Na cozinha, Lorena dava ordens às funcionárias aos gritos. Não se importava com quem pudesse ouvir ou comentar. Queria extravasar toda a raiva que carregava e encontrava naquelas pessoas a oportunidade perfeita para isso.
— Não são esses pratos que mandei trazer! — gritou, assim que viu a funcionária atravessar a cozinha com o jogo nas mãos. — Por acaso você é burra ou surda?
A mulher se encolheu no mesmo instante, assustada com a mudança brusca de humor da governanta. Os dedos tremeram ao segurar a louça.
— Desculpe, senhora… — murmurou, com a voz baixa, quase engolida pelo barulho da cozinha.
— Desculpa não resolve incompetência! — retrucou, avançando um passo. — Quantas vezes tenho que repetir a mesma coisa?
Ela girou o corpo, lançando um olhar ácido às outras funcionárias, que fingiam se ocupar de algo qualquer.
— Vamos logo, bando de incapazes! — gritou. — Não estão vendo que o almoço precisa sair na hora certa?
Odete entrou pela porta da cozinha, assustada com a movimentação e o tom elevado das vozes. Bastou um olhar para entender o que estava acontecendo. Viu Lorena humilhando as colegas de trabalho sem qualquer pudor e sentiu o incômodo subir de imediato. Mesmo sendo sua superior, tantos anos naquele lugar lhe davam a sensação, talvez a ousadia, de tentar intervir.
— O que está acontecendo aqui, Lorena? — perguntou, num tom mais contido. — Por que você está gritando desse jeito?
Lorena virou-se lentamente, com o rosto tomado por irritação. Seu olhar foi duro, quase desafiador para Odete.
— Desde quando tenho que te dar satisfação? — retrucou, sem baixar o tom. — Velha chata!
O silêncio caiu pesado na cozinha. As funcionárias prenderam a respiração, temendo o que seguiria. Odete sentiu o golpe das palavras, mas não recuou. Manteve-se ereta, encarando Lorena, mesmo com o coração acelerado.
— Não precisa tratar ninguém assim — respondeu, com esforço para manter a calma. — Todo mundo aqui está trabalhando.
Sem humor, Lorena soltou uma risada curta.
— Trabalhando? — ironizou. — Isso aqui é um bando de inúteis que só faz tudo errado. E você devia cuidar da sua vida antes de se meter onde não foi chamada.
Odete apertou os lábios, sentindo a humilhação, mas também a certeza de que alguém precisava dizer algo. Mesmo sabendo que aquela atitude poderia lhe custar caro, não se arrependeu de ter tentado.
— O senhor Renato nunca tratou nenhum funcionário do jeito que você está fazendo.
— É porque ele não tem que lidar com vocês pessoal e diariamente! — gritou, sem se importar. — Mas ele está muito ocupado e parece não se importar com o que acontece nesta casa.
Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço de Odete, claramente tentando intimidá-la.
— Agora me deixe, Odete — ordenou, ríspida. — Vá procurar o que fazer!
Odete manteve o olhar por mais um segundo, sentindo o peito apertar, mas percebeu que qualquer palavra a mais só serviria para alimentar aquela fúria.
Satisfeita com o silêncio imposto, Lorena cruzou os braços.
— Quero tudo pronto em vinte minutos — disparou, antes de sair da cozinha. — E não me façam perder a paciência outra vez.
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