“O problema não é o que você fez… é perceber que, no fundo, você faria de novo.”
Dayse não estava lidando com uma ressaca. Estava lidando com as consequências de uma versão dela mesma, que não pediu permissão para aparecer.
Ela ainda estava sentada na cama quando a campainha tocou insistente o suficiente para atravessar o torpor da ressaca, da vergonha e, principalmente, da lembrança fragmentada e perigosamente sugestiva do que tinha acontecido na noite anterior.
Ela fechou os olhos por um segundo, pressionando os dedos contra as têmporas como se aquilo fosse suficiente para organizar os pensamentos, mas não era, porque toda vez que tentava lembrar vinha a mesma sequência desconexa: o bar, o corpo dele perto demais, a voz baixa no ouvido, o toque, o calor, a provocação… e o vazio.
Só que, dessa vez, não parou ali.
Porque outra lembrança veio, mais clara, mais constrangedora e perigosamente vívida.
Ela acordando ao lado dele, o corpo quente próximo demais e a imagem absolutamente nítida da forma como o tecido da cueca não escondia nada.
Todas essas lembranças, fazia todo o seu corpo arder de desejo e o rosto esquentar na mesma hora.
— Meu Deus… — murmurou, quase sem voz.
E então veio a voz dele, baixa, rouca, preguiçosa e perigosamente divertida, deslizando pela memória dela como um sussurro que não pedia permissão para voltar.
“Quer me ajudar a resolver isso?”
Dayse tentou apagar a memória, mas o que a atingia não era a pergunta, e sim a forma como seu próprio corpo tinha reagido antes da razão, traindo completamente qualquer controle que ela achava que ainda tinha.
— Eu vou morrer… — sussurrou, mais para si mesma do que para qualquer outra coisa.
Porque não era só vergonha, era o detalhe mais perigoso de todos que mesmo sem lembrar de tudo, ela lembrava o suficiente e, pior ainda, o corpo dela também.
A campainha tocou de novo.
— Já vai!
Caminhou até a porta ainda enrolada no lençol, e quando abriu a porta Clara entrou como um furacão e Marina veio logo atrás.
As duas pararam no mesmo instante, como se tivessem sido puxadas pela mesma percepção, enquanto os olhares percorriam cada detalhe dela sem pressa, absorvendo tudo com uma atenção quase suspeita.
Dayse ainda estava envolta apenas no lençol, segurando-o contra o corpo como se aquilo fosse o mínimo de dignidade que lhe restava.
Clara deixou escapar um sorriso lento, malicioso, daqueles que já diziam tudo antes mesmo das palavras.
Marina levou a mão ao peito, arregalando os olhos.
— Meu Deus do céu… você está viva?
Dayse soltou um suspiro lento, fechando a porta atrás delas com cuidado, como se até aquele gesto exigisse mais energia do que deveria.
— Eu acho… — respondeu, passando a mão pelo rosto — ainda estou avaliando.
Clara cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça enquanto a analisava de cima a baixo, com aquele olhar clínico, afiado e completamente sem vergonha.
— Interessante… — murmurou — cara de ressaca, cabelo assanhado, ainda sem roupa… e um leve ar de “fiz merda e não lembro o tamanho”.
Dayse soltou um suspiro pesado.
— Eu não lembro de quase nada.
— A gente percebeu — Marina respondeu rapidamente — principalmente porque você não apareceu no trabalho.
Dayse passou a mão pelo rosto.
— Fui liberada pelo meu “chefe”.
— Isso nós sabemos, até porque foi o presidente em pessoa que comunicou que você estava de … folga. — Clara concluiu com um sorriso zombeteiro nos lábios.
— Ele… o quê?
— Exatamente isso — Marina confirmou, ainda claramente impactada — ele apareceu no departamento, olhou pra todo mundo como se fosse dono do mundo… — fez uma pausa — o que, tecnicamente, ele é… e disse que você estava liberada hoje.
Dayse ficou completamente imóvel.
— Ele… fez isso na frente de todo mundo?
— Fez — Clara respondeu, com um sorriso que já beirava o entretenimento — ah amiga todo mundo na empresa já sabe que você é a dona da porra toda.

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