar com o que elas despertam.”
O problema nunca foi o que os outros estavam vendo, foi perceber que, mesmo longe dos olhares, aquilo já não parecia mais algo que pudesse simplesmente ser desligado.
Depois do momento intenso da jacuzzi, Edward e Dayse voltaram para onde todos estavam. Clara e Adrian também tinham voltado do quarto e Adrian tentava disfarçar o rubor no rosto.
A sala estava mergulhada em uma penumbra confortável, iluminada apenas pelo brilho quente da lareira e pela luz suave dos abajures estrategicamente distribuídos, criando um ambiente que parecia acolhedor e perigoso na mesma medida, como se cada detalhe tivesse sido pensado para aproximar as pessoas sem que elas percebessem.
O som baixo da madeira queimando se misturava ao tilintar discreto das taças, enquanto conversas leves preenchiam o espaço com uma naturalidade que, para Dayse, começava a parecer cada vez mais difícil de acompanhar.
Ela percebeu tudo.
O clima.
O silêncio entre as falas.
A forma como todos estavam confortáveis.
Mas nada disso foi o que realmente fez sua respiração falhar ou o coração perder o ritmo por um instante quase imperceptível. O que a desestabilizou de verdade foi o momento exato em que Edward segurou a mão dela e a puxou para perto, como se aquele gesto não fosse uma escolha impulsiva, mas algo absolutamente natural, tão simples e automático quanto respirar.
Ela mal teve tempo de reagir antes de sentir o corpo sendo guiado para o colo dele, encaixando-se entre os braços largos, enquanto a mão dele deslizava automaticamente para sua cintura, segurando-a com uma segurança que não deixava espaço para dúvida, nem para recuo.
Por um breve instante, Dayse ficou tensa e ele percebeu, mas optou em não dizer nada. Apenas aproximou o rosto o suficiente para que a voz chegasse baixa ao ouvido dela, carregada de uma calma que parecia mais uma ordem do que um pedido.
— Fica… — murmurou, com um tom suave demais para ser ignorado.
A respiração dela falhou por um segundo, talvez dois. Mas ela permaneceu no colo dele, porque sair dali exigiria uma explicação. E, naquele momento, explicar seria muito mais perigoso do que simplesmente aceitar.
A mão dele deslizou devagar pela lateral do corpo dela, num movimento controlado e contínuo, enquanto o polegar desenhava um percurso lento e insistente sobre sua pele, mantendo um ritmo constante que parecia calculado demais para ser casual.
À primeira vista, poderia até parecer um gesto distraído, quase despretensioso, mas a forma como ele sustentava o toque deixava claro que não havia nada de inocente ali.
Dayse sentia cada movimento, cada pausa, cada intenção escondida na forma como ele a tocava.
Do outro lado da sala, Margareth observava em silêncio, com os olhos atentos e um sorriso discreto que não fazia questão de esconder o quanto estava satisfeita com o que via.
Já Clara inclinou o corpo levemente para frente, apoiando o cotovelo no braço da poltrona, enquanto o sorriso nos lábios se tornava mais evidente e provocador, como alguém que estava assistindo exatamente o tipo de cena que sempre quis ver.
E Adrian apenas observava atento.
A mão de Edward subiu lentamente da cintura até o braço de Dayse, deslizando sem pressa até alcançar seus cabelos, onde os dedos se perderam entre os fios com uma naturalidade desconcertante, como se aquele gesto tivesse sido repetido tantas vezes que já não exigisse pensamento.
E então veio a pergunta simples, direta e perigosa.
— Então… já decidiram a data? — a voz de Augustus Fitzgerald quebrou o ritmo da conversa com uma leveza calculada, mas o olhar atento deixava claro que aquilo não era apenas curiosidade.
O silêncio caiu sobre a sala de forma imediata e Dayse sentiu o corpo inteiro travar. Sua respiração ficou presa no meio do caminho, enquanto o coração disparava de forma completamente descompassada, batendo forte demais para aquele tipo de situação.
Os olhos dela não se moveram, mas ela sabia que todos estavam olhando para os dois, esperando pela resposta.
Clara praticamente se inclinou para frente no mesmo instante, com os olhos brilhando com um entusiasmo quase infantil, mas carregado daquela malícia natural que ela nunca fazia questão de esconder, enquanto apoiava a taça na mesa sem nem perceber o gesto apressado.
— Mas é claro que sou eu! — respondeu, sem disfarçar a animação, levando a mão ao peito como se tivesse acabado de receber uma missão oficial — Senhora Fitzgerald, a senhora não faz ideia do quanto eu estava esperando por isso… organizar o casamento da minha melhor amiga com o homem dos seus sonhos.
Ela lançou um olhar rápido para Dayse, enquanto o sorriso se alargava de forma perigosamente provocadora.
— Inclusive, já tenho várias ideias… algumas bem ousadas, diga-se de passagem.
Dayse sentiu o calor subir pelo pescoço quase instantaneamente, espalhando-se pelo rosto de forma incontrolável, enquanto o coração batia mais rápido do que gostaria de admitir, como se cada palavra dita ali estivesse empurrando aquela situação para um lugar ainda mais real e muito mais perigoso.
— Clara… — murmurou, num tom baixo, tentando conter a amiga, mas sem conseguir esconder o constrangimento evidente que agora tomava conta dela por completo.
Clara apenas ergueu uma sobrancelha, divertida, claramente ignorando qualquer tentativa de freio.
— O quê? — respondeu, inocente demais para ser verdade — Eu levo essas coisas muito a sério. Ainda mais quando envolve você.
— Pois minha querida, confio em você! — completou Margareth sorrindo.
E foi naquele instante, no meio de risos leves, planos sendo feitos e expectativas que não deveriam existir, que Dayse percebeu algo que fez o estômago revirar de forma silenciosa, mas impossível de ignorar.
Que o problema já não era mais sustentar a mentira diante dos outros, era que, a cada toque, a cada olhar, a cada gesto dele que parecia simples demais para ser fingimento, ela já não sabia mais onde exatamente aquela encenação terminava e onde começava aquilo que ela, perigosamente, estava começando a sentir de verdade.
E talvez o mais assustador de tudo, não fosse o fato de estar se envolvendo. Mas o quanto uma parte dela, cada vez mais difícil de silenciar, já não queria mais sair dali.

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