Renato Salles
Os minutos que se seguiram àquela ligação da Soraya foram, sem dúvida, os mais longos da minha vida. Tudo o que eu queria era desaparecer dali. Sair daquela igreja, sumir do mapa. Mas só de imaginar o que diriam de mim… o noivo abandonado no altar… a piada pronta para colunas sociais, rodas de negócios e até memes na internet… meu sangue fervia.
Meu orgulho não permitia.
Aqueles desgraçados da família Lemos iam ter que dar um jeito. Não me importava como. Ou resolviam essa palhaçada, ou eu faria questão de arrastar o nome deles pela lama até que nenhum deles pudesse andar de cabeça erguida de novo.
Com a respiração descompassada, fui até o banheiro que, provavelmente, pertencia ao padre da paróquia. Lavei o rosto na pia. A água fria mal aliviava o calor que subia pela minha pele. Meus olhos estavam vermelhos. A testa, coberta de suor.
Alessandro.
Só de pensar naquele canalha com a Raquel, meu estômago revirava. A raiva me consumia.
Como fui tão estúpido? Como não percebi que havia algo estranho entre eles? A forma como se olhavam… as conversas cochichadas… o tempo demais juntos. Estava tudo na minha cara, mas eu escolhi não ver.
Lembrei-me do sorriso da Raquel. Da maneira como me fazia acreditar que era meu. E, de repente, meu peito apertou como se algo tivesse sido me arrancado à força.
Como ela pôde fazer isso comigo? Logo comigo, que daria até a vida por ela?
— Está tudo bem, filho? — ouvi uma voz masculina atrás de mim. Virei-me e dei de cara com o padre que celebraria o casamento.
— Está, sim, padre. Só um pouco nervoso — respondi rápido, mentindo sem hesitar. Nunca me rebaixaria ao ponto de expor minhas desgraças para alguém.
Se tem uma coisa que sempre me manteve firme nesta vida, foi meu orgulho. E era ele que ainda me mantinha ali, de pé, vestindo um terno, esperando por uma noiva que não viria.
— É normal os noivos ficarem assim — o padre continuou com um sorriso sereno. — Mas lembre-se de uma coisa, meu filho: o casamento é um dos passos mais sagrados e lindos que um homem pode dar. É a união que Deus abençoa.
Fechei os olhos por um instante. Sagrado, ele disse. A palavra pesa nos meus ombros como uma piada cruel. Tudo isso virou uma farsa.
E, ainda assim, eu estava aqui.
— O senhor tem razão — respondi ao padre, forçando um tom respeitoso, mas com uma vontade imensa de mandá-lo à merda.
Se o casamento era tão maravilhoso assim, por que ele escolheu o celibato? Pensei, com sarcasmo. Mas engoli seco. Já tinha problemas demais para arrumar mais um.
— A noiva já deve estar chegando, não é mesmo? — perguntou ele, olhando para o relógio pendurado na parede.
— Espero que sim — respondi, desejando com todas as forças que aquilo fosse verdade.
Então, o meu celular vibrou no meio da conversa. Uma notificação de Soraya. Abri a mensagem imediatamente.
“Arranjei uma noiva.”
Fiquei paralisado. O que ela queria dizer com isso? Digitei sem pensar:
Quem é?
A resposta veio em segundos:
“Sara. Irmã da Raquel.”
Sara? O nome pareceu vago, sem nenhum rosto que me vinha à mente. Desde o início do meu namoro com Raquel, falávamos pouco sobre família. Era sempre tudo sobre nós dois. Quando fui à casa dela para pedi-la em noivado, essa tal irmã sequer estava presente. Nem me lembro de Soraya ter mencionado outra filha naquela casa.
Que tipo de jogo sujo era aquele? Estava curioso, mas não me dei o trabalho de aprofundar.
É bom que ela chegue logo… ou não respondo por mim.
“Estamos à porta”, Soraya respondeu.
— A noiva chegou. — Avisei ao padre.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Esposa substituta: Prometo te odiar!