“Algumas mudanças começam no instante em que um homem percebe que já não consegue agir como antes.”
O problema nunca foi Singapura, os investidores ou a viagem. O problema era perceber que a única coisa que realmente ocupava a mente dele continuava em Nova York.
Edward Fitzgerald sempre soube exatamente como funcionavam viagens como aquela.
Singapura era rápida, luxuosa e eficiente, exatamente o tipo de cidade que combinava com homens acostumados a transformar dinheiro em poder e reuniões em acordos milionários, e normalmente ele funcionava perfeitamente naquele ambiente, porque fazia parte do tipo de homem que sabia controlar cada detalhe ao redor sem demonstrar esforço, mantendo a postura impecável, a mente organizada e a atenção completamente focada no que realmente importava.
Mas naquela noite alguma coisa estava errada.
E o mais irritante era que ele sabia exatamente o motivo.
A sala de reuniões do hotel ocupava um dos últimos andares do prédio, cercada por paredes inteiras de vidro que exibiam Singapura iluminada lá embaixo enquanto executivos, investidores e empresários discutiam números, contratos e projeções financeiras ao redor da mesa principal.
Edward mal percebia qualquer coisa além do som constante das próprias notificações silenciosas vibrando dentro do bolso do paletó.
Porque, mesmo sem pegar o celular uma única vez durante a reunião inteira, existia uma parte irritantemente distraída da mente dele esperando uma mensagem específica.
Uma mensagem dela.
Edward apertou discretamente o maxilar enquanto um dos investidores asiáticos continuava explicando detalhes da expansão internacional, mantendo a expressão calma e controlada apesar da irritação crescente consigo mesmo, porque aquilo era ridículo.
Completamente ridículo.
Ele estava sentado diante de uma negociação que movimentaria milhões de dólares. Tinha investidores esperando respostas. Executivos observando cada palavra dele. E, ainda assim, parte da atenção continuava presa em Nova York.
Ou, mais especificamente, em uma mulher irritantemente teimosa que provavelmente ainda estava furiosa com ele.
A lembrança da última conversa nos Hamptons voltou imediatamente à cabeça dele.
O olhar magoado da Dayse. A maneira como ela ficou em silêncio depois das palavras frias que ele escolheu usar. Depois a forma com que ela conduziu o sexo, fugindo de seus beijos, evitando o seu olhar e como tudo aquilo o deixou puto.
Mas o pior de tudo, era o fato que desde que chegou naquele país, ele não tinha conseguido parar de pensar nela nem por algumas horas.
Edward respirou fundo devagar antes de apoiar os cotovelos sobre a mesa de reuniões enquanto observava os documentos à sua frente sem realmente enxergar nenhuma linha escrita ali.
— Senhor Fitzgerald?
A voz de um dos investidores fez Edward erguer os olhos imediatamente.
A expressão dele permaneceu impecavelmente neutra, controlada como sempre.
— Desculpe — respondeu calmamente. — Pode repetir a última parte?
O homem repetiu a informação enquanto Edward assentiu lentamente, voltando ao assunto da reunião com a mesma precisão calculada de sempre, porque homens como ele aprendiam cedo demais a funcionar perfeitamente mesmo quando alguma coisa estava errada internamente.
E Edward Fitzgerald sempre funcionava.
Esse era exatamente o problema.
A reunião terminou quase duas horas depois.
Os investidores continuaram falando sobre restaurantes, cassinos e eventos privados pela cidade enquanto atravessavam o lobby luxuoso do hotel, mas Edward recusou os convites automaticamente, dizendo que precisava revisar alguns contratos antes do encontro do dia seguinte.
Mentira.
Ele só precisava ficar sozinho por alguns minutos.
Afrouxou a gravata assim que entrou no elevador privativo, apoiando a cabeça por alguns segundos contra a parede espelhada enquanto soltava o ar lentamente.
Exaustão física nunca foi um problema para ele. Mas aquilo não era apenas cansaço, era inquietação.
E Edward odiava qualquer sensação que não conseguisse controlar imediatamente.
O celular permaneceu silencioso dentro do bolso do paletó.
Nenhuma ligação.
Nenhuma mensagem.
Nada.
Os músculos da mandíbula endureceram outra vez. Porque Dayse também não tinha ligado. E ele não fazia ideia do motivo pelo qual aquilo o incomodava tanto.
Talvez porque, pela primeira vez em muitos anos, existisse alguém capaz de atravessar as barreiras que ele sempre manteve intactas sem sequer perceber que estava fazendo aquilo. Ou talvez porque a pior parte da distância fosse perceber o espaço que alguém ocupava apenas quando deixava de estar perto.

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