"Às vezes a vida muda completamente sem fazer barulho. Ela apenas começa a deixar pequenos sinais pelo caminho."
O verdadeiro problema das noites inesquecíveis nunca foi a quantidade de álcool envolvida.
O verdadeiro problema sempre começava na manhã seguinte, quando existiam testemunhas suficientes para relembrar cada detalhe constrangedor que você preferia apagar da própria memória.
Dayse descobriu isso no instante em que entrou no restaurante principal do resort ao lado de Edward e percebeu que praticamente todos os amigos estavam sorrindo de um jeito suspeito demais para o seu gosto.
O enorme salão aberto estava iluminado pela luz dourada da manhã que refletia sobre o mar cristalino das Maldivas, os funcionários circulavam silenciosamente entre as mesas e o cheiro agradável de café recém-passado se espalhava pelo ambiente, mas bastou ela observar Clara mordendo o lábio para não rir e Marina desviando os olhos para entender que alguma coisa estava errada.
Muito errada.
— Não.
Ela parou ao lado da mesa.
— Eu conheço essa expressão.
Clara imediatamente começou a rir.
— Que expressão?
— Essa expressão de quem está prestes a acabar com a minha dignidade.
— Então você também percebeu?
Marina respondeu antes que Clara pudesse falar.
A gargalhada explodiu imediatamente.
— Eu odeio vocês.
— Ainda nem começamos.
Dayse fechou os olhos por um segundo.
— Meu Deus...
Edward puxou a cadeira ao seu lado para que ela se sentasse, e o simples gesto fez Adrian erguer discretamente uma sobrancelha.
Porque Edward nunca tinha sido um homem naturalmente cuidadoso com ninguém.
Mas com Dayse era diferente, sempre era.
Ela se acomodou ao lado dele e imediatamente sentiu a mão masculina repousar em suas costas num gesto tão automático que parecia ter acontecido milhares de vezes antes.
Foi Marina quem decidiu começar.
— Eu ainda não acredito no que você fez ontem.
Dayse congelou.
— O quê exatamente?
— Você vai precisar ser mais específica.
Clara respondeu.
— Porque foram muitas coisas.
— Clara!
— Estou tentando ajudar.
— Você não está ajudando!
— Estou sim.
— Não está!
Marina ignorou as duas.
— Você anunciou para metade da piscina que queria arrastar Edward para o quarto.
O silêncio durou exatamente dois segundos.
— Eu o quê?
— Anunciou.
— Não anunciei.
— Anunciou sim.
— Marina!
— Tenho testemunhas.
Daniel fechou os olhos imediatamente. Como alguém revivendo um trauma.
— Não.
— Sim.
— Por favor, não.
— Daniel...
— Eu não quero conversar sobre isso.
A mesa inteira começou a rir.
— Eu ainda estou tentando apagar certas frases da memória.
— Daniel!
— Eu ouvi coisas que nenhum irmão deveria ouvir durante toda a existência.
— DANIEL!
— Nenhum irmão.
Clara praticamente bateu na mesa de tanto rir.
— Coitado!
— Eu sou uma vítima.
— Drama.
— Não é drama.
Daniel apontou para a irmã.
— Eu tenho cicatrizes emocionais agora.
As gargalhadas aumentaram e Dayse levou as duas mãos ao rosto completamente vermelha.
— Eu vou embora.
— Você não vai.
Edward respondeu imediatamente.
— Vou sim.
— Não vai.
— Vou.
— Não vai.
O sorriso dele aumentou.
— Porque eu estou me divertindo.
— Você é horrível.
— Eu sei.
— Edward!
— O quê?
Ela estreitou os olhos.
Ele apenas sorriu. Aquele sorriso bonito, calmo e perigosamente satisfeito.
Marina aproveitou para continuar.
— O pior nem foi isso.
— Teve pior?
— Muito pior.
Ela apontou para Edward.
— Você praticamente declarou guerra para qualquer mulher que olhasse para ele.
Dayse arregalou os olhos.
— Eu fiz isso?
Ela tentou pegar outro pedaço de fruta. Mas bastou aproximá-lo da boca para fazer uma pequena careta, sentindo o estômago revirar imediatamente.
— Só não estou com muita fome.
Edward franziu a testa.
Ela respirou fundo.
— Estou meio enjoada.
Daniel soltou uma risada.
— Isso acontece quando uma pessoa decide consumir álcool suficiente para derrubar um país inteiro.
As gargalhadas voltaram imediatamente.
— Exagerado. — retrucou fazendo um bico fofo e colocando a cabeça no ombro de Edward que logo a envolveu num abraço carinhoso.
— Eu estou sendo generoso. — respondeu Daniel ainda sorrindo.
— Mentiroso.
— Você estava bêbada.
— Um pouco.
— Dayse, você tentou discutir filosofia com uma palmeira.
Clara explodiu numa nova crise de risos.
— EU NÃO ACREDITO, COMO EU NÃO ME LEMBRO DISSO?
— Porque você estava pior ou igual a ela, oh pantera. — respondeu Daniel e pela primeira vez Clara ficou sem graça ao lembrar de quando usava a expressão “pantera” com as amigas.
Até Adrian riu achando graça o constrangimento da namorada que era completamente sem filtros.
Mas Marina não riu.
Porque naquele instante algo chamou sua atenção. Algo que parecia pequeno mas importante demais para ser ignorado.
Dayse não estava apenas cansada.
Durante toda a manhã tinha recusado comida. O cheiro dos ovos parecia incomodá-la. O cheiro do café também, agora estava reclamando de enjoo e ontem ela parecia bem mais ousada do que costumava ser.
E aquilo… não parecia apenas ressaca.
Marina permaneceu em silêncio, observando, pensando. Tentando organizar os próprios pensamentos.
Porque já tinha visto aqueles sintomas antes. E quanto mais observava a amiga, menos gostava da possibilidade que começava a surgir em sua cabeça.
Alguns minutos depois, Adrian, Clara e Daniel já discutiam animadamente qual seria o próximo passeio do grupo. Edward permanecia ao lado de Dayse, distraidamente acariciando sua cintura enquanto conversava com os demais.
Foi apenas quando todos se afastaram alguns metros para analisar os mapas turísticos espalhados sobre outra mesa que Marina encontrou a oportunidade que procurava.
Ela caminhou até a amiga parando ao seu lado. E demorou alguns segundos antes de falar.
— Amiga...
Dayse virou o rosto.
— Hum?
Marina respirou fundo.
Porque de repente não tinha certeza se queria ouvir a resposta, mas precisava perguntar.
Precisava muito.
— Quando foi sua última menstruação?
Dayse demorou alguns segundos para responder.
Primeiro porque não entendeu a pergunta. Depois porque entendeu.
E foi justamente aí que o sorriso desapareceu lentamente do seu rosto, como se alguém tivesse desligado uma luz dentro dela.
Porque fazia semanas desde sua última menstruação.
Semanas.
Marina observou o choque silencioso tomando conta do rosto da amiga. E naquele instante, pela primeira vez desde o início daquela viagem, sentiu um frio percorrer sua espinha.
Porque Dayse não respondeu imediatamente, parecia estar fazendo contas. E a expressão que surgiu em seus olhos não parecia a expressão de alguém tentando lembrar uma data.
Parecia a expressão de alguém que acabava de perceber uma possibilidade capaz de mudar sua vida inteira.

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