“O pior tipo de mentira é aquela que começa a revelar sentimentos reais.”
Toda mentira parece controlável… até alguém começar a fazer as perguntas certas.
Marina percebeu imediatamente a hesitação dela e desviou o olhar para o teto, claramente tentando não piorar a situação.
Daniel parou no meio da sala lentamente. Desviou o rosto novamente para a irmã, estreitando os olhos.
— Dayse…
Ela cruzou os braços na frente do corpo quase por instinto, uma reação defensiva tão automática que só piorou tudo.
— É… recente.
— RECENTE? — ele repetiu incrédulo, apontando para o anel. — Isso aí não é “recente”, isso aí é “vou casar”, que normalmente acontece depois de meses… talvez anos… de um relacionamento saudável entre duas pessoas mentalmente estáveis! Você passou dois anos com aquele idiota do Peter e nem sequer cogitou a possibilidade de casar com ele.
Marina mordeu o lábio com força.
Dayse fechou os olhos por um segundo.
— Daniel…
— Não, peraí, deixa eu entender a linha do tempo dessa tragédia emocional. — Ele voltou a gesticular exageradamente. — A última vez que falei com você, ainda estava solteira. Aí resolvo visitar a minha irmã, e descubro que ela está noiva do homem mais assustador que eu já vi numa capa de revista de negócios.
— Ele não é assustador…
A resposta saiu rápido e natural demais.
Os três perceberam.
Inclusive ela.
Daniel ficou em silêncio por um segundo inteiro antes de apontar lentamente para a irmã.
— Ah, meu Deus.
Dayse sentiu o estômago apertar imediatamente.
Conhecia aquela expressão. Conhecia aquele tom.
— O quê?
Daniel arregalou os olhos de repente, como se uma peça gigantesca tivesse finalmente se encaixado na cabeça dele.
— DAYSE…
Ela já sabia. Sabia exatamente o que vinha antes mesmo dele abrir a boca.
— Você está grávida?!
— O QUÊ?! — ela praticamente gritou, levantando do sofá tão rápido que a manta caiu no chão.
Marina começou a rir imediatamente.
Não uma risada discreta. Uma gargalhada verdadeira, alta, descontrolada, daquelas que fazem o corpo dobrar sozinho.
Daniel apontava para Dayse como um investigador que finalmente resolveu o caso.
— AGORA TUDO FAZ SENTIDO!
— NÃO FAZ SENTIDO NENHUM!
— Faz sim! — rebateu ele imediatamente. — Casamento rápido, bilionário arrogante, final de semana romântico, você emocionalmente destruída… isso tem energia total de gravidez inesperada!
— Daniel, eu NÃO estou grávida!
Ele estreitou os olhos imediatamente.
— Tem certeza?
— Meu Deus do céu, Daniel!
Marina já estava quase chorando de tanto rir no sofá enquanto observava Dayse passar as duas mãos pelo rosto completamente horrorizada.
— Você surtou de vez — murmurou ela.
— Eu só estou tentando entender por que minha irmã aparentemente pulou uns quinze capítulos da própria vida sem me avisar!
Dayse abriu a boca para responder, mas parou.
Porque, honestamente? Ela também não sabia explicar. Não sabia explicar como tudo saiu do controle tão rápido.
Como Edward Fitzgerald tinha deixado de ser apenas o chefe arrogante e insuportável para se tornar alguém capaz de destruir completamente o equilíbrio emocional dela apenas ficando em silêncio dentro de um carro.
Daniel observava a irmã atentamente agora, e a brincadeira começou a desaparecer aos poucos da expressão dele quando percebeu a mudança no olhar dela.
Porque Dayse não parecia confusa. Parecia afetada, muito afetada.
Ele soltou o ar devagar antes de perguntar, dessa vez mais sério:
— Você esta gostando dele?
O silêncio permaneceu na sala por alguns segundos depois da pergunta de Daniel, pesado o suficiente para fazer Dayse desviar o olhar imediatamente, porque responder aquilo em voz alta tornava tudo real demais, e porque pela primeira vez ela não sabia como responder aquilo.
Marina percebeu a tensão crescer e se ajeitou devagar no sofá, observando os dois em silêncio enquanto Daniel mantinha os braços cruzados e os olhos fixos na irmã, claramente decidido a arrancar respostas completas daquela história.
— Dayse preciso que me explique o que porra ta acontecendo.
Dayse soltou o ar lentamente. Então passou a mão pelos cabelos antes de finalmente ceder.
— Tá… eu vou explicar.
Daniel se sentou outra vez, mas agora a postura estava diferente, menos brincalhona, mais séria, enquanto Marina permanecia quieta ao lado dela, como quem já sabia que aquilo deixaria de ser engraçado muito rápido.
Dayse contou tudo.
— Não diga bobagens, você anda assistindo muito dorama.
Daniel a encarou em silêncio por alguns segundos. Então se aproximou de Dayse parando na frente dela e olhando em seus olhos disse:
— Eu quero conhecer ele.
Dayse piscou, surpresa.
— O quê?
— Edward Fitzgerald.
— Daniel, não começa.
— Eu não vou embora sem olhar na cara desse cara.
Ela soltou uma risada nervosa.
— Você está surtando.
— Não, eu tô sendo irmão! — rebateu irritado. — Você acabou de me contar que entrou num noivado falso com um bilionário arrogante que praticamente te obrigou a aceitar toda essa farsa para resolver um problema que é dele e como você queria que eu reagisse?!
— É um noivado de mentira.
— E daí? — ele rebateu imediatamente. — Quem ele pensa que é? Acha que dinheiro compra tudo nesse mundo?
Dayse abriu a boca e fechou.
Porque a pior parte era que, em muitos momentos, realmente parecia comprar.
Ela soltou o ar lentamente antes de responder em voz baixa:
— Aparentemente… pode.
Daniel respirou fundo antes de começar a andar pela sala outra vez, claramente tentando controlar a própria irritação, antes de voltar a encará-la.
— Uma porra que pode.
O maxilar dele travou.
— Ele não vai brincar com os sentimentos da minha irmã, não.
A frase atingiu Dayse com força demais.
Porque Daniel estava bravo.
Muito bravo.
Mas o pior era perceber que ele estava defendendo algo que ela própria ainda tentava fingir que não existia.
Os próprios sentimentos.

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