“O verdadeiro problema de esconder alguma coisa de quem te ama é que ele começa a perceber a mentira antes mesmo de descobrir a verdade.”
Edward Fitzgerald nunca foi um homem paciente.
Durante anos havia construído a própria vida tomando decisões antes que os outros conseguissem terminar uma frase, controlando riscos antes que se transformassem em crises e resolvendo problemas com a precisão fria de quem não aceitava perder tempo com dúvidas, atrasos ou desculpas.
Por isso, permanecer parado diante da porta fechada do banheiro, com a mão ainda próxima da maçaneta e os olhos fixos na madeira escura enquanto Dayse demorava mais do que deveria para responder, exigiu um nível de autocontrole que poucos homens teriam conseguido sustentar.
A mandíbula dele se contraiu discretamente.
— Dayse?
A voz saiu baixa, firme e próxima demais da porta.
Do outro lado, houve um silêncio curto, mas Edward o percebeu como se tivesse durado muito mais.
— Eu estou bem — ela respondeu, com a voz um pouco abafada.
Edward fechou os olhos por um instante, respirando devagar pelo nariz, porque aquela era exatamente a resposta que ele esperava ouvir e exatamente a resposta em que não acreditava.
— Você demorou para responder.
— Eu estava saindo do banho.
A explicação era possível, até convincente. Mas Edward conhecia o tom dela quando mentia para evitar uma conversa, conhecia a pausa pequena antes de responder, conhecia o esforço que ela fazia para parecer tranquila quando estava tentando impedir que alguma coisa escapasse pela voz.
— A comida chegou… — ele disse, escolhendo não insistir naquele momento, embora cada parte dele quisesse abrir a porta, olhar para o rosto dela e descobrir imediatamente o que estava acontecendo.
— Já vou.
Edward permaneceu ali por mais alguns segundos, olhando para a porta fechada, antes de afastar a mão devagar e voltar para a cozinha.
A cobertura estava silenciosa depois do barulho do aeroporto, das perguntas da imprensa, dos flashes e das vozes atravessando o caminho até o carro, e aquele silêncio deveria ser um alívio, mas apenas deixava mais evidente que alguma coisa estava errada com Dayse desde as Maldivas.
Ele retirou o paletó, dobrou as mangas da camisa social até os antebraços e abriu a embalagem da sopa que havia pedido, observando o recipiente com atenção exagerada, não porque se importasse com aquele detalhe em si, mas porque precisava ocupar as mãos enquanto tentava controlar a vontade de voltar ao corredor e exigir que ela dissesse a verdade.
A sopa parecia leve, pouco temperada, sem cheiro forte.
Ainda assim, Edward franziu discretamente a testa, pegou uma colher limpa, provou uma pequena quantidade e esperou alguns segundos, como se pudesse avaliar se aquilo seria suficiente para não piorar o enjoo dela.
Quando Dayse apareceu no início do corredor, usando um vestido leve e com os cabelos úmidos caindo sobre os ombros, Edward ergueu os olhos imediatamente, e a primeira coisa que notou não foi a roupa, nem a pele ainda levemente rosada pelo banho, foram os olhos ainda vermelhos.
A mão dela segurava a alça da bolsa com força demais, e os dedos se fecharam no tecido no instante em que ela percebeu que ele estava olhando.
Edward sustentou o olhar por alguns segundos e Dayse tentou sorrir, mas o sorriso não pareceu sincero.
— Melhor? — perguntou, mantendo a voz baixa.
Ela assentiu e se aproximou devagar.
— Um pouco.
— Senta.
Dayse arqueou uma sobrancelha, tentando usar aquele tom provocador que normalmente surgia com facilidade, mas até a provocação pareceu cuidadosamente montada.
— Isso foi uma ordem?
Edward pegou uma tigela no armário e começou a servir a sopa com calma, observando de canto de olho o modo como ela evitava deixar a bolsa longe do corpo.
— Foi uma recomendação firme.
— Então uma ordem com embalagem bonita.
O canto da boca dele quase se moveu, mas a preocupação impediu o sorriso de aparecer por completo.
— Senta, Dayse.
Ela obedeceu, embora tenha feito isso com uma expressão de falsa irritação que não enganou Edward nem por um segundo, porque as pernas dela pareceram perder força quando ela puxou a cadeira, e a mão livre tocou rapidamente a borda da mesa antes que ela se sentasse.
Edward colocou a tigela diante dela, depois se sentou ao lado, não à frente, porque não queria que aquilo parecesse um interrogatório, embora soubesse que estava observando cada movimento dela como se tentasse montar um caso sem provas suficientes.
Dayse mexeu a colher devagar.
— Você não vai trabalhar?
— Não.
— Edward.
— Já remarquei o que precisava ser remarcado.
Ela levantou os olhos para ele, e a expressão dela mudou por uma fração de segundo, como se aquela resposta tivesse tocado em algum ponto que ela estava tentando proteger.
— Você não precisava fazer isso.
Edward apoiou o antebraço na mesa e inclinou levemente o rosto em direção a ela.
— Eu queria fazer.
— Então por que está me olhando desse jeito?
— Porque cansaço não faz você esconder a bolsa como se alguém fosse arrancar de você.
Dayse ficou imóvel.
Edward viu o impacto da frase atravessar o rosto dela, viu a pele perder um pouco da cor e viu os dedos se apertarem novamente na alça.
Ele poderia ter continuado. Poderia ter pressionado.
Poderia ter dito que sabia que havia algo dentro daquela bolsa, que ela estava diferente desde a manhã anterior, que Marina e Clara também estavam estranhas, que Daniel vinha olhando para a irmã como se estivesse prestes a exigir respostas e que absolutamente nada naquele cenário parecia normal.
Mas não disse.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, Edward entendeu que perceber não lhe dava o direito de invadir.
Dayse baixou os olhos para a tigela.
— Eu não consigo falar agora.
A frase saiu tão baixa que Edward precisou controlar a reação imediata de puxá-la para perto.
— Eu sei.
Ela ergueu os olhos, surpresa.
— Sabe?
— Sei que você não consegue falar agora — ele respondeu, mantendo o tom calmo, embora os dedos dele tivessem se fechado lentamente sobre a própria perna por baixo da mesa. — Não significa que eu não esteja preocupado.
Os olhos dela ficaram úmidos de novo, e Edward sentiu o peito apertar de uma forma incômoda, física, quase agressiva.
— Eu não quero te machucar — ela sussurrou.
Edward ficou completamente imóvel.
A frase não respondeu nada.
Mas abriu uma possibilidade muito pior dentro da cabeça dele.
Porque, pela primeira vez desde que conheceu Dayse, Edward Fitzgerald começou a se perguntar se ela estava procurando uma maneira de ir embora.
E a simples ideia fez alguma coisa se partir dentro dele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Da Cama Para o Altar: Um contrato com o meu Chefe