Lorena não sabia por quanto tempo andou.
As ruas passavam diante de seus olhos como manchas sem forma, vitrines borradas pelas lágrimas que não paravam de cair. O ar da noite parecia pesado demais para entrar nos pulmões, e cada passo exigia um esforço que ela não tinha certeza se conseguiria sustentar.
A perna ainda ardia. O sangue já havia secado, mas a dor continuava ali, pulsando, como um lembrete cruel do que tinha acabado de acontecer.
Ela levou a mão ao bolso, pegou o celular.
Não havia ninguém para quem ligar.
Desde o casamento, Rafael havia ocupado todos os espaços da vida dela. Os almoços com amigos ficaram raros. As mensagens não respondidas viraram silêncio definitivo. Aos poucos, sem perceber, Lorena ficou sozinha - e agora sentia o peso disso esmagando seu peito.
O estômago, que ela havia esquecido completamente depois da cena no hospital e da humilhação na casa Menezes, voltou a doer.
Dessa vez, com força.
Uma dor profunda, que a fez se curvar levemente, apoiando-se em um poste. A respiração ficou curta. A náusea subiu rápido demais.
- Não… - murmurou, fechando os olhos.
Ela não aguentaria mais andar.
Com dedos trêmulos, abriu o aplicativo de transporte e pediu um carro. Assim que o veículo parou, Lorena entrou no banco de trás sem dizer uma palavra, abraçando a bolsa contra o peito como se fosse a única coisa que ainda lhe pertencesse.
O carro arrancou.
Ela não viu o veículo escuro que começou a segui-la desde o momento em que Lorena cruzara o portão da casa Menezes, Rafael mandara alguém atrás dela.
Enquanto isso, na mansão, o clima era pesado.
Sônia ainda falava, despejando veneno sobre o nome de Lorena, enquanto Nina assentia, fingindo compreensão, fingindo tristeza.
- Ela sempre foi ingrata - dizia a mãe. - Sempre soube que não estava à altura…
- Chega.
A voz de Rafael cortou o ar como uma lâmina.
As duas se calaram imediatamente.
- Saiam - ele ordenou, sem levantar o tom. - Agora.
Nina tentou se aproximar.
- Rafael, eu só estava tentando…
- Saia - repetiu.
Não havia espaço para questionamentos. O olhar dele estava duro demais, perigoso demais.
As duas mulheres deixaram o quarto em silêncio.
Rafael fechou a porta e ficou sozinho.
O quarto parecia maior agora. Vazio. Frio.
No chão, espalhadas de qualquer jeito, estavam algumas roupas de Lorena. Marta havia obedecido à ordem - jogado ali o que supostamente não "pertencia" a ela.
Rafael se abaixou lentamente.
Pegou uma das blusas. Aproximou o tecido do rosto e inspirou fundo.
O perfume dela ainda estava ali.
Um nó se formou em seu peito, misturado com raiva, frustração e algo que ele se recusava a chamar de culpa.
Ele tinha se sacrificado tanto.
Desde o primeiro dia na faculdade, desde o instante em que a viu sentada sozinha, concentrada, alheia a tudo. Ele se apaixonara ali. À primeira vista.
E tentou de tudo para conquistá-la.
Foram cinco anos.
Flores. Convites. Promessas.
E ela sempre fria. Distante.
Sempre dizendo que eles não combinavam. Que vinham de mundos diferentes. Que ela não era o tipo de mulher que frequentava os círculos dele.
Uma pedra de gelo.
Mas ele insistiu. Porque sabia, no fundo, que ela era a mulher certa. Só precisava enxergar.
E quando finalmente enxergou, quando finalmente aceitou ser sua esposa, ele a envolveu em tudo o que ela nunca teve.
Luxo. Proteção. Conforto.
Rafael deixou a blusa de lado e caminhou até o closet.
Abriu as portas.
Lá estavam os vestidos. As bolsas. Os sapatos. Coisas que ela jamais poderia ter comprado com o salário que ganhava antes. Coisas que ele deu sem hesitar.
Passou os dedos pelos cabides, um por um.
Lembrava de cada peça. O vestido azul que ela usou no aniversário dele. O vermelho no réveillon. O casaco de cashmere que ela achou "exagerado", mas que ele comprou mesmo assim.
Ela reclamava, às vezes. Dizia que era demais. Que não precisava.



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