~ ARTHUR ~
Soltei uma risadinha curta, irônica, sem humor nenhum.
— Leonora, sai do meu quarto. Não estou com paciência para picuinhas hoje.
Ela não se mexeu.
— Este não é mais o seu quarto.
Olhei para ela por um segundo. Para as malas. Para a expressão dela, que era a de alguém que tem carta na manga e sabe disso há tempo suficiente para ter ensaiado o momento.
— Se você realmente acredita que vai conseguir alguma coisa com essa estratégia ridícula de contestar o testamento do Augusto — falei, já me movendo para o guarda-roupa como se ela não estivesse ali — você ao menos deveria esperar pela decisão do juiz antes de começar a rearranjar móveis alheios.
— Já esperei.
Parei.
Ela abriu a bolsa com aquela lentidão calculada de quem quer que o outro observe cada movimento, tirou um documento dobrado e estendeu para mim com a calma de quem está entregando o golpe final de uma partida que começou muito antes.
Peguei.
Formatação jurídica, cabeçalho do tribunal, data de ontem. Continuei lendo, tentando absorver antes de reagir, as frases saltando antes que eu conseguisse processar cada uma com a calma que precisariam:
"Defiro, em tutela de urgência, a indisponibilidade e o sequestro cautelar dos bens móveis e imóveis registrados em nome do requerido Arthur Sartori, inclusive dos apartamentos supostamente adquiridos, total ou parcialmente, com recursos desviados do Hospital Sartori & Altieri, vedando-se-lhe a alienação, oneração, transferência, posse direta, uso e fruição desses bens, até ulterior deliberação, bem como determino seu afastamento cautelar de toda e qualquer função administrativa, diretiva ou de gestão no âmbito do referido hospital e de suas entidades vinculadas."
Li duas vezes. A segunda mais devagar do que a primeira, como se o ritmo pudesse mudar o conteúdo.
Não mudou.
— O que significa isso? — As palavras saíram mais afiadas do que eu pretendia, mas eu estava além do ponto de me preocupar com o tom.
— Significa que você fraudou um teste de parentesco dentro do próprio hospital para fabricar uma herdeira e sustentar uma disputa patrimonial milionária — Leonora disse aquilo com a objetividade de quem está descrevendo o tempo lá fora. — O juiz entendeu que havia urgência em proteger o patrimônio enquanto a investigação corre.
O pior era que eu não podia contestar abertamente. Porque eu tinha feito aquilo do qual ela estava me acusando. Não para fabricar nenhuma herdeira, não para sustentar nenhuma disputa. Mas para proteger a Zara, para dar a ela tempo antes que o mundo inteiro começasse a fazer perguntas que ela não tinha respostas, para garantir que o que eu sentia por ela não fosse destruído por um papel antes que eu entendesse o que aquele papel significava de verdade.
Mas essas nuances não faziam diferença diante de Leonora, que só tinha olhos para aquela herança e para o que eu representava de obstáculo. Rebater seria confirmar. Ficar em silêncio também. Não havia saída boa naquele documento.


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