Sara Lemos
— O que ele disse, Soraya?! — A voz estridente do meu pai ecoava pela casa, cheia de raiva.
Quando contei o que aconteceu aos meus pais, os dois praticamente me engoliram com os olhos, como se eu fosse a culpada por tudo. Procuramos por Raquel em todos os cantos, mas não havia nenhum sinal dela. Era como se ela tivesse evaporado.
— Ele disse que não se importa com mais nada. Que não vai passar pelo vexame de ser abandonado na frente de todos aqueles convidados — revelou minha mãe, pálida, pressionando o celular contra o peito.
— Como você deixou isso acontecer, Sara?! — Meu pai gritava, vindo em minha direção com o olhar faiscando.
— Pai, eu não tive culpa! — respondi, sentindo o coração disparar no peito.
— Como não teve?! — Ele berrou. — Você devia ter nos contado o que sua irmã estava planejando no momento em que soube!
— Seu pai tem razão — minha mãe completou, me lançando um olhar que me cortava como lâmina. — Você deixou isso acontecer de propósito, não deixou? Sempre teve inveja da Raquel.
— Mãe… — tentei falar, mas ela não me deixou.
— Sempre foi invejosa! E agora deve estar se divertindo com essa confusão toda!
— Por que estão me culpando pelos erros da Raquel?! — rebati, sentindo meu peito estremecer. — Foi ela quem fugiu com outro homem, ela quem abandonou o noivo no altar!
— E você deixou! — Minha mãe rosnou. — Assistiu de camarote e não fez nada para impedir!
Ela então se voltou para o meu pai com a expressão de desprezo.
— Sérgio… eu não sei onde estava com a cabeça quando decidi tê-la. Desde que a Sara nasceu, só trouxe vergonha e decepção para essa casa.
Fiquei parada ali, completamente estática. Era como se algo dentro de mim tivesse quebrado de vez. Era a minha irmã quem estava causando todo aquele caos. Era ela quem havia fugido, quem havia jogado nossa família no ridículo. Mas, como sempre… era eu quem levava a culpa.
— Não é hora de discutir isso, Soraya — meu pai disse, andando de um lado para o outro, feito um animal encurralado. — Precisamos de uma solução imediata, ou o Renato vai nos odiar tanto que nunca mais vai nos ajudar financeiramente.
— E ele deixou isso bem claro — minha mãe completou, pressionando o celular. — Disse que, se não dermos um jeito, ele vai acabar com a gente. Você tem ideia da gravidade disso?
Foi só tocar no assunto financeiro que o rosto do meu pai perdeu a cor. Era como se um espírito maligno o tivesse possuído. A pequena empresa de locação de caminhões dele dependia quase inteiramente dos contratos com Renato. Se ele cortasse tudo, seria o nosso fim.
— E o que ele quer que façamos, hein?! — gritou meu pai, furioso, arremessando um dos vasos da sala contra a parede. — A Raquel sumiu!
— Ele disse que, se uma noiva não entrar naquela igreja e poupá-lo do vexame, vai nos abandonar… e nos reduzir a pó — respondeu minha mãe, com a voz trêmula.
— Uma noiva? — meu pai perguntou, franzindo a testa.
— Isso mesmo.
— Mas… ele especificou que tinha que ser a Raquel?
— Não — ela ponderou, pensativa. — Ele só disse que queria ver uma noiva entrar pela porta da igreja.
Meu pai então levou a mão à cabeça, pensativo. O olhar dele mudou. De confuso para… calculista.
— Claro que sabem! Isso está estampado nessa sua cara horrorosa! — Ela cuspiu as palavras enquanto rasgava minha roupa com pressa. — Mas pelo menos o vestido serve!
Enquanto me insultava, ela vestiu o vestido branco com brutalidade, como se quisesse me sufocar com cada botão. Em seguida, prendeu metade do meu cabelo, puxando com tanta força que senti os olhos lacrimejarem.
— Nem vou perder tempo com maquiagem. Nada vai salvar essa sua cara feia — murmurou, ajustando o véu sobre meu rosto.
Quando terminou, me arrastou até o carro. Meus pés mal tocaram o chão. Tudo parecia um pesadelo.
— Eu não sei o que o Renato planeja, mas apenas aguente firme e resista até o fim — minha mãe disse, enquanto meu pai dirigia.
Chegando à igreja, tudo parecia surreal. Eles iam mesmo me jogar naquela armadilha.
— Tira esse óculos ridículo do rosto dela — ordenou meu pai.
Minha mãe os arrancou do meu rosto antes que eu pudesse protestar.
— Eu… eu não consigo enxergar sem eles — murmurei, vendo tudo ao meu redor virar uma névoa.
— Você não precisa enxergar nada! — meu pai disse, me empurrando para a porta da igreja. — Apenas caminhe reto. Quando sentir o seu pé bater no degrau do altar, pare e sorria!
Tentei me desvencilhar. Tentei resistir. Mas, antes que eu conseguisse fazer qualquer coisa… as portas da igreja se abriram.
E a marcha nupcial começou a tocar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Esposa substituta: Prometo te odiar!