“Existem guerras que começam com palavras… e terminam com territórios marcados.”
Liliana Hart não entrou no departamento jurídico.
Ela invadiu.
O som dos saltos ecoou pelo ambiente aberto antes mesmo que alguém tivesse coragem de levantar os olhos, e, ainda assim, foi impossível ignorar a presença dela, porque não era apenas a elegância impecável ou o corte preciso do tailleur escuro que moldava seu corpo com perfeição calculada… era a forma como ela ocupava o espaço, como se tudo ali existisse apenas em função da própria existência.
O burburinho cessou aos poucos.
Primeiro as vozes mais próximas. Depois as mais distantes. Até que o silêncio se instalou com aquele peso desconfortável de quem sabia que algo estava prestes a acontecer e ninguém queria ser o primeiro a reagir.
Dayse não levantou os olhos imediatamente.
Ela continuou encarando a tela do computador por um segundo a mais do que o necessário, como se aquele pequeno atraso fosse suficiente para reorganizar o próprio controle, mesmo sabendo, pela forma como o ambiente havia mudado, que Liliana não estava ali por acaso.
Ela e a advogada já tinham tido um embate dentro do elevador da empresa, no dia em que Dayse assinou o maldito contrato com Edward, e no fundo, ela sabia que Liliana não estava ali indo atras de algum documento…
Foi quando os papéis bateram sobre sua mesa. Secos, diretos e carregados de uma violência contida que dispensava qualquer aviso e esse gesto nada delicado, fizeram Dayse erguer o olhar encontrando Liliana que a encarava com frieza, elegância e deboche.
Ela sorria… Mas não era um sorriso gentil. Era o tipo de sorriso que não tocava os olhos.
— Eu realmente esperava mais — disse Liliana, com a voz baixa, controlada, mas carregada de uma superioridade que não fazia questão de esconder — mas, considerando de quem estamos falando…
Ela inclinou levemente a cabeça, os olhos descendo de forma lenta e avaliativa sobre Dayse, como se estivesse medindo cada detalhe… não para entender, mas para julgar.
— Acho que não deveria me surpreender.
O silêncio ao redor se tornou ainda mais pesado.
Dayse manteve as mãos imóveis sobre a mesa, recusando-se a tocar nos papéis, sustentando o olhar sem qualquer desvio e contendo a própria reação com uma precisão fria, como quem escolhe, com plena consciência, não agir, pelo menos, ainda não.
— Algum problema com os documentos, doutora? — perguntou, finalmente, com uma calma que não era submissa, mas controlada.
Liliana soltou um riso breve e seco.
— Problema? — repetiu, arqueando levemente uma das sobrancelhas — isso aqui não é um problema, senhorita Whitmore… isso é incompetência.
O impacto da palavra não se limitou ao seu significado, porque foi o tom carregado de desprezo, a intenção crua por trás dela, que realmente atingiram, e foi exatamente nesse instante que Clara se levantou rapidamente, tomada por uma indignação intensa demais para ser contida.
— Olha aqui, você…
— Clara.
Clara interrompeu o próprio impulso no meio do movimento, não por falta de vontade, mas porque reconheceu, de forma quase instintiva, o tom da voz de Dayse e, por um breve instante que não passou despercebido, um sorriso surgiu em seus lábios, não um sorriso qualquer, mas aquele tipo específico de expressão que mistura orgulho e antecipação, como se ela já soubesse, antes mesmo de acontecer, que aquele confronto não terminaria da forma que Liliana esperava.
Dayse, por sua vez, permaneceu completamente imóvel, sustentando o olhar sem qualquer hesitação, sem recuar, sem demonstrar pressa, como alguém que não apenas escolhe o momento de agir, mas que também entende o peso do silêncio antes da resposta.
Foi então que Liliana voltou a sorrir, mas dessa vez de forma mais aberta, mais evidente, carregando um deboche ainda mais afiado, quase provocativo, como se estivesse se divertindo com a situação que ela mesma havia criado.
— Muito bem, senhorita Whitmore… — disse, com uma lentidão cuidadosamente calculada, cruzando os braços enquanto inclinava levemente a cabeça, analisando Dayse de cima a baixo com um olhar que não escondia julgamento — devo admitir que essa é uma qualidade que eu realmente aprecio.
Ela deu um pequeno passo ao lado, posicionando-se com elegância, como se estivesse ajustando o ângulo de uma cena que desejava dominar por completo.
— Saber exatamente quando ficar calada diante de alguém superior.
— Uma encenação.
Dayse permaneceu exatamente onde estava, sem recuar um único centímetro, sem permitir que qualquer traço de impacto atravessasse sua expressão, sustentando o próprio controle com uma precisão quase fria enquanto cruzava os braços de forma lenta e deliberada, como quem estabelece um limite claro sem precisar elevá-lo à força, e respondeu no mesmo tom baixo e controlado, mantendo o olhar firme como um desafio silencioso.
— Como você pode ter tanta certeza disso?
Por um segundo, Liliana abriu a boca para responder. Mas nenhuma palavra saiu. E foi exatamente nesse pequeno intervalo, nesse instante mínimo de hesitação, que algo mudou.
Porque Dayse percebeu e aproveitou.
Inclinando levemente a cabeça, com um olhar que agora carregava algo mais afiado, mais consciente, ela continuou, sem elevar a voz, mas com uma precisão que não deixava espaço para interpretação.
— Ou você está frustrada… — começou, pausando o suficiente para que o peso da frase se formasse — porque agora sou eu quem está transando com ele?
O impacto foi imediato e absoluto.
Uma respiração presa ecoou em algum ponto do ambiente, enquanto outra pessoa desviava o olhar rápido demais, como se aquilo fosse intenso demais para ser acompanhado de perto, e Marina permaneceu completamente imóvel, como se qualquer reação pudesse piorar ainda mais a situação.
Clara, por outro lado, não se conteve.
O sorriso dela se abriu de forma lenta, satisfeita, quase vitoriosa.
Liliana ficou em silêncio. Os olhos dela, agora estavam mais escuros, mais densos e não carregavam apenas desprezo.
Havia algo pessoal e perigoso.
E, naquele instante, ficava impossível negar.

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