“O perigo não está em perder o controle… está em perceber que você quis perder.”
O problema não era ter acordado nua ao lado dele. Era lembrar, ainda que em fragmentos, que, em algum momento da noite, ela tinha desejado exatamente aquilo.
Dayse a encarou.
— Tem mais?
As duas se entreolharam.
— Tem — Marina respondeu.
Dayse já queria desaparecer.
— Você puxou ele pela nuca — continuou — trouxe ele pra perto… e falou alguma coisa no ouvido dele.
— O quê?
Clara sorriu.
— “Você não presta… mas é gostoso pra caramba.”
O silêncio foi absoluto e Dayse por um segundo, parou de respirar.
— Eu… falei… isso?
— Com todas as letras — Clara confirmou.
— Eu vou me jogar pela janela.
— Não vai mesmo. Não sem antes contar o que aconteceu aqui. Se bem que pela sua carinha a noite deve ter sido… intensa. — completou Clara.
Dayse apertou o lençol contra o corpo como se aquilo fosse suficiente para protegê-la da própria reputação.
— Intensa? — repetiu, com a voz levemente estrangulada — Clara, eu acordei nua ao lado dele.
O silêncio que veio depois não foi leve, foi pesado e carregado de interesse.
Clara arregalou os olhos, Marina piscou.
E então, lentamente…
— Você acordou? — Clara perguntou, já com um sorriso surgindo. — Então deve ter passado a noite inteira sendo comida por aquele Deus grego.
— Eu disse que eu acordei nua — Dayse repetiu, encarando as duas como se aquilo fosse um pedido de ajuda — completamente nua… e não que nós dois passamos a noite… transando. — completou corando.
— Ai amiga, fala sério. Você acorda peladinha ao lado daquele Deus do ébano e me diz que ele não te tocou?
Dayse fechou os olhos. Respirou fundo e respondeu:
— Não.
As duas travaram.
— Não? — Marina repetiu.
— Não — Dayse confirmou, abrindo os olhos devagar — ele disse que não quis.
O silêncio voltou. Mas dessa vez… diferente.
— Como assim não quis? — Clara perguntou, completamente incrédula.
— Exatamente assim — Dayse respondeu, irritada e ainda vermelha — ele simplesmente… decidiu não fazer.
Clara deixou escapar uma risada desacreditada.
— Ah não, isso aqui já virou questão de ego.
— Eu também achei — Dayse murmurou, cruzando os braços, ainda segurando o lençol — até eu perceber o problema.
Marina estreitou os olhos.
— Que problema?
Dayse hesitou por um segundo ou dois.
— O corpo dele não estava exatamente… alinhado com essa decisão.
Clara engasgou com o próprio riso.
— Amiga…
— E ele ainda teve a coragem — Dayse continuou, cada vez mais revoltada e constrangida ao mesmo tempo — de olhar pra mim, com aquela cara de quem não presta, e perguntar se eu queria ajudar ele a “resolver aquilo”.
O silêncio durou apenas alguns segundos.
Clara explodiu na gargalhada.
— EU NÃO ACREDITO!
Marina levou a mão à testa, completamente chocada.
— Ele não fez isso?
— Fez — Dayse confirmou, apontando para si mesma — e o pior não foi isso.
As duas ficaram imediatamente atentas.
— Foi o fato de que… — ela parou, respirando fundo, claramente irritada consigo mesma — o meu corpo reagiu.
Clara parou de rir.
Marina piscou.
— Reagiu como? — Clara perguntou, agora com um interesse ainda mais perigoso.
Dayse fechou os olhos por um segundo.
— Do jeito errado.
O canto da boca de Clara subiu lentamente.
— Ou do jeito certo demais?
— CLARA!
— Eu só estou analisando!
Marina ainda parecia presa no choque.
— E depois disso?
Dayse passou a mão pelo rosto.
— Depois disso ele simplesmente se vestiu, como se nada tivesse acontecido, me liberou do trabalho e disse que mais tarde tínhamos um evento… e que iria precisar da “noiva” dele.
— Ah Dayse, você devia ter reagido e caído de boca logo no pau dele.
Marina arregalou os olhos corando e ignorou completamente o comentário da amiga mudando de assunto.
— Evento? — Marina repetiu.
— Que evento? — Clara completou, já interessada.
Dayse deu de ombros, exausta.
— Eu não sei… ele só disse isso e foi embora como se não tivesse acabado de destruir a minha estabilidade emocional.
Clara cruzou os braços.
— Tá… então deixa eu ver se eu entendi…
Deu um passo à frente.
— Você quase arrancou a roupa dele em público, provocou ele até o limite, acordou nua ao lado dele, não transou, quase ajudou a “resolver” a situação de manhã…
— EU NÃO AJUDEI!

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