Naquela manhã, antes mesmo de Dayse Whitmore dar três passos dentro do departamento jurídico, ela já sabia que havia se tornado o assunto mais comentado daquele andar e talvez o erro mais interessante, e perigoso, que alguém já cometeu ali dentro.
Dayse caminhou até sua mesa tentando sustentar uma aparência de normalidade que ela mesma sabia não estar conseguindo manter com muito sucesso, porque, embora o cabelo estivesse preso em um coque elegante, alguns fios escapavam de forma teimosa, enquanto os olhos levemente inchados deixavam claro que ela não tinha dormido e sim passado a noite lutando contra pensamentos, lembranças, sensações, ou pior ainda…
Contra sonhos que ela definitivamente não deveria ter tido.
Ela deixou a bolsa sobre a mesa com um pouco mais de força do que o necessário e ligou o computador, tentando se concentrar na tela como se aquilo fosse suficiente para reorganizar o próprio controle.
Mas não foi. Porque, poucos segundos depois, uma cadeira deslizou lentamente ao lado dela.
— Bom dia… noiva do presidente — murmurou Clara, apoiando o queixo na mão enquanto observava Dayse como uma predadora que finalmente havia encontrado algo interessante para analisar.
Dayse nem se deu ao trabalho de levantar os olhos.
— Bom dia, fofoqueira profissional.
— Eu prefiro investigadora emocional — corrigiu Clara, com um sorriso lento, quase satisfeito — e, no momento… você é o meu caso principal.
Antes que Dayse pudesse responder, outra cadeira se moveu. Uma mais discreta, mais cuidadosa. Marina se aproximou com passos mais suaves, segurando uma xícara de café com as duas mãos, como se aquilo fosse uma espécie de proteção contra o caos que Clara inevitavelmente causaria.
— Bom dia, Dayse… — disse com um sorriso gentil, embora o olhar atento mostrasse que ela também havia notado tudo.
Dayse soltou um pequeno suspiro.
— Bom dia, Marina… por favor, me diga que você veio trabalhar e não procurar saber sobre a minha vida.
Marina hesitou por um segundo. Olhou para Clara e depois voltou para Dayse.
— Eu… vim trabalhar — respondeu, um pouco sem graça — mas… talvez ouvir também.
Clara abriu um sorriso vitorioso.
— Tá vendo? Nem a mais centrada de nós resiste.
Dayse fechou os olhos por um breve instante.
— Eu odeio vocês duas.
— Não odeia — respondeu Clara imediatamente — você só está emocionalmente comprometida demais para admitir que precisa de nós.
— Eu não estou comprometida com nada.
Clara inclinou a cabeça.
— Interessante escolha de palavras… considerando o anel nada discreto que brilha no seu anelar direito.
Dayse travou por meio segundo e Clara percebeu.
— Fo-foi preciso. Por causa dos avós dele.
— Sei… então tem história.
Marina franziu levemente a testa, porém mais cuidadosa:
— Dayse… você está bem?
Dayse respirou fundo, tentando se recompor.
— Estou. Só… não dormi muito bem.
Clara riu baixo.
— “Não dormi muito bem” é a forma corporativa de dizer que você passou a noite inteira pensando nele?
Dayse voltou a digitar.
— Não eu apenas não dormi.
— Mentira.
— Dormi mal.
— Mentira também.
Marina tentou intervir, mais suave:
— Clara, por favor, pega leve com ela, deve estar sendo difícil tudo isso.
— Difícil? — disse Clara, sem tirar os olhos de Dayse — Fala sério Marina, Dayse está noiva do homem mais desejado dessa empresa, ela deveria estar soltando fogos e aproveitando a oportunidade que a vida lhe deu e tá sentando gostoso naquele…
Dayse ergueu o olhar lentamente.
— Clara pelo amor de Deus, fala baixo!
Clara sorriu e se inclinou um pouco mais.
— Vou parar de falar se você me contar como foi o… jantar.
Dayse já sabia que não escaparia.
— Foi normal.
Clara piscou devagar.
— Normal?
— Sim.
— Você foi jantar com os avós do homem mais poderoso desta empresa… — começou Clara, contando nos dedos — usando um vestido que provavelmente deve ter deixado ele pau duro assim que te viu…
Marina tossiu discretamente, corando.
— Clara…
Mas Clara ignorou.
— Depois ele te trouxe em casa, e você quer que eu acredite que a noite terminou normalmente?
Dayse revirou os olhos.
— Clara…
— Vai me dizer que vocês se despediram com um aperto de mão e um “boa noite, colega de contrato”?
Dayse respirou fundo.
— Nós nos despedimos no carro.
Silêncio e Clara abriu um sorriso lento.
— Ah.
Marina abaixou o olhar para a xícara.
— Ah… — repetiu, mais baixo.
Dayse cruzou os braços.
— Ah o quê?
Clara inclinou o corpo para frente.
— Então teve um sexo dentro do carro.
— Não teve sexo dentro do carro!
— Um boquete?
— Clara você precisa urgentemente de terapia.
— Meu Deus, pelo menos rolou um beijo?
Dayse fechou os olhos por um breve instante, como se aquele simples questionamento tivesse força suficiente para puxá-la de volta para dentro do carro, para o exato segundo em que tudo deixou de parecer controlável…
Porque não tinha sido apenas um beijo. Tinha sido a forma como ele a segurou, firme, sem hesitação, como se não houvesse espaço para dúvida… como se, por um instante perigoso, aquilo não fosse parte de um contrato, mas uma escolha.
— Talvez… — respondeu, tentando soar indiferente, mesmo sabendo que o próprio corpo a traía na memória.
Clara bateu na mesa.
— EU SABIA!
Marina deu um pequeno salto na cadeira.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Da Cama Para o Altar: Um contrato com o meu Chefe