“Alguns homens não sabem confessar amor com palavras… então começam lentamente a confessar através do cuidado.”
O bar escolhido por Adrian ficava a poucos quarteirões da cobertura, escondido entre prédios luxuosos de Manhattan e frequentado por empresários influentes, advogados renomados e homens ricos demais para precisarem impressionar alguém com demonstrações de poder, mas naquela noite Edward Fitzgerald mal registrou qualquer detalhe do ambiente ao seu redor, porque as luzes baixas, a música suave e o murmúrio elegante das conversas simplesmente não conseguiam competir com os pensamentos que ocupavam sua mente.
Tudo o que ele conseguia enxergar era Dayse.
Os dois caminharam até uma mesa reservada no canto mais afastado do salão, longe da movimentação principal, e se acomodaram em silêncio enquanto um garçom servia dois copos de whisky antes de desaparecer discretamente.
Adrian não demonstrou qualquer pressa para iniciar a conversa.
Conhecia Edward havia anos.
Conhecia seu orgulho, suas defesas. Mas, acima de tudo, conhecia a dificuldade quase absurda que o amigo tinha em admitir aquilo que sentia.
Homens como Edward não falavam sobre emoções.
Eles as enterravam.
Transformavam sentimentos em trabalho, inseguranças em controle e medo em arrogância.
Por isso Adrian apenas esperou.
Edward permaneceu observando o whisky durante alguns segundos, girando lentamente o copo entre os dedos enquanto o líquido âmbar refletia a iluminação suave do bar.
Parecia exausto. mas não fisicamente.
Adrian já o tinha visto depois de reuniões que duravam dias inteiros. Já o tinha visto atravessar crises empresariais milionárias sem demonstrar qualquer desgaste.
Mas aquilo era diferente.
Era um cansaço que vinha de dentro. Um desgaste emocional que Edward não sabia administrar.
O silêncio entre os dois se prolongou até que Edward soltou uma respiração lenta e pesada antes de finalmente falar.
— Sabe quantos anos eu não visitava aquele lugar?
Adrian ergueu os olhos imediatamente. Não precisou perguntar porque ele sabia exatamente de qual lugar Edward estava falando.
O túmulo da mãe.
Edward levou o copo aos lábios e tomou um gole demorado, mantendo os olhos presos no líquido por alguns segundos antes de continuar.
— Eu fiquei parado diante dela tentando conversar.
A voz saiu baixa, rouca, estranhamente vulnerável.
— Tentando explicar o que estava acontecendo comigo.
Os dedos apertaram discretamente o copo.
— Como se ela ainda pudesse me ouvir.
Um sorriso sem qualquer traço de felicidade surgiu em seus lábios. Daqueles sorrisos cansados que existem apenas para esconder algo pior.
— E sabe qual foi a pior parte?
Adrian permaneceu em silêncio.
Edward ergueu os olhos encarando o amigo pela primeira vez e naquele instante, Adrian percebeu algo que nunca tinha visto nele antes...
Insegurança.
— Pela primeira vez na minha vida eu não consegui mentir.
Aquilo o surpreendeu. Porque Edward Fitzgerald era especialista em mentir para si mesmo.
Transformava dor em sarcasmo. Solidão em produtividade. Carência em distância.
Era um talento que havia aperfeiçoado durante anos.
Mas não daquela vez.
Edward passou lentamente o polegar pela borda do copo enquanto desviava o olhar por um instante.
— Eu queria dizer alguma coisa verdadeira.
A mandíbula dele se contraiu.
— Qualquer coisa.
Os músculos do rosto endureceram.
— Mas fiquei lá parado como um completo idiota.
A frustração atravessou cada palavra.
— Eu tinha mil pensamentos na cabeça. Mil lembranças. Mil coisas que precisava dizer. Mil coisas que deveria ter dito há meses.
Ele soltou uma risada curta e amarga.
— E não consegui colocar pra fora nem metade.
O silêncio voltou a se instalar, mas agora era um silêncio mais íntimo e pesado.
Adrian observou o amigo durante alguns segundos antes de finalmente responder:
— Você ficou com medo.
Edward soltou uma risada baixa pelo nariz e desviou os olhos imediatamente, como se aquela resposta o incomodasse mais do que gostaria de admitir.
Porque fazia sentido.
Sentido demais.
— Eu negocio bilhões sem hesitar. Entro em reuniões onde qualquer erro custa milhões. Enfrento conselhos administrativos. Derrubo concorrentes. Resolvo crises internacionais.
A voz endureceu gradualmente enquanto falava.
— Pessoas entram em uma sala comigo já esperando perder.
Ele balançou a cabeça lentamente incrédulo consigo mesmo, quase irritado.
— Mas basta Dayse olhar para mim daquele jeito...
A frase morreu no meio do caminho enquanto ele fechava os olhos por um segundo e apertava o copo com a mão.
Adrian não precisou ouvir o restante porque entendeu exatamente o que aquilo significava.
Pela primeira vez Edward não estava escondendo nada.
Não estava negando, nem estava fugindo.
Estava apenas cansado.
Cansado de fingir.
Edward passou a mão pela mandíbula enquanto encarava o vazio.
— Ela estava magoada. — Os olhos escureceram imediatamente. — E tinha motivos para estar.
Uma sombra de culpa atravessou seu rosto.
— Eu vi a dor dela.
Sua garganta se moveu discretamente.
— Vi a decepção.
Fechou os olhos por um instante, como se a lembrança ainda machucasse.
— E mesmo assim...
A voz falhou levemente.

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