“Não foi o toque que a desestabilizou… foi o fato de querer mais.”
Dayse Whitmore
Dayse sempre teve controle sobre tudo.
O único problema era que, pela primeira vez, o próprio corpo dela não obedecia.
Eu não consegui voltar para a minha mesa, não porque não soubesse o caminho ou porque tivesse algo urgente para resolver, mas porque, no momento em que saí daquela sala, ficou claro demais que não era só o ambiente que eu precisava deixar para trás, era a sensação que ainda estava grudada na minha pele.
Caminhei pelo corredor com passos firmes, eu só queria sair dali o mais rápido possível, mas quanto mais eu caminhava, mas a minha mente trazia as lembranças do que tinha acabado de acontecer naquela sala. Do toque dele no meu corpo, do beijo que ele me deu.
— Dayse, pelo amor de Deus, se controla.
O ar parecia mais quente, ou talvez fosse só o meu corpo tentando processar algo que não fazia sentido dentro das regras que eu mesma tinha aceitado.
Era apenas um contrato.
Eu finjo ser sua noiva e, em troca, ele repara o meu erro, mas aquilo deixava de parecer simples toda vez que ele chegava perto.
Eu parei no meio do corredor por um segundo, fechando os olhos com força, tentando organizar os pensamentos e recuperar o controle que sempre foi meu.
— Isso não pode estar acontecendo — murmurei, mais irritada do que confusa, passando a mão pelo rosto enquanto soltava o ar devagar.
Eu sabia exatamente o que estava acontecendo. E era justamente por isso que me incomodava tanto.
Edward Fitzgerald não era um homem comum. Era um homem frio, egocêntrico, arrogante, metódico e incapaz de amar. Eu não posso me apaixonar por ele, mas como faço se meu corpo reage a ele todas as vezes que ele se aproxima?
Voltei a andar, dessa vez mais devagar, porque fugir não estava adiantando, e cada passo só trazia mais detalhes à tona, mais lembranças que eu não queria revisitar naquele momento.
O toque dele. A forma como ele me puxou. O jeito como a respiração dele mudou tão perto da minha. O beijo delicado e aparentemente inocente que ele me deu.
Eu apertei os lábios, irritada.
— Ridículo… — sussurrei, balançando a cabeça.
Ridículo não era o que aconteceu. Ridícula era a forma como eu reagi.
Porque eu nunca conseguia recuar, não conseguia interromper. Mas o pior de tudo isso, era que eu queria mais, muito mais. E essa certeza me fez parar novamente.
— Não — falei mais firme dessa vez, abrindo os olhos e encarando o nada à minha frente como se estivesse me confrontando diretamente.
Eu não ia perder o controle por causa dele, nem permitir que aquilo interferisse no que precisava continuar sendo simples.
Respirei fundo, ajeitando a postura.
— É só um contrato — repeti, agora em voz baixa, mas com mais convicção. — E vai continuar sendo só isso.
Empurrei a porta do banheiro com força, entrei e tranquei logo em seguida, quase no automático, porque precisava de um lugar fechado para me recompor e organizar o que estava acontecendo.
Apoiei as mãos na pia, sentindo o frio do mármore nos dedos, e abaixei a cabeça por um instante, respirando fundo na tentativa de me acalmar, mas não funcionou, porque o calor no meu corpo continuava evidente, intenso demais para algo que deveria ter sido apenas encenação.
O problema era que aquilo claramente não terminaria ali, porque não se tratava apenas do que tinha acabado de acontecer dentro daquela sala, mas de tudo o que ainda estava por vir, e foi exatamente nesse momento que a próxima etapa daquela situação se impôs de forma inevitável na minha cabeça.
Levantei o rosto devagar, encarando meu próprio reflexo no espelho enquanto ainda tentava regular a respiração, e bastou um segundo de lucidez para que a realidade seguinte se tornasse incômoda o suficiente para me deixar ainda mais tensa.
Respirei fundo mais uma vez e ajustei a postura, tentando me recompor.
— Você vai lidar com isso — falei com firmeza, sustentando o olhar no espelho. — Como sempre faz.
Mas, mesmo tentando sustentar essa linha de raciocínio com toda a clareza possível, a única coisa que permanecia insistente na minha mente era o fato de que, se eu já estava tendo dificuldade para manter o controle naquele momento, como exatamente eu esperava conseguir resistir a ele estando tão perto o tempo todo?
Porque, pela primeira vez, a dúvida não era sobre o acordo.
Era sobre mim.
Minha pele ainda estava quente, e meu olhar mais focado e atento, como se eu ainda estivesse tentando entender o que tinha acontecido.
Levei a mão até o pescoço e toquei exatamente onde ele tinha encostado os lábios, e o simples contato dos meus dedos já foi suficiente para provocar uma nova reação no meu corpo, mais leve, mas ainda perceptível, fazendo com que eu prendesse a respiração por um instante antes de soltá-la devagar, tentando recuperar o controle.
Engoli seco e desviei o olhar do espelho por um segundo, porque encarar aquilo diretamente estava mais difícil do que deveria.
Passei a língua pelos lábios de forma automática enquanto tentava organizar os pensamentos, mas eles vinham confusos, misturados com sensações que eu não esperava.
O som da porta abrindo me fez levantar a cabeça rápido, piscando algumas vezes enquanto me afastava da pia quase no mesmo instante, ajeitando a postura e levando a mão ao cabelo como se estivesse apenas me arrumando.
Uma mulher entrou, olhou rapidamente ao redor e seguiu para a bancada ao lado, sem perceber nada.
Voltei a encarar o espelho, ajustando a expressão com cuidado, controlando a respiração e alisando a lateral da blusa com um gesto discreto. Como se nada tivesse acontecido.
O mais preocupante não foi o que aconteceu.
Foi perceber que, mesmo depois de tudo, eu ainda queria que acontecesse de novo.

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