“O perigo nunca esteve na escolha… mas no instante em que ela deixou de ser apenas um jogo e passou a ser inevitável.”
Algumas escolhas parecem inofensivas no início, até o momento em que alguém decide transformá-las em algo impossível de controlar.
Dayse sabia que estava bonita, mas o que realmente a deixava inquieta não era a beleza refletida no espelho, e sim a sensação incômoda, quase premonitória, de que, naquela noite, cada detalhe da sua aparência não era apenas uma escolha estética, mas uma preparação silenciosa para algo que ela ainda não sabia exatamente o que era.
O vestido champanhe moldava seu corpo com uma precisão elegante e quase perigosa, deslizando justo desde o colo em um corte ombro a ombro que valorizava a linha delicada dos seus ombros e a extensão do pescoço, descendo com suavidade até abaixo dos joelhos, acompanhando cada curva com sofisticação suficiente para não parecer vulgar, mas com presença suficiente para garantir que ninguém ali fosse capaz de ignorá-la. O tecido, levemente acetinado, captava a luz de forma sutil, criando reflexos dourados a cada movimento, enquanto o coque preso com perfeição deixava seu rosto exposto, destacando a maquiagem impecável e o olhar que, embora firme, ainda carregava uma inquietação que ela não conseguia esconder totalmente.
— Eu não sei se eu elogio… ou se eu te impeço de sair de casa assim — a voz de Clara surgiu atrás dela, carregada de deboche e admiração ao mesmo tempo, enquanto cruzava os braços e analisava a amiga pelo reflexo do espelho — porque, sinceramente? Você está gostosa demais pra um simples jantar.
Dayse soltou um pequeno suspiro, mas não conseguiu evitar o canto dos lábios se curvando.
— Não começa.
— Eu nem comecei — Clara rebateu, se aproximando e inclinando a cabeça, avaliando com mais atenção — isso aqui — apontou discretamente para o corpo dela — não é “bonita”, Dayse… isso aqui é problema.
Antes que Dayse pudesse responder, a porta do quarto se abriu.
Marina entrou sem cerimônia, mas parou no meio do caminho.
Os olhos arregalaram levemente.
— Ok… — disse, devagar, olhando de cima a baixo — eu retiro tudo o que eu falei sobre manter a discrição hoje à noite.
Clara riu.
— Eu avisei.
Marina então respirou fundo, recuperando a postura.
— Ele está na sala.
Um silêncio breve, mas absolutamente suficiente para dizer tudo.
O coração de Dayse acelerou.
— Vamos? — Clara perguntou, já com um sorriso que prometia caos.
Dayse assentiu e então as três saíram.
Edward estava de pé no centro da sala, impecável como sempre, com o terno escuro moldando seu corpo com precisão e a postura relaxada de alguém que não precisava de esforço para dominar qualquer ambiente em que entrava. Seu olhar permanecia distraído até o instante em que o som dos passos que se aproximavam captou sua atenção.
Ele virou o rosto e, no instante em que seus olhos encontraram Dayse, uma mudança sutil atravessou sua expressão, enquanto seu olhar escurecia e deslizava lentamente pelo corpo dela, de cima a baixo, com calma e sem qualquer constrangimento, como se estivesse absorvendo cada detalhe, guardando na memória e, de forma silenciosa, deixando claro que nada ali passava despercebido por ele.
Clara franziu levemente a testa, surpresa, e Marina arregalou os olhos de forma ainda mais evidente.
— Eu falei — Clara murmurou, baixo, agora com um sorriso diferente — ela não está de matar… ela está ferrando o homem.

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