“Algumas escolhas não parecem perigosas… até o momento em que alguém decide aparecer no pior instante possível.”
O problema nunca foi o que aconteceu naquela sala… foi o fato de que, quando finalmente aconteceu, Dayse não tentou impedir.
Dayse não queria pensar.
Porque pensar significava reviver cada detalhe do que havia acontecido, cada toque, cada respiração presa, cada segundo em que sua razão tinha falhado de forma quase vergonhosa, e foi exatamente por isso que decidiu sair, como se se perder em um ambiente cheio, barulhento e vivo pudesse, de alguma forma, silenciar o que ainda ecoava dentro dela.
O bar estava cheio, mas não a ponto de incomodar. O clima era agradável, as luzes baixas, a música suave e o murmúrio constante das conversas formavam um cenário comum, embora, para Dayse, nada ali parecesse realmente normal.
— Eu ainda não acredito nisso — Clara disse, inclinando o corpo sobre a mesa, com os olhos brilhando com curiosidade e um prazer quase indecente em cada detalhe da história — você está me dizendo que o seu “ noivo”, perdeu completamente o controle com você… dentro da própria sala dele?
Dayse soltou um suspiro lento, pressionando os dedos contra a têmpora como se aquilo fosse suficiente para conter os pensamentos.
— Em primeiro lugar, Clara… ele não é o meu noivo.
Clara arqueou uma sobrancelha, claramente divertida.
— Ah, não? E esse anel no seu dedo é o quê? Um acessório conceitual?
— Clara, deixa a Dayse — Marina interveio, mais cautelosa.
— Eu estou deixando — Clara respondeu sem desviar o olhar — só estou sendo honesta. Para todos na empresa, ele é seu noivo sim e, pelo que você acabou de me contar, essa “mentirinha” está a um passo de deixar de ser mentira.
Dayse estreitou os olhos.
— O que você quer dizer com isso?
Clara inclinou a cabeça, analisando-a como se estivesse lendo algo óbvio demais.
— Que você é linda, inteligente, perigosa… e gostosa pra caralho. — deu um sorriso torto — É questão de tempo até o senhor perfeito perder a cabeça de vez.
Dayse soltou uma risada curta, sem humor.
— Sério isso, Clara? Quer que eu acredite nisso?
— E por que não?
Dayse apoiou o cotovelo na mesa, levando o copo aos lábios antes de responder com um olhar frio.
— Porque homens como Edward Fitzgerald não se apaixonam. Eles só reagem a estímulos… e, na maioria das vezes, esses estímulos não vêm exatamente do coração.
Marina arregalou os olhos, claramente desconfortável, enquanto Clara simplesmente gargalhou.
— Meu Deus… eu quero um desses pra mim. — disse, ainda rindo — Será que o secretário gostosão dele funciona do mesmo jeito?
Dayse desviou o olhar por um instante, respirando fundo, tentando recuperar o mínimo de controle, mas Clara não deixava nada escapar.
— Ok, agora vamos falar de algo realmente importante — disse, inclinando levemente a cabeça.
— O quê? — Dayse perguntou, já desconfiada.
Clara percorreu o olhar pelo corpo dela com uma calma calculada, e então sorriu.
— Você está absurdamente perigosa hoje.
E não era exagero.
O vestido vermelho que Dayse usava se ajustava ao corpo com precisão quase perigosa, curto e justo na medida exata para destacar cada curva, enquanto o tecido amarrado no pescoço deixava as costas completamente nuas, revelando pele demais para alguém que ainda tentava manter qualquer tipo de controle sobre si mesma.
O cabelo solto caía pelos ombros, e o batom no mesmo tom do vestido só tornava tudo ainda mais impossível de ignorar.
— Eu só precisava sair — respondeu, tentando manter o tom neutro, embora houvesse muito mais por trás daquela simples frase.
Clara sorriu de lado, claramente satisfeita.
— E decidiu causar um pequeno colapso coletivo no processo?
Dayse revirou os olhos, mas não respondeu, porque, no fundo, sabia exatamente o efeito que causava, e talvez, só talvez, aquela escolha não tivesse sido tão inconsciente quanto gostaria de acreditar.
Do outro lado do bar, Peter não esperava vê-la.
Na verdade, ele não esperava ver absolutamente nada além de um drink rápido antes de ir embora, já que o dia havia sido longo, cansativo, e com Stephanie presa na redação até tarde, ele tinha decidido parar ali sozinho, apenas para relaxar antes de seguir para casa.
Mas então… ele a viu.
E, naquele instante, todo o resto perdeu importância.
Marina também se inclinou para frente, o encarando com o olhar afiado.
— Você é sempre invasivo assim ou hoje resolveu se superar?
Dayse puxou a mão com firmeza, libertando-se do toque dele sem qualquer hesitação, e quando levantou o olhar, não havia mais dúvida.
Ela estava completamente no controle.
— Isso não diz respeito a você.
Peter soltou um riso seco.
— Ah… então é isso? — ele inclinou levemente a cabeça, com os olhos carregados de julgamento — Já está noiva agora?
Ele deu um passo mais perto, mantendo a voz mais baixa e mais venenosa.
— Engraçado… — continuou — você veio bancar a moralista comigo… mas, pelo visto, quem estava transando por aí o tempo todo era você.
O silêncio caiu pesado sobre a mesa.
Marina fechou as mãos em punho, claramente furiosa.
— Você perdeu completamente a noção — disse, dando um passo à frente — porque não só está sendo desrespeitoso, como está ultrapassando qualquer limite aceitável.
Clara riu, mas não havia humor nenhum.
— Não, ele não perdeu a noção — respondeu, fria — ele sempre foi assim. Só demorou pra você perceber. Acho melhor você calar a boca antes que eu quebre todos os seus dentes.
Dayse não levantou a voz, não precisou.
— Você não tem o direito de falar assim comigo — disse, firme, olhando diretamente nos olhos dele — e muito menos de tirar conclusões sobre a minha vida.
Peter a encarou por um longo segundo. E a tensão… só aumentava.
— Então me explica — insistiu, apontando para o anel — o que é isso?
E foi exatamente naquele momento que a porta do bar se abriu.

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