Ao entrar na cozinha, Sara encontrou Odete organizando algumas coisas no armário. Assim que a viu, a mulher interrompeu o que fazia e abriu um sorriso sincero, daqueles raros naquela casa.
— Que bom vê-la novamente, Sara.
— Digo o mesmo, Odete — respondeu, aliviada. Sabia que aquela era a única pessoa ali que a tratava com gentileza.
Odete a observou por um instante, atenta demais para não perceber o abatimento.
— Como foram as coisas enquanto esteve fora? — perguntou.
— Horríveis — respondeu, sem rodeios.
A sinceridade a pegou de surpresa. Ela se aproximou um pouco mais, baixando o tom.
— Você não parece nada bem.
— E não estou — confessou. — Mas acho que estaria pior se não estivesse aqui.
Havia cansaço demais naquele olhar. Odete sentiu o aperto no peito e tentou amenizar o clima.
— Você quer comer alguma coisa?
— Eu adoraria — respondeu de imediato.
— Então, sente-se — disse, apontando para a mesa. — Vou preparar seu prato.
Com rapidez, serviu a comida e colocou o prato à frente de Sara. Em vez de se afastar, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela.
— Confesso que, quando você viajou com o senhor Renato, achei que não a veria mais.
— Como sabe, Odete, eu não tenho muita escolha — respondeu, baixando o olhar.
— Imagino… — Odete fez uma breve pausa. — Mas, pelo que soube, parece que vocês estão se dando bem agora.
Erguendo o olhar devagar, Sara arqueou uma sobrancelha.
— Por que você acha isso? — questionou.
Odete pareceu ficar sem jeito.
— Bem… — começou. — Fiquei sabendo que vocês vão dormir no mesmo quarto.
— Ah… — as bochechas dela queimaram no mesmo instante. — Isso não significa nada.
A resposta saiu rápida demais. Odete franziu levemente a testa, confusa com a negação tão firme.
— Não?
— Não do jeito que parece — completou, sem entrar em detalhes.
Odete a observou em silêncio por alguns segundos. Havia algo naquela resposta que não se encaixava.
— As coisas são mais complexas do que você imagina — disse Sara, depois de um instante.
— Que pena… — Odete soltou, pensativa.
— Por que diz isso?
— Não quero ser invasiva — completou, quase se desculpando.
— Você não é — respondeu, com sinceridade. — Pode falar o que pensa.
— Às vezes, a gente se protege tanto que acaba se fechando para qualquer possibilidade — respondeu. — Não estou dizendo que será fácil. Só que pode ser menos doloroso do que parece.
Respirando fundo, não sabia se estava pronta para tentar.
— Não consigo enxergá-lo com outros olhos. Ele foi o noivo da minha irmã… e agora é alguém que odeia toda a minha família.
Odete suspirou baixo, como quem já havia pensado nisso antes.
— Eu sei que isso pesa — respondeu com cuidado. — E não estou dizendo que você deva esquecer o passado. Só acho que, às vezes, a raiva faz a gente enxergar tudo do mesmo jeito.
— Para ele, eu sou só parte do problema — completou. — Não importa o que eu faça.
— Talvez importe mais do que você imagina — disse. — O senhor Renato guarda muita coisa dentro dele. Quando se sente ferido, ataca primeiro.
— Isso não o torna justo — rebateu, sem dureza, apenas cansada.
— Não — concordou Odete. — Mas o torna humano.
Houve um breve silêncio. Sara olhou para o prato à sua frente, já quase vazio.
— Eu não sei se tenho forças para tentar enxergá-lo diferente — confessou. — Estou aqui porque preciso, não porque quero.
Odete pousou a mão sobre a mesa, perto da dela, sem tocar.
— Então não tente mudar o que sente agora — disse. — Apenas não feche todas as portas. Às vezes, a convivência muda as pessoas…
Ela pensou em Renato e no modo como ele a tratava. Pensou na ironia constante, nas palavras lançadas sem cuidado, em tudo o que ele dizia e que acabava machucando mais do que admitia. Como poderia conviver melhor com um homem assim? Como tentar compreender alguém que, além de distante, parecia sempre disposto a feri-la com frases frias?
A dúvida pesou. Não era simples abrir espaço para a convivência quando cada tentativa vinha acompanhada de dor. Ainda assim, enquanto refletia, percebeu que continuar ali sem tentar nada talvez fosse ainda mais desgastante. Não sabia se conseguiria mudar o jeito dele, talvez nem fosse possível, mas começava a entender que precisaria, ao menos, encontrar uma forma de se proteger sem se fechar por completo.

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