"Algumas palavras não machucam pelo que dizem, mas pelo que deixam impossível de ignorar."
A noite já tinha avançado quando todos se acomodaram novamente na área externa da casa, com as luzes mais suaves refletindo na água da piscina e o ar mais fresco trazendo uma sensação de conforto que, à primeira vista, fazia tudo parecer leve, quase simples demais para o que realmente estava acontecendo entre eles.
As garrafas de vinho circulavam com facilidade, os copos eram preenchidos sem esforço, e as conversas seguiam soltas, misturando risadas, provocações e olhares que carregavam mais significado do que qualquer palavra dita em voz alta.
Os casais estavam próximos.
Beatrice e Lucca foram os primeiros a se recolher.
Clara permanecia ao lado de Adrian, inclinada na direção dele, falando baixo, mas com um sorriso constante que deixava claro que ela estava confortável demais com aquela proximidade para fingir o contrário.
E Dayse…
Dayse estava nos braços de Edward.
O corpo dela encaixado no dele de forma natural demais para algo que, racionalmente, ainda deveria ser apenas um acordo, enquanto a mão dele permanecia firme na cintura dela, como se aquele gesto não fosse algo novo, mas algo que já fazia parte de uma rotina que ainda nem existia.
E, por alguns minutos, ela não pensou em nada, apenas ficou ali, com ele.
Os avós foram os primeiros a se retirar, com Margareth se despedindo e Augustus acompanhando, deixando para trás um ambiente que, sem a presença deles, se tornava automaticamente mais solto e muito mais perigoso.
O silêncio que ficou não era desconfortável, mas também não era inocente.
E foi exatamente nesse intervalo em que ninguém interrompia e ninguém desviava, que Edward inclinou levemente o rosto na direção dela, mantendo a proximidade e disse com a mesma calma que usava para tudo:
— Você está indo muito bem, senhorita Whitmore.
O sorriso de Dayse desapareceu no mesmo instante, como se alguém tivesse desligado algo dentro dela de forma brusca.
Os olhos perderam o brilho que tinham segundos antes, enquanto o corpo, que estava relaxado contra o dele, se ajustava de forma quase imperceptível, mas suficiente para criar uma distância que não existia antes.
A mão dela deixou de repousar sobre o peito dele, os dedos se afastaram e a sua postura, aos poucos, mudou.
Ela respirou fundo, segurando o ar por um segundo mais longo do que o necessário, organizando a própria reação antes de permitir que qualquer coisa saísse do controle.
E, quando falou, a voz estava firme, controlada e fria na medida certa.
— Então… — começou, sem olhar diretamente para ele — já que a encenação acabou, e que não precisa mais de mim, senhor Fitzgerald, eu vou me recolher.
Clara não ouviu o que Edward havia dito, nem o que Dayse havia dito, mas percebeu a mudança no semblante da amiga.
Adrian também percebeu.
Dayse se levantou com calma, ajustando a roupa de forma automática, mantendo a postura intacta, evitando qualquer movimento que pudesse denunciar o quanto aquilo tinha atingido mais do que deveria.
Mas, antes de sair, ela olhou para ele por um segundo apenas. E naquele olhar não havia confusão, havia compreensão.
Ela tinha se permitido ir longe demais. E ele tinha acabado de colocar tudo de volta no lugar.
Clara se levantou logo em seguida, sem dizer nada, acompanhando o movimento com uma naturalidade que não chamava atenção, mas que deixava claro que ela não ia deixar Dayse sozinha naquele momento.
Dayse entrou na casa mantendo o mesmo ritmo, a mesma postura, subindo as escadas sem pressa, tentando sustentar o controle da situação.
Mas não estava.


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