“Alguns homens não interrompem o caos… eles entram nele no momento exato.”
O ambiente mudou antes mesmo que alguém percebesse o porquê, como se o ar tivesse ficado mais pesado, mais atento, mais perigoso e, desta vez, não era Clara quem estava prestes a causar problemas.
E foi exatamente nesse instante que algo no ambiente mudou.
Não de forma abrupta, mas com uma sutileza quase imperceptível, como se o ar tivesse ficado mais denso, mais pesado… mais atento.
Marina foi a primeira a perceber.
O corpo dela enrijeceu levemente, os dedos apertaram a xícara de café com um pouco mais de força, enquanto seus olhos se desviavam automaticamente para a entrada do departamento, como um reflexo quase instintivo de alguém que estava acostumada a reconhecer mudanças no ambiente antes mesmo de entendê-las.
Clara, por outro lado, não se moveu. Mas o brilho nos olhos dela se intensificou.
Dayse ainda limpava discretamente o café que havia se engasgado quando sentiu a presença forte, silenciosa e inconfundível. Mas, antes mesmo que ela levantasse o olhar, uma voz masculina, baixa e controlada, já havia atravessado o espaço.
— Interessante…
O som foi suficiente para congelar completamente o ar ao redor delas.
E, lentamente Dayse levantou o rosto e deu de cara com Edward Fitzgerald que estava parado a poucos passos dali.
Ao lado dele, Adrian mantinha a postura impecável, mas havia um leve brilho de diversão em seu olhar, como alguém que sabia exatamente o tipo de caos que estava prestes a se desenrolar.
Edward não parecia se importar. Muito pelo contrário. Havia algo perigosamente calculado na forma como ele observava a cena, como se tivesse chegado há tempo suficiente para ouvir… mais do que deveria.
E pelo leve arqueamento de uma de suas sobrancelhas, provavelmente tinha ouvido exatamente o suficiente.
Clara não desviou o olhar nem por um segundo. Cruzou os braços lentamente, analisando-o com um interesse descarado, quase desafiador, como se estivesse diante de algo que valia cada segundo de atenção.
Marina, ao lado dela, ficou completamente vermelha, abaixando o olhar de forma imediata, como se quisesse desaparecer dentro da própria mesa.
— Senhor Fitzgerald… — murmurou, com a voz mais baixa do que o normal.
Edward desviou o olhar de Dayse apenas o suficiente para reconhecer Marina com um leve aceno de cabeça, educado, contido e perfeitamente profissional.
— Senhorita Duarte.
E então ignorou Clara completamente. Como se ela não estivesse ali, ou como se simplesmente não existisse.
Clara arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Uau… — murmurou, inclinando levemente a cabeça — eu já fui ignorada antes, mas confesso que nunca com tanta elegância.
Adrian virou discretamente o rosto, claramente segurando uma risada.
Edward não reagiu, nem sequer olhou. E então, como se todo o resto do ambiente deixasse de existir, voltou sua atenção completamente para Dayse.
— Senhorita Whitmore.
Dayse sentiu o estômago contrair de leve.
— Senhor Fitzgerald — respondeu, tentando sustentar uma neutralidade que seu corpo claramente não acompanhava.
Os olhos dele desceram por um breve instante e analisaram o anel que ainda estava no dedo dela.
— Preciso do seu número de telefone — disse então, com uma naturalidade que tornava o pedido ainda mais autoritário.
Clara soltou um pequeno riso ao lado.
Marina cobriu o rosto com a mão.
— Eu não estou aqui… eu definitivamente não estou aqui…Clara cala a boca, você vai ser demitida!
Edward ignorou completamente o que acontecia ao redor, mas, antes de se afastar, inclinou-se levemente na direção de Dayse, reduzindo a distância entre os dois enquanto sua voz, agora mais baixa, próxima e perigosamente controlada, parecia destinada apenas a ela.
— E, da próxima vez que tiver esse tipo de conversa… — murmurou, quase junto ao ouvido dela — talvez seja melhor verificar se eu não estou ouvindo.
O coração dela disparou.
— E, a propósito… — acrescentou, ainda mais baixo — se quiser confirmar se o tamanho é proporcional ou tornar o sonho realidade… é só falar.
Ele se afastou como se nada tivesse acontecido.
— Tenham um bom dia.
E saiu com Adrian ao lado, claramente entretido demais para disfarçar completamente.
Clara virou lentamente para Dayse a encarando com os olhos brilhando.
— Então ele ouviu tudo!
Marina cobriu o rosto de vez.
— Eu nunca mais vou conseguir olhar pra ele…
Dayse permaneceu imóvel, com o celular ainda na mão, e o nome dele brilhando na tela como algo perigosamente simples para o impacto que carregava. E, naquele instante, entre o eco da voz dele e a lembrança do que havia sido dito minutos antes, uma única certeza se formou, clara demais para ser ignorada:
O jogo não era mais dela. E, pela primeira vez, ela não fazia ideia de como sair dele.

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