Em seu quarto, Lorena começou a arremessar tudo o que encontrava pela frente, enquanto empurrava móveis sem cuidado algum.
— Maldição, maldição! — gritava, até derrubar a penteadeira.
Um dos frascos caiu no chão e se quebrou. Por coincidência, era o mesmo perfume que Renato usava. O cheiro se espalhou rapidamente pelo quarto e, no instante em que o reconheceu, ela parou. O ódio deu lugar a algo mais profundo, mais doloroso. Era o cheiro do homem que amava em silêncio há tanto tempo.
— Não pode ser… — sussurrou, com a voz falha. — Eu não posso te perder para uma pessoa dessas.
Tentando se controlar, deixou o corpo cair no chão e, sem forças para conter mais nada, começou a chorar. As lágrimas vieram pesadas, cheias de frustração e impotência.
Amava Renato havia anos, mas nunca tivera sequer uma chance real. Nunca foi vista, nem escolhida. Sempre esteve ali, à margem, observando-o seguir em frente como se ela não existisse. E agora, a simples possibilidade de vê-lo se entregar a outra mulher fazia tudo dentro dela desmoronar.
— Eu não posso deixar que ele fique com uma mulher como ela… não posso — murmurou, rancorosa. — Ela é sem graça, estúpida, irmã de uma traidora.
Apertando os punhos contra o chão, sentiu a raiva se misturar às lágrimas. Na cabeça dela, nada daquilo fazia sentido. Sara não tinha nada de especial, nada que justificasse o espaço que começava a ocupar. Ainda assim, estava ali, tomando um lugar que Lorena acreditava, no fundo, que deveria ser seu.
— Ela não merece — continuou, quase rosnando. — Não merece essa casa, não merece o nome dele… não merece nada do que está tendo.
O ódio foi substituindo o choro gradualmente. O olhar, antes perdido, começou a ganhar foco. Levantando-se devagar, foi até a gaveta do armário pegar o seu celular. Com as mãos ainda tremendo, procurou na agenda o número de Constança. Sabia que, se existia alguém capaz de deter aquela impostora naquela casa, era a mãe de Renato. O plano parecia claro em sua mente: bastava uma ligação, algumas palavras bem escolhidas, e tudo poderia mudar.
Quando a chamada começou a tocar, não demorou para que Constança atendesse.
— Lorena, por que está me ligando a essa hora? — disse, impaciente. — Estou no clube com algumas amigas e não gosto de ser incomodada.
— Me perdoe, dona Constança — respondeu, fingindo um tom de quase submissão. — É que a senhora solicitou que eu a avisasse assim que o Renato chegasse, e achei que deveria cumprir.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
— Então, o meu filho já está de volta?
— Sim, senhora… — confirmou. — Mas preciso avisar de antemão que ele pediu que eu não a informasse de modo algum.
— É claro — zombou Constança. — Isso é bem a cara do Renato. — Fez uma pausa curta. — E como ele está? Parece mais calmo?
Respirando fundo antes de responder, Lorena sabia que aquele era o momento certo. Precisava escolher bem as palavras.
— Na verdade, senhora… acho que as coisas estão se complicando ainda mais — disse, com a voz levemente envenenada, carregada de falsa preocupação.
Do outro lado da linha, o tom mudou.
— O que quer dizer com isso?
Apertando o celular com mais força, sabia que havia conseguido fisgar a atenção dela. Agora, bastava conduzir a conversa com cuidado o suficiente para plantar o ódio certo no coração da mulher.
— O senhor Renato parece bem diferente — começou, escolhendo cada palavra.
— Diferente como? — questionou Constança, desconfiada.
— Ele chegou com aquela mulher — respondeu, cheia de desdém na voz.
— Aquela porca? — disparou Constança, sem se importar com o tom.
— Ela mesma.
— Como assim?
— Se a senhora aparecer de repente, o Renato vai saber que fui eu quem a avisou — explicou, apressada. — E eu vou perder toda a confiança que ele ainda tem em mim.
Houve um silêncio tenso do outro lado da linha, seguido por uma respiração irritada.
— E o que você quer que eu faça? — retrucou Constança. — Que eu fique aqui parada, esperando o tempo passar?
— Não, senhora. Só peço que tenha mais um pouco de paciência. As coisas estão acontecendo rápido demais… e, se agirmos no momento errado, podemos acabar facilitando ainda mais para ela.
Constança soltou um suspiro duro, claramente contrariada.
— Eu não gosto nada disso, Lorena.
— Eu sei — disse ela, firme. — Mas, se a senhora confiar em mim por enquanto, prometo que não vou deixar essa situação sair do controle.
— Espero que não deixe mesmo — disse, contrariada. — Vou fazer assim: fico mais uma semana aqui. Mas você tem que me prometer uma coisa.
Lorena apertou o celular com força.
— O que a senhora quiser.
— Enquanto isso, essa desgraçada não pode ter um minuto de paz na casa, está me ouvindo?
— Como a senhora quiser.

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