“Algumas despedidas parecem normais… até você perceber o que está sendo evitado.”
O clima ainda estava estranho quando todos se levantaram da mesa, mas ninguém comentou diretamente, como se ignorar fosse a forma mais fácil de manter tudo no lugar.
Margareth foi a primeira a se aproximar.
— Já vão embora?
O tom era leve, mas o olhar não.
Dayse assentiu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.
— Edward precisa resolver algumas coisas.
Margareth abriu um sorriso suave e a puxou para um abraço. A mão dela subiu pelas costas de Dayse com firmeza, mantendo-a ali por um instante a mais do que o normal.
— Voltem logo — murmurou, baixo, perto do ouvido dela.
Dayse apenas concordou, mas, quando começou a se afastar, Margareth segurou seu rosto com delicadeza, obrigando-a a sustentar o olhar.
— Eu não sei o que aconteceu entre vocês dois… — disse, em tom calmo, mas seguro — mas sei que tudo vai se resolver.
Dayse ficou em silêncio.
— Tenha paciência com o meu neto — continuou Margareth — ele é impulsivo, cabeça dura, arrogante… mas nunca se apaixonou antes.
A palavra ficou no ar.
Apaixonado.
Dayse sentiu o corpo reagir antes mesmo de conseguir pensar com clareza.
Edward… apaixonado? Ela queria acreditar, queria mesmo, mas a lembrança da noite anterior veio na mesma hora, direta e fria, cortando qualquer possibilidade.
Tudo não passava de um acordo. Um contrato assinado com data de validade, nada além disso.
Ela forçou um sorriso.
— Vai ficar tudo bem — respondeu, mesmo sem acreditar completamente.
Margareth acariciou o rosto dela com suavidade, como se enxergasse muito mais do que estava sendo dito.
— Nos vemos em breve — completou — vou te ligar para marcarmos um almoço. Pode ser?
— Sim… claro.
A resposta saiu automática.
Margareth assentiu, satisfeita, Dayse apenas concordou, sentindo o peito apertar sem saber exatamente por quê.
Beatrice apareceu logo em seguida, animada demais para alguém que claramente não tinha percebido o que estava acontecendo.
— Ah, não acredito que vocês já vão! — disse, segurando o braço de Dayse — a gente ainda tinha que aproveitar a piscina.
Dayse sorriu, automático.
— Fica para a próxima.
— Vai ter próxima, né? — Beatrice insistiu, empolgada.
Dayse hesitou por um segundo curto demais para qualquer um ali perceber.
— Vai.
Mentiu sem esforço.
Do outro lado, Adrian observava tudo em silêncio.
O olhar dele alternava entre Edward e Dayse, atento demais, analisando cada detalhe, cada pausa, cada reação contida. Ele conhecia o amigo o suficiente para saber que aquilo não era normal.
Edward estava quieto.
Quieto demais.
E isso nunca era um bom sinal.
Adrian esperou o momento certo, observando Edward por alguns segundos antes de se aproximar, o corpo ainda relaxado por fora, mas o olhar atento demais para alguém que conhecia cada mudança de comportamento do amigo.
— Aconteceu alguma coisa?
Edward não respondeu na hora.
Ele apenas tirou o celular do bolso, olhou rapidamente para a tela como se estivesse checando algo importante e, em seguida, guardou o aparelho de volta na bermuda com um movimento controlado, quase mecânico.
— Liliana terminou de rever os contratos com a filial de Cingapura, vou me encontrar mais tarde com ela. — disse, direto, como se aquela fosse a única coisa relevante ali — talvez eu precise viajar até lá para formalizar tudo.
Adrian não desviou o olhar.
Dayse tentou se recompor, cruzando os braços, sustentando a postura.
— Não estou.
Clara soltou um suspiro curto pelo nariz, impaciente.
— Está sim… e não é de raiva. Você está assim desde que ouviu ele falando com a despeitada no telefone.
— Você está delirando.
Clara inclinou levemente a cabeça, suavizando o tom, mas não a intensidade.
— Dayse… eu te conheço. Você está com ciúmes e se está com ciúmes é porque já está envolvida demais.
Dayse não respondeu, mas também não negou.
— Ele está irritado, Dayse… — disse, mais baixo — irritado de um jeito que não tem nada a ver com trabalho. E você sabe disso.
Dayse respirou fundo e Clara cruzou os braços agora, espelhando a postura dela, mas o olhar permaneceu firme.
— E quer saber? Eu nem estou preocupada com ele agora. Estou preocupada com você.
Dayse fechou os olhos por um segundo rápido demais. Quando abriu, o controle já estava de volta, ou pelo menos… parecia.
— Não precisa.
Clara ergueu uma sobrancelha.
— Não?
— Não.
Clara soltou um suspiro leve, inclinando o rosto apenas para olhar nos olhos de Dayse.
— Você pode até repetir que é um contrato, que é um acordo, que não significa nada… — o olhar dela analisou cada microexpressão — mas o jeito que você está reagindo… e o jeito que ele está tentando se controlar…
Dayse ficou em silêncio.
Clara inclinou levemente a cabeça, mais suave, mas ainda direta.
— Só me diz uma coisa… se ainda é só um jogo… por que vocês dois estão agindo assim?
Dayse não respondeu a pergunta de Clara, mas a pergunta que ficou de fato na sua mente foi se isso ainda era só um jogo, porque era tão difícil fingir que não importava?

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