"Algumas verdades não ferem pelo que são… mas pelo momento em que finalmente fazem sentido."
Dayse Whitmore
Eu subi para o quarto tentando manter a mesma postura que ele teve lá embaixo, fingindo que nada tinha importância. O problema era que, diferente dele, eu não conseguia fingir.
A água quente escorria pelo meu corpo enquanto eu mantinha a testa encostada no azulejo, respirando de forma irregular, tentando recuperar o controle que tinha perdido desde o momento em que saí lá de baixo, porque, por mais que eu quisesse tratar aquilo como algo simples, como apenas mais uma situação dentro de um acordo, o que tinha acontecido entre nós não cabia mais nessa explicação.
Eu sabia exatamente o que tinha me incomodado.
Não foi só o que ele disse.
Foi a mudança, o contraste.
Foi o jeito como ele me puxou para perto antes, com uma naturalidade que fazia parecer real. Para depois, agir de maneira fria e direta, como se precisasse apagar o que tinha acabado de acontecer.
Apertei os olhos com mais força e respirei fundo enquanto a água continuava caindo, tentando colocar os pensamentos no lugar sem precisar admitir em voz alta o que já estava claro.
Ele quis controlar a situação. E fez isso me afastando.
Desliguei o chuveiro com um movimento mais firme do que o necessário e fiquei parada por um segundo, com a água ainda escorrendo pela pele, sentindo o corpo pesado, não de cansaço, mas de tensão acumulada, antes de sair do box e me envolver na toalha.
Os fios molhados do meu cabelo grudaram na minha nuca e nos ombros enquanto eu caminhava até a mala, abrindo sem pensar muito e pegando a primeira camisola que encontrei, leve demais para o que eu estava sentindo, clara demais para alguém que, naquele momento, só queria se proteger.
Vesti sem olhar no espelho, porque eu não precisava ver meu rosto para saber como eu estava.
Eu já sabia.
Caminhei até a cama e me sentei na beirada, passando a mão pelos cabelos úmidos, puxando o ar com mais força antes de soltar devagar, tentando manter a respiração estável enquanto o pensamento que eu estava evitando desde lá embaixo finalmente se formava com clareza.
Homens como Edward Fitzgerald não se apaixonam.
A frase não veio carregada de dúvida. Veio como uma constatação.
Mantive os olhos fechados, mas a minha atenção estava completamente voltada para ele, acompanhando cada pequeno sinal, cada mudança no ar, cada segundo de silêncio que se prolongava mais do que deveria.
Eu sabia que ele estava me observando. E por um instante desejei que ele se aproximasse, me puxasse para os seus braços e admitisse que também estava confuso, que também tinha medo. Mas isso não aconteceu e ele apenas confirmou o que ele já havia deixado claro lá embaixo.
Tudo fazia parte da simulação.
Engoli seco, controlando o impulso de reagir. Eu queria confrontá-lo, chamar ele de covarde, de idiota, de tudo o que me viesse à cabeça, mas no fundo, eu é que estava errada. Porque havia sido eu que tinha quebrado as regras do contrato, não ele.
Depois de alguns segundos, ouvi o som do tecido quando ele se mexeu, e o colchão afundou ao meu lado quando ele se deitou. Ele ajustou o corpo com a calma de sempre, como se fosse apenas mais uma noite e nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu. E eu sabia disso.
Se ele queria agir como se não sentisse nada, eu também sabia fazer o mesmo.
E, dessa vez, eu não ia me envolver sozinha.

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