Entrei no helicóptero tentando não pensar que era a primeira vez na vida que entrava em um e que estava morrendo de medo.
Mas não podia me importar com isso. Tinha medos maiores no momento. Perder o Arthur. Perder o nosso filho. Não podia ficar nervosa por coisas tão pequenas quanto a primeira vez em um helicóptero, afinal havia pessoas que faziam isso todos os dias e sobreviviam perfeitamente bem, e o barulho do motor era alto mas controlado, e o espaço interno era apertado mas funcional, e o piloto parecia competente, e Thomas estava ali, e havia uma lógica perfeitamente razoável para aquilo tudo ser completamente seguro e...
— Ahhhhhhhhh — Soltei um grito.
Thomas soltou outro.
O helicóptero tinha feito uma manobra brusca e o suporte metálico do soro — que estava mal fixado na lateral da aeronave, preso num encaixe que não aguentou a aceleração lateral — se soltou e foi arremessado em direção ao Arthur. Thomas tentou usar as mãos para interceptar. Pegou com a mão direita aberta, os dedos sendo virados para trás pelo impacto num ângulo que produziu um estalo seco e inconfundível.
— Puta merda. — A palavra saiu baixa e controlada, o que aparentemente era a forma do Thomas de expressar dor intensa.
— Desculpem. — A voz do piloto chegou pelo comunicador interno. — Rajada de vento cisalhante na camada de ar que estávamos cruzando. Comum nessa altitude nessa época do ano. Já estabilizado.
— Rafael. — Thomas virou para o técnico, a mão direita pressionada contra o peito.
Rafael já estava se movendo — veio com uma atadura e imobilizou os dedos com a eficiência de quem foi treinado para situações exatamente desse tipo, dois dedos juntos, firme mas não apertado. Thomas testou o movimento. Conseguia fechar parcialmente, mas sem força real. A mão dominante estava fora de combate.
A viagem seguiu tranquila por um tempo que eu não soube calcular.
Fiquei olhando pela janelinha pequena, o mundo lá embaixo ficando cada vez menor conforme subíamos — estradas como fios, casas como caixinhas, rios como riscos prateados no verde. Olhar tudo aquilo, apesar do medo que ainda estava sentindo, era mais fácil do que ficar olhando para o Arthur ali, imóvel numa maca, com tubos e monitores e aquela palidez típica de quem está vivo mas não da forma que eu estava acostumada a ver ele vivo. Aquela imobilidade que não combinava com nada do que eu conhecia dele — o Arthur que preenchia os ambientes, que fazia a cabeça das pessoas virarem quando entrava num lugar, que tinha uma forma de estar presente que era difícil de ignorar mesmo quando ele não estava fazendo nada de especial.
Ali estava quieto demais.
— Ele vai sair dessa. — A voz do Thomas chegou baixa, quase para si mesmo, como se estivesse pensando em voz alta.
— Esse é seu diagnóstico médico ou seu desejo pessoal? — Parei de olhar pela janela e desviei o olhar na direção do Arthur.
Thomas levou alguns segundos antes de responder.
— É meu parecer de melhor amigo. — Disse, por fim. — A pessoa que está ao lado dele há anos e sabe que o Arthur é um cabeça dura que não desiste de nada do que quer até conseguir. Que luta por cada vida dentro daquele hospital. — Fez uma pausa antes de completar. — Imagina o que ele não vai fazer pela própria, hein?
Soltei uma risadinha que não esperava que saísse, mas que saiu de um lugar honesto.
— Sim. Um cabeça dura. — Concordei.
E por alguns segundos ficamos ali em silêncio, os dois olhando para o Arthur, com aquela paz de quando você para de lutar contra o que não pode controlar e simplesmente fica presente no momento que existe.

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